Formação religiosa deve se adaptar às exigências dos leigos

Segundo Dom Bruguès, secretário da Congregação para a Educação Católica

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Por Stéphane Lemessin

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 13 de outubro de 2008 (ZENIT.org).- No último dia 25 de setembro, o prefeito da Sagrada Congregação para a Educação Católica da Santa Sé, cardeal Zenon Grocholewsky, apresentou, numa coletiva de imprensa, uma instrução que regulará os Institutos Superiores de Ciências Religiosas católicos do mundo.

Trata-se de unificar critérios no âmbito mundial, quanto a grade curricular e organização destes Institutos, que surgiram com o Concílio Vaticano II para responder ao crescente interesse dos católicos, em particular leigos e religiosos, pelo estudo da Teologia e de outras ciências sagradas.

Por este motivo, Dom Jean-Louis Bruguès, arcebispo da Congregação para a Educação católica, concedeu esta entrevista à Zenit; nela explica o sentido desta reforma e apresenta as adaptações que a Congregação fez para permitir a um número maior de leigos o acesso a uma formação de qualidade.

Que relação há hoje entre os Institutos de Ciências Religiosas e as Faculdades de Teologia?

Dom Bruguès: Temos de compreender bem a situação: na Igreja há um movimento que consiste em dar cada vez mais responsabilidades aos leigos. E precisamos ver isso como um movimento de confiança. Às vezes se trata de atividades tradicionalmente externas à Igreja, como os investimentos no mundo econômico, o mundo cultural... Mas – e isso é novo – se pede maior serviço aos leigos no interior da Igreja.

Quem fala de serviços e responsabilidades fala necessariamente de formação. É preciso que estes leigos estejam capacitados para responder às expectativas que recaem sobre eles nestas diversas atividades.

Então, há diversos tipos de formação; as dioceses sempre tiveram algum tipo de formação para leigos, mas isso não permitia a obtenção de títulos acadêmicos. Era uma medida para colocá-los no nível adequado.

Os leigos costumavam inscrever-se nas faculdades de teologia, já que eram as únicas instituições que previam um diploma reconhecido pela Igreja e que poderia garantir-lhes uma transição geográfica, pois com o diploma poderiam morar fora.

Percebemos, então, que não se podia pedir aos leigos que recebessem uma formação que, inicialmente, era para os clérigos.

Sempre houve leigos nas faculdades, mas o número era simplesmente mais limitado. Quando o número de leigos começou a ser mais significativo, criamos no seio das faculdades ciclos diferentes. Tratava-se, em outros termos, de encontrar uma formação que se adaptasse melhor.

E quais foram as modalidades desta adaptação da formação?

Dom Bruguès: Por exemplo, um leigo não pode se ausentar do trabalho durante 3 ou 4 anos. Foi preciso conceber uma formação que fosse compatível com suas atividades profissionais. Era necessário também ter uma formação compatível com a vida familiar, já que a maior parte dos leigos, não todos certamente, mas a maioria, está casado e tem filhos.

E percebemos que não podíamos pedir aos seminaristas que cursassem os estudos à noite, porque eles têm obrigações no seminário; nem podíamos pedir aos leigos que cursassem os estudos pela manhã. Então, vimos que era preciso ter 2 tipos de formação. E isso se acentuou quando vimos que não podíamos pedir aos leigos que seguissem cursos claramente orientados à formação clerical – penso no campo sacramental, na celebração dos sacramentos.

Por outro lado, tínhamos a necessidade de que os leigos seguissem cursos mais sólidos em alguns campos. Falo, por exemplo, da minha área, a teologia moral econômica, a moral econômica e política... Era preciso desenvolver mais este campo. Há, portanto, considerações de cunho metodológico e também de conteúdo.

Mas os leigos não devem pensar que os institutos estão à sua disposição como se fossem uma formação rebaixada. É uma formação que visa à excelência universitária, porque um instituto não pode existir se não for sob a responsabilidade de uma faculdade de teologia, não pode existir por si só.

E por que, ao invés de criar novos institutos, não se transformavam e conservavam os ciclos que existiam nas faculdades?

Dom Bruguès: Quando se trata de leigos que são da diocese ou do lugar onde se encontra a faculdade, não há problema. Mas não podemos esquecer que temos leigos que vêm de dioceses vizinhas, e que é complicado para eles.

Dissemos que uma faculdade de teologia podia ter institutos ao redor dela. Há países, como a Itália ou a Espanha, onde houve uma multiplicação desses institutos: na Itália há 74 e na Espanha, cerca de 30. No entanto, na França, não se desenvolveram, ainda que recentemente recebemos demandas de criações de institutos. De fato, se eu me colocar no lugar do decano de uma faculdade de teologia, mais do que me complicar com vários ciclos dentro da minha faculdade, eu estaria contente por ter um instituto que dependesse da faculdade, mas que fosse específico para esses leigos.

De quantos estudantes estaríamos falando?

Dom Bruguès: Isso depende muito de países e lugares. Então, já que você fala de números, nosso documento especifica que habitualmente um instituto não pode ter menos de 75 inscritos. Evidentemente, vimos institutos serem criados com algumas pessoas, mas isso não era significativo. Um mínimo de 75 inscritos, mas igualmente um mínimo obrigatório de 4 professores estáveis totalmente dedicados ao instituto, caso tenham apenas o 1º ciclo; e 5 professores, se tiverem também um 2º ciclo.

É sério, não é uma formação rebaixada. Por outro lado, os diplomas são entregues em nome da faculdade, pelos professores da mesma, que oferecerão um ensino da mesma qualidade, simplesmente adaptado. Para responder à sua pergunta, seria necessário considerar a situação de cada uma das faculdades de teologia. Na França, imagino que o Instituto Católico de Paris, e talvez a Faculdade de Notre-Dame, tenham a possibilidade de criar vários institutos, que poderiam estar em Paris ou fora.

Nestes institutos a finalidade formativa é mais pastoral?

Dom Bruguès: Não necessariamente. Nós nos referimos a uma formação adaptada ao estilo de vida e à atividade dos leigos. As atividades não são necessariamente pastorais. Os leigos sempre tiveram a missão de dar testemunho do Evangelho no lugar onde se encontram: na família, na vida profissional; mas hoje esta missão está renovada, é uma nova evangelização. Então, como ajudá-los nesta nova evangelização? Existe um aspecto pastoral, mas isso estritamente não é só pastoral; devemos pensar na nova evangelização confiada aos leigos. Não é confiada exclusivamente aos leigos, mas principalmente a eles. Então, como formá-los?

E estes institutos seriam especializados em algum campo particular?

Dom Bruguès: Podemos imaginar isso. Necessariamente, haveria uma formação teológica, que seria ao mesmo tempo sintética e orgânica, com a ambição de formar os leigos teologicamente, mas podemos imaginar institutos que se especializassem em um campo concreto. Penso em atividades que seriam confiadas aos leigos, como a vida econômica, a vida profissional, o campo político; mas também as comunicações e um âmbito que me parece muito importante, de onde se espera muito: a cultura.

Então podemos dizer que com este documento começa a reforma dos textos normativos referentes à formação universitária, como como Sapientia Christiana, de 1979?

Dom Bruguès: Esta data mostra que somos uma geração posterior. E agora, em 25 anos, acontecem muitas coisas de uma geração a outra. Nossa congregação está convencida de que é preciso refazer os textos, não a partir do zero, mas sim com uma atualização, tanto para as faculdades como para os institutos. O documento que foi apresentado faz parte deste aggiornamento, porque se percebeu que estes institutos, que verdadeiramente tinham se multiplicado, careciam de critérios comuns.

Criando estes institutos e enviando leigos a eles, não acabariam se esvaziando as faculdades de teologia em lugares onde ás vezes estas são frágeis?

Dom Bruguès: É para isso que precisamos estudar cada situação! Se em uma faculdade de teologia não há clérigos em formação, não vamos fazer institutos, já que os leigos estão lá. No entanto, quando temos uma faculdade onde a presença dos sacerdotes é dominante, vale a pena criar um instituto para os leigos. De fato, estes institutos existem há mais de 20 anos. Não há nada novo nisso.

E não existe o risco de separar a formação dos clérigos e a dos leigos, tornando-a uma formação mais teórica, porque ocupa toda a semana a tempo integral, frente a uma formação que seria mais leve?

Dom Bruguès: Não acho. Mas tudo depende da forma como isso será realizado. Mas a faculdade de teologia se torna institucionalmente garantia da qualidade do ensino que é dispensado. O fato de que os professores sejam comuns também é uma prova desta seriedade. E não imagino que uma faculdade de teologia se contente só com uma formação teórica. Se há clérigos, é preciso formá-los pastoralmente. É parte da sua missão.

Então, a preocupação pastoral e a visão do ministério confiado aos leigos ou aos clérigos fazem parte da sua formação?

Dom Bruguès: Sim, certamente.