Gaudium et spes: iter do texto e interpretação (Parte I)

Mons. Vitaliano explica a Gaudium et Spes

| 1210 visitas

Por Mons. Vitaliano Mattioli*

CRATO, segunda-feira, 26 de novembro de 2012 (ZENIT.org) - No discurso que João XXIII pronunciou no dia  14 de setembro de 1960, assim se exprimiu: “Grandes coisas na verdade nós esperamos deste Concílio, que não só pretende revigorar a fé, a doutrina, a disciplina eclesiástica, a vida religiosa e espiritual; mas também contribuir em grande maneira à consolidação dos principios de ordem cristã, para aqueles que se inspiram e para os que dirigem o desenvolvimento da vida civil, econômica, política e social. A lei do Evangelho deve chegar a todos estes”.

No homilía da  Missa de abertura, Gaudet Mater Ecclesia, apresenta o fim do Concílio: “A finalidade principal deste Concílio não é a discussão de um ou outro tema da doutrina fundamental da Igreja. Para isto, não havia necessidade de um Concílio... É  necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e exposta de forma a responder às exigências do nosso tempo. Será preciso atribuir muita importância a esta forma e, se necessário, insistir com paciência, na sua elaboração; e dever-se-á usar a maneira de apresentar as coisas que mais correspondam ao magistério, cujo caráter é predominantemente pastoral”.

Muitos comentaristas já fizeram notar sobre a ênfase pastoral deste Concílio.

Nestas palavras já estão contidas as ideias da GS. 

Na conclusão dum artigo de Dom Boaventura Kloppenburg, perito do Vaticano II, publicado na Revista Eclesiástica Brasileira, em 2004, se lê: “Na verdade, não há, na história da Igreja, Concílio que se compare. Jamais foi tão grande e universal a representação. Jamais, tão variada a contribuição de todas as raças, continentes e culturas. Jamais, tão livre e ampla a discussão dos temas. Jamais, tão facilitada a comunicação exata das ideias. Jamais, tão demorada e minunciosa a preparação. Louvemos ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo!”

As  duas Constituições conciliares de fundamental importância são a LG (Lumen Gentium) e GS. Indubitavelmente, elas marcaram a vida da Igreja, porque significam uma nova concepção da Igreja em si mesma. A GS é o prolongamento da Constituição Lumen Gentium sobre a Igreja, e representa um esforço para o estabelecimento de diálogo entre a Igreja e o mundo, de maneira autêntica e realista.  E vai se tornando cada vez mais claro que, entre as  Constituições Lumen Gentium e  GS, existe uma passagem da preparação para a ação.

Já na primeira Sessão, o Concílio foi levado a ser centrado no duplo tema: A Igreja em si mesma e a Igreja no mundo de hoje. Uma em decorrência da outra. 

A Gaudium et Spes é um documento carregado de novidades para a consciência da Igreja. Um desses documentos que, por si só, bastaria para assinalar o Vaticano II e contradistingui-lo de todos os outros Concílios que o precederam.

A Gaudium et Spes representa uma nova consciência para a Igreja e dá início a uma nova era eclesial.  Este problema já  estava  na pauta  dos debates no campo católico, antes do Concilio, sobretudo em forma de Doutrina Social da Igreja.

Para dar  uma exata interpretação a todos os documentos conciliares, mas sobretudo a GS , é  fundamental ler o discurso de Bento XVI aos Cardeais no dia 22 de dezembro de 2005. Nele apresenta-se a justa “hermenêutica da renovação da continuidade, refutando a hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”.

(A segunda parte será publicada amanhã, terça-feira, 27 de novembro)

* Mons. Vitaliano Mattioli, nasceu em Roma, Itália, em 1938 e realizou estudos clássicos, filosóficos e jurídicos. Foi professor na Universidade Urbaniana e na Escola Clássica Apollinaire de Roma e Redator da revista "Palestra del Clero". Atualmente é missionário Fidei Donum na diocese de Crato, no Brasil.