Formadores de sacerdotes do Brasil

Entrevista exclusiva com o presidente da OSIB, Pe. Paulo Batista

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 1597 visitas

Começou, em Aparecida, no dia 21 e vai até amanhã, 25 de janeiro, o Encontro Nacional de Formadores e Diretores Espirituais com o tema "A Diocesaneidade como Fundamento da Espiritualidade Presbiteral Alicerçada no Bom Pastor e na Caridade Pastoral".

Promovido pela OSIB (Organização dos Seminários e Institutos do Brasil), o encontro está trabalhando a distinção entre a espiritualidade específica do Presbítero diocesano e as diferentes espiritualidades, além de fortalecer a identidade e a vivência espiritual na vida e missão do presbítero diocesano e focalizar a Eucaristia como fonte e ápice da espiritualidade do presbítero diocesano.

Em entrevista exclusiva à ZENIT, Pe. Paulo Batista, presidente da OSIB, quis compartilhar com os nossos leitores o significado desse Encontro Nacional de Formadores e Diretores Espirituais.

Publicamos a entrevista na íntegra.

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ZENIT: O que se entende por Diocesaneidade?

Pe. Paulo: Lembrando que todos os sacerdotes são diocesanos, pois atuam em uma diocese, ou Igreja Particular, na qual se “encarna” a Igreja Universal, Igreja de Cristo. Contudo, há uma distinção entre aqueles que são incardinados a uma diocese e aqueles que estão ligados a um instituto religioso, pois, “todo o clérigo deve estar incardinado numa Igreja particular ou prelazia pessoal, ou em algum instituto de vida consagrada ou sociedade tenham tal faculdade” (Cân. 265).

O sacerdote que, pela ordenação se incardina numa diocese, depende diretamente do Bispo e vive sua experiência de diocesaneidade em comunhão com ele e com o presbitério. Estes são também chamados diocesanos. Os outros também são diocesanos, enquanto exercem sua missão numa diocese, e com os presbíteros diocesanos vivem a comunhão presbiteral. “Todos os presbíteros, e especialmente aqueles que por título particular da sua ordenação são chamados sacerdotes diocesanos, lembrem-se de quanto ajudam para a sua santificação a união fiel e a cooperação generosa com o próprio Bispo” (LG 41) e, “cada sacerdote, seja diocesano ou religioso, está unido aos outros membros deste presbitério, na base do sacramento da Ordem, por particulares vínculos de caridade apostólica, de ministério e de fraternidade. De fato, todos os presbíteros, quer diocesanos quer religiosos, participam do único sacerdócio de Cristo Cabeça e Pastor, trabalham para a mesma causa” (PDV 17). Acredito que essas duas citações esclarecem a pergunta.

ZENIT: Em que se fundamenta a espiritualidade do sacerdote diocesano?

Pe. Paulo: A espiritualidade do sacerdote diocesano está na origem do ministério ordenado, instituído por Cristo (Mt 26, 26-29; Lc 22, 14-20). Ele, Jesus e sua ação salvífica, ou seja, toda a sua ação pastoral constitui o fundamento da espiritualidade do padre diocesano. “Eu sou o Bom Pastor que dou a vida por minhas ovelhas... Eu que sou Mestre e Senhor vos lavei os pés... vá e faça o mesmo” (Cf Jo 10, 1-17; 13, 1-20). A espiritualidade do padre diocesano é a espiritualidade presbiteral, vivida em plenitude no serviço dentro de uma Igreja particular, em comunhão com a Igreja universal. É na Igreja diocesana, e mais particularmente, na comunidade paroquial, que a espiritualidade do padre diocesano torna-se uma mística, experiência profunda e existencial com o Deus. É no cotidiano da comunidade eclesial, no contato direto e diário com o povo a ele confiado que a espiritualidade do padre diocesano vai-se conformando diretamente à espiritualidade do próprio Jesus de Nazaré. O padre diocesano, bem como todo sacerdote, deve olhar para a vida de Jesus e imitá-lo, somente assim, alimentado e saciado pela vida em Cristo, poderá corresponder às exigências da comunidade, ou seja, a sede e fome do povo, por pastores que sejam sinais de Jesus Bom Pastor. A Exortação Pós-sinodal Pastores Dabo Vobis e o Diretório para o Ministério e a Vida do Presbítero, bem como as Diretrizes para a Formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil, nos apresentam o eixo central da espiritualidade sacerdotal: Palavra, Sacramentos, principalmente da Eucaristia e da Misericórdia, oração e caridade pastoral. Não se pode esquecer de que o Padre diocesano se alimenta da comunhão com seu Bispo de quem depende espiritualmente e do presbitério, comunhão com os irmãos gerada pelo sacramento da Ordem. É aí que o sacerdote se sustenta espiritualmente para exercer com intensidade sua missão. Podemos melhor compreender ao ler um trecho do Diretório para o Ministério e a Vida do Presbítero, “O sacerdote ministerial encontra a sua razão de ser nesta união vital e operacional da Igreja com Cristo. Com efeito, mediante tal ministério, o Senhor continua a exercer no seu Povo aquela atividade que só a Ele pertence enquanto Cabeça do seu Corpo.” (DMVP 1). Resumindo a espiritualidade do sacerdote diocesano é cristológica, trinitária, eclesiológica, escatológica e mariológica.

ZENIT: Como seria o Bom Pastor brasileiro?

Pe. Paulo: Essa é uma pergunta muito importante. E para responder, podemos iniciar com outro questionamento que nos conduz a uma profunda reflexão. O que os evangelhos nos revelam da vida de Jesus e de suas atitudes pastorais? E, como os Atos dos Apóstolos e as cartas dos mesmos nos apresentam a vida e ação pastoral, evangelizadora dos primeiros seguidores de Jesus, o Bom Pastor? Seria necessário, não ler, mas meditar e rezar com o Novo Testamento para descobrir como seria o Bom Pastor que o povo brasileiro espera e necessita.

Um homem: acolhedor, que sabe escutar, de coragem para enfrentar os desafios da atualidade, da tecnologia e da cultura; um homem simples e amável, capaz de conviver com todas as classes sociais, um homem que não tem tempo para si, mas se dedica ao povo e que pouco fica em sua casa e sacristia, porém, que vá as mais diversas realidades em sua paróquia, ou seja, um padre missionário, que amplia a visão de Igreja e não reduz sua preocupação em evangelizar somente à sua paróquia e diocese, mas, corresponsabiliza com missão da Igreja Universal, missão Ad Gentes; um homem com um coração grande e uma alma magnânima. Bom, sem ser simplista na resposta, que seja outro Bom Pastor para cada “outro” que encontra no seu caminho.

ZENIT: O evento que acontece agora em Aparecida está destinado só ao clero diocesano?

Pe. Paulo: Esse encontro de formação para formadores em primeira instância tem como objetivo atingir os presbíteros diocesanos, uma vez que a CRB promove encontros específicos para os religiosos, embora o convite se estenda também ao clero religioso. Sempre estiveram conosco alguns padres religiosos e os acolhemos com muita alegria e estima. Sejam sempre bem vindos.

ZENIT: Qual a importância que os formadores de sacerdotes do Brasil estão dando para a oratória Sagrada?

Pe. Paulo: Fui professor no seminário, fui, porque estou deixando a formação, uma vez que o meu bispo diocesano me chamou de volta para a Diocese de Uruaçu-GO e estarei assumindo, a partir de 17 de fevereiro, uma paróquia. Como formador tenho que confessar que a formação nessa área está um pouco frágil, não creio que em toda a sua realidade, mas alguns seminários podem - como sempre podemos - aprimorar. É preciso investir mais na formação retórica clássica, teológica, bíblica, a fim de melhorar a oratória de nossos formandos. “A formação pastoral deve educar os futuros sacerdotes para o exercício do ministério da Palavra, da santificação e da caridade. Particular atenção merece uma preparação conveniente no campo da homilética” (Pontifícia Comissão para a América Latina, atual da formação sacerdotal nos Seminários da América Latina e do Caribe 20 de fevereiro de 2009).

Se faz necessário superar as dificuldades de comunicar a mensagem de Jesus com conhecimentos profundos de forma entusiasmada e apaixonada, que toque o coração e a mente da assembleia ou dos ouvintes. Hoje temos uma grande aliada, as novas tecnologias, mas nem sempre nós, presbíteros, estamos aptos a manipular essa “faca de dois gumes”, tão importante para a evangelização em nossos dias. Mas devemos usá-las, sabendo que “não é suficiente usá-las para difundir a mensagem cristã e o Magistério da Igreja, mas é necessário integrar a mensagem nesta "nova cultura", criada pelas modernas comunicações... com novas linguagens, novas técnicas, novas atitudes psicológicas (João Paulo II, Redemptoris missio, n. 37)

ZENIT: Os principais desafios dos formadores hoje...

Pe. Paulo: No contexto atual, formar sacerdotes assim configurados em seu ser e seu agir, constitui um enorme desafio que exige nossa responsabilidade como formadores. Um bom Seminário é a garantia de uma Igreja particular florescida e fecunda. Por isso, nas nossas reflexões, nos detivemos em considerar algumas linhas para um "projeto formativo do Seminário que proporcione aos seminaristas um autêntico e integral processo: humano, espiritual, intelectual e pastoral, centrado em Jesus Cristo o Bom Pastor". (Documento de Aparecida, n. 319). Hoje falamos de uma cultura contra-religiosa, anticlerical, indiferentismo e relativismo, subjetivismo religioso, ateísmo prático. Fala-se muito hoje de uma cultura líquida, da diversidade de juventudes, (X,Y, Z). Outra causa dos desafios é a situação familiar que encontramos atualmente. Os jovens que chegam às casas de formação são também frutos dessa realidade religiosa, social, econômica e cultural. E, não pode esquecer-se da era tecnológica em que os jovens estão inseridos. Essa realidade constitui grandes desafios na formação. Os formadores devem estar muito atentos e ao mesmo tempo abertos a acolher os jovens que vem dessas realidades, entendê-los e ajudá-los no processo formativo.

Outro desafio a ser enfrentados pelos formadores é o que o Papa Bento XVI tem citado em suas homilias, discurso e está explicitado nas Orientações para a Pastoral Vocacional 4: “Outro aspecto que desfavorece a vocação presbiteral é a gradual marginalização do sacerdote na vida social, com a conseqüente perda da relevância pública. Além disso, em muitos lugares a própria escolha celibatária é colocada em discussão. Não somente uma mentalidade secularizada, mas também opiniões erradas no interior da Igreja conduzem ao desprezo do carisma e da escolha celibatária, mesmo se não podem ser silenciados os graves efeitos negativos da incoerência e do escândalo, causados pela infidelidade aos deveres do ministério sacerdotal entre os quais, por exemplo, os abusos sexuais. Isso cria confusão nos próprios jovens que, não obstante isso, estariam dispostos a responder ao chamamento do Senhor. A própria vida presbiteral, arrastada no turbilhão do ativismo exagerado com a conseqüente sobrecarga de trabalho pastoral, pode ofuscar e enfraquecer a luminosidade do testemunho sacerdotal”. Além dessa situação ainda enfrentam, os formadores, a desestruturação das famílias e a redução do número de filhos. Não podendo deixar de citar as falsas e/ou fragmentadas concepções sobre o sacerdócio e sua missão que os vocacionados levam para os seminários ou casas de formação.