Frei Rosário Joffily, frade dominicano, sacerdote, eremita, construtor... sentinela do Santuário Nossa Senhora da Piedade

Dom Walmor, arcebispo de Belo Horizonte, narra a história e a vida daquele que promoveu e consolidou o conjunto paisagístico, arquitetônico, religioso, histórico e cultural da Serra da Piedade

Belo Horizonte, (Zenit.org) Dom Walmor Oliveira de Azevedo | 549 visitas

O centenário de nascimento de um ícone da mais alta relevância no cenário religioso, cultural, político e social de Minas Gerais é celebrado em 2013. Frei Rosário Joffily, que morreu em 2000, frade dominicano, sacerdote, eremita, construtor, referência de cultura, desenhista de horizontes largos e ricos, era um defensor extraordinário da Serra da Piedade, sentinela imortal do Santuário Nossa Senhora da Piedade, a Padroeira de Minas Gerais. Nasceu no dia 6 de janeiro de 1913 e dedicou meio século de sua vida na defesa, promoção e consolidação do conjunto paisagístico, arquitetônico, religioso, histórico e cultural da Serra da Piedade.

Frei Rosário chegou ao Santuário nos idos de 1950, convidado pelo Cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, um filho apaixonado desta terra mineira. Dedicando sua vida à defesa do Santuário e da Serra da Piedade, frei Rosário fortaleceu a chama do seu amor por esta dádiva de Deus, herança nossa que vamos sempre preservar e defender. Premiada a Arquidiocese de Belo Horizonte com a tarefa de ser guardiã desse território sagrado,  está sempre atenta a ouvir a voz de frei Rosário  para fortalecer o compromisso com a proteção do Santuário da Padroeira de Minas e da Serra da Piedade. Ouvi-lo é reconhecer e assumir seu legado na defesa desse território sagrado.

Fala, frei Rosário, desta etapa nova do Santuário Nossa Senhora da Piedade, um processo irreversível de ocupação dos corações de todos os mineiros, fazendo de cada um seus defensores e vigilantes. Fala com voz forte e determinante, maior mesmo que de instâncias judiciais e governamentais, devendo estas, e outras todas, escutar a voz do povo, particularmente dos mineiros, sensibilizados e conscientes defensores das áreas de preservação.

Fala, frei Rosário, com sua autoridade imortal e na celebração do centenário de seu nascimento, de sua luta incansável contra voracidades das mineradoras, de seu empenho para construir um exército de defensores, que reúne organizações não governamentais, homens e mulheres de boa vontade,  todos  amigos da Serra da Piedade. Um trabalho que conquistou, já em 26 de setembro de 1956, o tombamento do conjunto arquitetônico e paisagístico da Serra da Piedade pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O zelo e defensoria do frei Rosário, em escritos, entendimentos, posicionamentos firmes e inequívocos, consolidação da devoção dos peregrinos, especialmente dos mais humildes, que sobem a Serra da Piedade em oração rumo ao Santuário, se desdobraram em luta árdua dos que proporcionaram lucidez ao Governo do Estado de Minas Gerais. Em 16 de junho de 2004, o Governo sancionou a Lei 15.178/04, definindo os limites de conservação da Serra da Piedade, de acordo com Diretrizes do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha), considerada Área de Proteção Ambiental, em cumprimento do Artigo 84 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição de Minas. Um passo inteligente, em confirmação ao que determina a Constituição do Estado, que define a Serra da Piedade como Unidade de Conservação Estadual na Categoria de Monumento Natural. Importantíssimo ainda foi o tombamento do Conjunto Cultural, Arquitetônico, Paisagístico e Natural da Serra da Piedade pelo município de Caeté, a partir do Decreto 2.067/04.

A história do Santuário Nossa Senhora da Piedade, a Serra e seu entorno, a partir da segunda metade do século 20 - inclusive destes últimos 13 anos - arregimentou instâncias governamentais, instituições, organizações não governamentais, devotos e amigos, todos os que sabem da urgência e delicadeza do compromisso de salvaguardar o meio ambiente. Assim, não se pode admitir que uma única instância, mesmo na sua validade jurídica institucional, determine o destino desse território sagrado.

O processo de recuperação do estrago, chaga no entorno da Serra da Piedade, verdadeira abominação da desolação, deve ser amplamente discutido, não apenas em escritórios de interesses particulares. Mesmo as instâncias judiciais devem estar abertas a escutas e ponderações da maioria absoluta, principalmente dos que defendem a natureza, a sua recuperação natural, sem lhe ferir ainda mais, com a justificativa de que é o meio para a recuperação. A Arquidiocese de Belo Horizonte, aguerrida guardiã da Serra da Piedade, inarredável na trilha de frei Rosário, vem adquirindo territórios para melhor lutar por sua preservação.  No final de 2011, readquiriu um terreno, passado a terceiros, mais de vinte anos atrás, pelo próprio frei Rosário, que na sua lucidez o trocou por outro para garantir, na época, o futuro do Santuário.

O terreno recuperado em 2011, com água corrente, hoje é denominado Retiro da Piedade. Ele representa a reconquista da inteireza do território do Santuário, na luta por sua preservação e condição intocável. Neste ano do centenário de nascimento de frei Rosário, na sua permanente escuta e inspiração por sua luta admirável, é hora de intensificar a movimentação em defesa e preservação da Serra da Piedade, lutando com toda a garra e empenhos, contando com a fidelidade à palavra dada em leis, por parte das instituições governamentais. Todos devem cultivar a coragem aguerrida pelo sentido adequado de salvaguarda do meio ambiente, com a respeitosa e consolidada presença da Igreja Católica e das confissões religiosas que incluem na sua vivência de fé o compromisso com a natureza.  Estamos em batalha, defendendo a Serra da Piedade e seu entorno, contra intervenções inoportunas, no horizonte indelével da fala do frei Rosário. Vença nesta luta a verdade, o bom senso e o respeito ao meio ambiente.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte