"Fomos atacados e mortos, mas a esperança continua"

Encontro de Rímini: dom Kaikama explica como fomentar a paz e a coexistência evitando o ódio

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Antonio Gaspari

RÍMINI, Itália, quarta-feira, 22 de agosto de 2012 (ZENIT.org) - Um pequeno grupo de extremistas tenta desencadear uma guerra civil na Nigéria. Eles se chamam de Boko Haram, dizem que são contra a educação e a cultura ocidental, atacam e incendeiam igrejas cristãs, disparam contra os fiéis. Desde janeiro, mataram mais de 800 pessoas. O governo não faz nada e os militares são incapazes de detê-los. Em face destes ataques, muitos cristãos se vêem tentados a responder com as armas: a tentação é forte, mas seria o início de uma guerra civil.

Convidado do Encontro de Rímini para a Amizade entre os Povos, dom Ignatius Kaikama, arcebispo de Jos e presidente da Conferência Episcopal da Nigéria, afirmou aos repórteres que quando as igrejas são queimadas, os bens destruídos, os amigos e parentes mortos, explode uma raiva "difícil de aplacar".

"Os ataques puseram à prova a fé de muitos, porque não é fácil falar de amor e de perdão nessas condições".

Em 11 de março deste ano, o Boko Haram atacou a igreja de São Finbar e matou 15 pessoas. “Quando eu cheguei no local”, conta o arcebispo, “achei tudo destruído. Os jovens estavam revoltados e tristes e me pediam para fazer alguma coisa. Alguns me acusavam de ser muito amigável com os muçulmanos e queriam pegarem armas. Eume virei e me ajoelhei diante das imagens sagradas. De repente, os rapazes fizeram silêncio. Eu disse para eles irem para casa e não deixarem prevalecer a raiva e o ódio".

"Mesmo sozinho e sujeito aos ataques, a graça do Senhor está sempre comigo", ressalta Kaikama. "Fomos atacados e mortos, mas a esperança continua", acrescenta.

Em entrevista concedida a Zenit, o presidente da Conferência Episcopal da Nigéria comenta que os cristãos estão espalhados por todo o país. É verdade que há áreas em que alguns pretendem estabelecer a sharia e caçar ou converter à força os cristãos, mas também é verdade que, na maioria dos casos, não é difícil estabelecer boas relações entre os cristãos e os muçulmanos.

Kaikama criou um centro de formação na diocese de Jos, onde cristãos e muçulmanos estudam juntos. É um centro de paz e de diálogo.

O atual presidente da Nigéria é cristão e dom Kaikama acredita que os ataques de fundamentalistas são apoiados por forças políticas que querem derrubar o governo e criar confusão. Não há provas suficientes de que o Boko Haram seja sustentado por forças externas ao país.

Em todo caso, de acordo com o arcebispo, a única solução é fortalecer o diálogo e a paz. Dom Kaikama conta que a Igreja Católica dedica muito tempo a ajudar as pessoas, fornecendo educação, serviços de saúde, água potável e muitas outras formas de apoio.

Para promover a paz e a amizade, o arcebispo nigeriano compartilhou suas refeições com os muçulmanos. Há alguns dias, ele foi convidado à mesquita para celebrar o fim do Ramadã.

O presidente da Conferência Episcopal da Nigéria concluiu seu discurso enfatizando que Jesus morreu na cruz com os braços abertos para "abraçar toda a humanidade", e pediu orações pelo fim da violência e para garantir que a Nigéria permaneça unida.

(Trad.:ZENIT)