Gaudium et spes: iter do texto e interpretação (Parte II)

Mons. Vitaliano explica a Gaudium et Spes

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Por Mons. Vitaliano Mattioli*

CRATO, terça-feira, 27 de novembro de 2012 (ZENIT.org) - Hoje falaremos sobre a gênese do texto.

Para interpretar a GS à luz da "hermenêutica da renovação na continuidade”, é suficiente lembrar que  esta Constituição não pode historicamente compreender-se, sem refletir sobre as intervenções dos Papas Leão XIII, Pio XI e Pio XII. Com o próprio magistério eles promoveram a doutrina social da  Igreja,  o desenvolvimento da democracia, e o diálogo com o mundo.

O ponto do inicio do novo texto foi a intervenção do cardeal Suenens (4 de dezembro de 1962).

Todos os textos da Comissão preparatória não foram aceitos.  A desilusão era grande.  Precisava pensar uma ordem sistemática para fazer o trabalho com racionalidade.  No dia 1 de dezembro de 1962 os Padres tomaram uma decisão: iniciar o trabalho com o esquema De Ecclesia.  Aqui se insere a intervenção do cardeal Suenens que foi considerada o ponto do inicio do novo texto.

O cardeal em síntese confirmou ser justo começar sobre a Igreja Lumen Gentium. Mas não era suficiente falar sobre a Igreja em si mesma, na sua constituição e problemas, isto é ad intra;  precisava apresentar a Igreja aberta ao Mundo, as realidades sociais, os problemas tão urgentes. A Igreja tem uma resposta a oferecer, deve dialogar com o mundo.  Isto significa falar sobre a Igreja ad extra. No dia seguinte o cardeal João Batista Montini,  interveio para promover a ideia de Suenens. O primeiro esboço foi chamado esquema XIII,  segunda a ordem de prioridade. 

Este era também o pensamento do Papa João XXIII  como explicitou na encíclica Mater et Magistra (15 de maio de 1961). Além disso, na Mensagem ‘Ecclesia Christi Lumen Gentium’ que Ele enviou ao Mundo (11 de setembro de 1962), fala da Igreja ad intra e ad extra: “A Igreja quer que a busquem na sua estrutura interior -vitalidade ad intra -  no ato de apresentar, antes de tudo aos seus filhos, os tesouros de fé  e de graça santificante... Considerada na relação com sua vitalidade ad extra, ou seja a Igreja frente às exigências e às necesidades dos povos, sente o dever de cumprir suas responsabilidades. O mundo tem seus problemas e busca agora resolvê-los. Estes problemas de forte gravidade, a Igreja os guarda  sempre no seu coração. Por isso o Concílio Ecumênico poderá oferecer  as soluções que a dignidade do homem e da sua vocação cristã exigem”.

Pensando nisso, João XXIII fez uma melhoria muito importante, mas só no final do seu pontificado (ele faleceu no dia 3 de junho de 1963). Infelizmente  no início do Concílio não foi convidado nenhum leigo para ajudar e colaborar nos trabalhos da formação dos textos conciliares. O Papa permitiu (abril de 1963) convidar alguns leigos para apresentar o próprio parecer sobre este texto em preparação. Foi só Paulo VI, muito sensivel à promoção dos leigos (ele foi assistente espiritual dos universitários católicos por vários anos e formou a melhor elite política italiana dos anos 1950-1970) que conferiu um rol oficial aos auditores leigos no Concilio.

O trabalho da elaboração do texto iniciou na segunda parte de dezembro de 1962.

Um primeiro esboço foi aprovado em março de 1963. O texto estava formado de um Proemium e seis capítulos. O titulo era: Sobre a presença efetiva da Igreja no mundo contemporâneo. 

Depois de um mês, (11 de abril de 1963), João XXIII publicou a nova encíclica Pacem in Terris, que tomava posição sobre os principais temas da vida internacional.  Isso foi de grande ajuda à Comissão para a elaboração da GS.

Mas este primeiro esboço não foi satisfatório, porque pobre de conteúdo. Na reunião do 4 de julho de 1963 se pensou em dividir o texto em duas partes bem marcadas. Uma primeira mais geral para expôr os principios teológicos, para fundar a relação entre a Igreja e o Mundo. A segunda, mais específica, deveria enfrentar os problemas particulares. Em novembro de 1963 foi apresentado um novo texto. Chegarma muitas correções. Precisava-se de um grande trabalho.  Por isso a Comissão tomou a decisão de reunir-se fora de Roma (fevereiro de 1964), na cidade de Zurigo (norte de Suiça) para ter mais tranquilidade. O texto que saiu era totalmente novo. Foi este que recebeu o nome GS. 

Este novo texto foi apresentado à Assembléia no dia 20 de outubro de 1964 para a discussão. Dom Emilio Guano o apresentou com estas palavras:  “O documento se propunha promover o diálogo com todos os homens, para os ouvir na sua forma de verem as suas situações e os seus problemas e esclarecer de que modo participa a Igreja no progresso do nosso tempo, qual  contribuição podem e devem os cristãos dar para a solução dos grandes problemas que se põem aos homens neste momento da história”.

Mas ainda não teve um consenso suficiente. Precisava melhorar o texto em algumas partes. 

A Comissão se reuniu na cidade de  Ariccia (perto de Roma) desde o dia 31 de janeiro até 6 de fevereiro de 1965. O trabalho continuou em  Roma (8-13 de fevereiro de 1965). 

Desde abril à outubro de 1965 o texto foi discutido capítulo por capítulo. Finalmente o debate terminou no dia 7 de outubro. Neste debate foi de fundamental importância a intervenção de Dom Karol Wojtyla (28 de setembro de 1965). O seu discurso foi julgado como o mais  importante em todo o Vaticano II, insistindo na antropologia personalista.  Ele disse que: “a preocupação pastoral não pode prescindir da obra da redenção. O diálogo com o mundo não pode ter como fim simplesmente o bem comum, porque a Igreja não pode renunciar à sua tarefa específica, isto é, a sua missão da salvação. Com certeza a Igreja providencia também o bem temporal dos homens mas sem perder de vista o seu fim ultimo, isto é, consequir a salvação eterna. Esta clareza e sinceridade é fundamental para uma boa realização do dialogo”  (texto em G. Caprile, Il Concilio Vaticano II,  Quarto Periodo 1965,  vol V,  Ed. La Civiltá Cattolica, p. 118). 

Depois das últimas correções, o texto definitivo foi apresentado à Assembléia e no dia 6 de dezembro de 1965 teve a votação final, com este resultado: eleitores presentes 2.373;  placet 2.309; 64 negativos.     

Papa Bento XVI, falando ao Clero de Roma (sua Diocese), 2 de março de 2006, assim comentou: “Recordo-me quando foi debatida a Constituição conciliar Gaudium et Spes. Por um lado, havia o reconhecimento do novo, da novidade. O “sim” da Igreja à época nova com as suas inovações, o "não" ao romantismo passado. Um "Não" justo e necessário. Mas depois os Padres  encontram-se à prova disso no texto. Disseram também que apesar disso, apesar da necessária disponibilidade de ir em frente, de abandonar também outras coisas que nos eram queridas, há algo que não muda, porque é o próprio humano, a criaturalidade. O homem não é totalmente histórico. A absolutização do historicismo, no sentido de que o homem seria só e sempre criatura como fruto de um certo período, não é verdadeira”.

(A terceira parte será publicada amanhã, quarta-feira, 28 de novembro. A primeira parte foi publicada ontem, terça-feira, 27 de novembro)

* Mons. Vitaliano Mattioli, nasceu em Roma, Itália, em 1938 e realizou estudos clássicos, filosóficos e jurídicos. Foi professor na Universidade Urbaniana e na Escola Clássica Apollinaire de Roma e Redator da revista "Palestra del Clero". Atualmente é missionário Fidei Donum na diocese de Crato, no Brasil.