Freiras mães, não solteironas: assim a Igreja funciona

Papa Francisco insta as 800 irmãs de 1900 ordens religiosas recebidas hoje em Audiência a viverem o próprio carisma em obediência, pobreza e em uma castidade fecunda

Roma, (Zenit.org) Salvatore Cernuzio | 1639 visitas

"A consagrada é mãe, deve ser mãe e não ‘solteirona’!. Uma frase de primeira página pronunciada hoje pelo Papa Francisco, diante das 800 irmãs de 75 Países e de 1900 ordens religiosas, participantes da Assembleia plenária da União Internacional das Superioras Gerais (UISG) terminada ontem em Roma. As religiosas, provenientes de mais de 75 países, foram recebidas esta manhã, antes da Audiência geral, na Sala Paulo VI.

Além da frase 'chamativa’, há muito mais no discurso do Pontífice.

"O que seria da Igreja sem vocês? Faltaria maternidade, afeto, ternura!” disse-lhes o Santo Padre, agradecendo-as e animando-as “para que a vida consagrada seja sempre uma luz no caminho da Igreja”. Depois falou do serviço, da obediência, da adoração, pobreza e castidade como “carisma precioso, que alarga a liberdade do dom a Deus e aos demais, com a ternura, a misericórdia, a proximidade de Cristo”.

"A castidade pelo Reino dos Céus - disse o Pontífice - mostra como a afetividade tem o seu lugar na liberdade madura e se torna um sinal do mundo futuro, para fazer resplandecer sempre o primado de Deus”. Aquela de que fala o Papa é, porém, uma “castidade fecunda”, que “gera filhos espirituais na Igreja”. Isso explica a frase “a consagrada deve ser mãe e não uma solteirona!”

Depois o Papa Francisco lembrou as palavras de Jesus na Última Ceia, quando disse aos apóstolos: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi” (Jo 15, 16). Palavras - disse ele - "que lembram a todos, não apenas a nós, sacerdotes, que a vocação é sempre uma iniciativa de Deus."

"É Cristo que vos chamou para segui-lo na vida consagrada - disse - e isso significa continuamente fazer um" êxodo "de si mesmo para centralizar a vossa existência em Cristo e no seu Evangelho, na vontade de Deus, despojando-se dos vossos projetos" .

Para avançar neste "êxodo", no entanto, são necessarias duas condições de acordo com o Papa: "Adorar o Senhor e servir aos outros"; duas atitudes - disse ele - "que não podem ser separadas, mas que devem sempre andar juntas".

O Santo Padre recordou depois "os três pilares" sobre os quais se fundamenta a existência de quem abraçou a vida consagrada. Em primeiro lugar, a obediência “como escuta da vontade de Deus, na moção interior do Espírito Santo autenticada pela Igreja”, aceitando que essa “passe também por meio das mediações humanas”. Depois a pobreza, “como superamento de todo egoísmo na lógica do Evangelho que ensina a confiar na Providência de Deus”, e “como indicações à toda a Igreja de que não somos nós que construímos o Reino de Deus, não são os meios humanos que o fazem crescer, mas é primariamente o poder, a graça do Senhor, que obra por meio da nossa fraqueza”.

Esta pobreza, insistiu Papa Francisco", ensina a solidariedade, a partilha e a caridade" e "também se expressa em uma sobriedade e alegria do essencial, para alertar sobre os ídolos materiais que ofuscam o sentido autêntico da vida”. Não se trata portanto de uma pobreza “teórica” que “não nos serve”, mas de uma pobreza que “se aprende com os humildes, os pobres, os enfermos e todos aqueles que estão nas periferias existenciais da vida”, acrescentou ao improviso.

E ao improviso, o Papa falou também da castidade, insistindo: “É importante esta maternidade da vida consagrada, esta fecundidade. Que esta alegria da fecundidade espiritual anime a vossa existência; sejam mãe, como figura de Maria Mãe e da Igreja Mãe. Não é possível compreender Maria sem a sua maternidade; não é possível compreender a Igreja sem a sua maternidade. E vós sois o ícone de Maria e da Igreja”.

Refletindo depois no tema da Plenária "O serviço da autoridade segundo o Evangelho", o Papa aprofundou no significado das palavras ‘serviço’ e ‘autoridade’. “Se para o homem muitas vezes autoridade é sinônimo de posse, de domínio, de sucesso, para Deus autoridade é sempre sinônimo de serviço, de humildade, de amor” afirmou, lembrando o pensamento de Bento XVI.

Caso contrário, o conceito de autoridade está danificado, bem como a essência mesma da Igreja. “Pensemos no dano – disse o Papa – que causa ao Povo de Deus os homens e as mulheres de Igreja que são carreiristas, alpinistas, que "usam" o povo, a Igreja, os irmãos e irmãs - aqueles que deveriam servir – como trampolim para os seus próprios interesses e ambições pessoais. Estes fazem um grande dano à Igreja!".

A exortação é, então, para "exercer sempre a autoridade acompanhando, compreendendo, ajudando, amando”; especialmente “as pessoas que se sentem sozinhas, excluídas, áridas, as periferias existenciais do coração humano".

Esta missão para o papa Francisco se realiza graças a um outro carisma fundamental: a eclesialidade, um “’sentir’ com a Igreja que encontra uma expressão filial na fidelidade ao Magistério, na comunhão com os Pastores e o Sucessor de Pedro, Bispo de Roma, sinal visível da unidade”. “O anúncio e o testemunho do Evangelho, para todo cristão, nunca são um ato isolado ou de grupo” destacou. Porque, como afirmava Paulo VI, “é uma dicotomia absurda pensar viver com Jesus sem a Igreja, de seguir Jesus fora da Igreja, de amar a Jesus sem amar a Igreja”.

"Enfim, centralidade de Cristo e do seu Evangelho, autoridade como serviço de amor, ‘sentir’ em e com a Mãe Igreja”. Estas são as três indicações que o Papa Francisco deixou para as religiosas fazerem funcionar a sua obra. Uma obra, disse, “nem sempre fácil”...