Francisco fala da pobreza com autoridade

O programa pastoral do Papa nos convida a considerar os mais necessitados como eles realmente são, nossos irmãos, filhos de um mesmo Pai amoros

São Paulo, (Zenit.org) | 912 visitas

Publicamos a seguir o testemunho enviado a ZENIT por José Caetano, fotógrafo que trabalhou como guia no grupo dos Vaticanistas que viajaram no avião do Papa nessa viagem ao Brasil, os chamados VAMP (Vatican Accredited Media Personal):

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Uma das maiores mensagens deixadas pelo Papa Francisco em sua primeira grande viagem fora da Itália, para a Jornada Mundial da Juventude no Brasil não foi somente dirigida aos jovens, mas a todos os homens, e não fez parte dos discurso, mas sim de suas ações.

Particularmente trabalhei como guia no grupo dos Vaticanistas que viajaram no avião do Papa nessa viagem, os chamados VAMP (Vatican Accredited Media Personal), e durante a viagem, logo antes do encontro do Pontífice com os representantes da Sociedade Civil no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, um dos jornalistas brasileiros que estavam ali me perguntou o que eu achava que o Papa iria falar para os empresários e políticos ali reunidos.

Não respondi imediatamente porque prever o que o Papa Francisco vai falar ou fazer é uma atividade digna de profetas altamente ungidos por Deus, e eu só sei fazer uma análise da conjuntura e tentar prever algo.

Mas uma constante no que se refere ao pontificado de Bergoglio é seu cuidado para com os pobres. Cuidado esse que não nasce de uma pseudo-teologia latina, como poderia se pensar de um Papa vindo da Argentina. Também não nasce simplesmente do fato de ter ele escolhido ao “pobrezinho” de Assis para homenagear ao se tornar Papa. Esse cuidado com os pobres, essa dedicação pela pobreza nasce de um método quase científico. Francisco experimenta a pobreza.

Em suas incansáveis visitas aos bairros pobres da capital portenha e sua visita à favela de Varginha, na comunidade de Manguinhos, no Rio de Janeiro, lhe conferem autoridade para tratar do tema da pobreza. Ele toca os pobres com seu coração e com suas mãos. Ele conhece e escuta os problemas das pessoas “descartadas” da sociedade. E identifica o que chama de “cultura do descartável”.

Em Manguinhos foi claro em dizer que “Nenhum esforço de ‘pacificação’ será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma. Uma sociedade assim simplesmente empobrece a si mesma; antes, perde algo de essencial para si mesma. Não deixemos, não deixemos entrar no nosso coração a cultura do descartável! Não deixemos entrar no nosso coração a cultura do descartável, porque nós somos irmãos. Ninguém é descartável!

O Pontífice identifica a causa do problema das sociedades modernas e dá a solução: compreender os outros como nossos irmãos. E por esse mesmo motivo, coloca a Fraternidade como tema da próxima Jornada Mundial da Paz, que sera celebrada no primeiro dia de 2014.

“A fraternidade, fundamento e caminho para a paz” é justamente o tema que Francisco nos coloca para meditar, imediatamente concordante com o que propõe em Manguinhos.

Por outro lado, se podemos identificar uma preocupação constante em todos os discursos e homilias do Papa nessa viagem ao Brasil e em outras ocasiões de seu pontificado, é seu desejo de que deixemos nossa zona de conforto e que saiamos de casa ao encontro dos mais pobres. Não simplesmente para torná-los alvo de qualquer programa assistencialista ou de uma pastoral desprovida de alma, de espiritualidade. O Papa nos manda colocar Cristo no centro de nossas vidas, e a partir daí, a partir da vivência do encontro com Cristo, ir ao encontro dos pobres como nossos irmãos.

A mensagem pastoral do Papa Francisco é exigente, pois não somente nos convida a sermos agentes de qualquer programa paliativo, que simplesmente alivie o sofrimento de algumas pessoas, mas o programa pastoral do Papa nos convida a considerar os mais necessitados como eles realmente são, nossos irmãos, filhos de um mesmo Pai amoroso, e como nossos irmãos, o nosso compromisso deve ser mais profundo, mais duradouro, e só consiguerimos atingir esse nível de autoridade para ajudar o próximo quando nos dedicarmos a tomar uma xícara de café com eles, como disse o próprio Francisco em seu discurso em Varginha.