Governos gananciosos e jogos de azar

Relatório denuncia os custos sociais da jogatina

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John Flynn, LC

ROMA, quarta-feira, 25 de abril de 2012 (ZENIT.org) - Com o crescimento econômico ainda anêmico e as receitas fiscais em baixa, alguns governos esperam levantar fundos adicionais facilitando o jogo.

No Estado americano de Nova Iorque, o governador Cuomo propôs a alteração da Constituição do Estado a fim de legalizar os cassinos. No Michigan, duas campanhas pela construção de cassinos tentam persuadir os eleitores a aprovarem mais 15 cassinos no estado.

O primeiro cassino de Ohio abrirá em Cleveland no mês que vem. Outro será aberto algumas semanas mais tarde, em Toledo, e mais dois estão em obras. Os eleitores serão chamados às urnas em novembro para aprovar o quinto cassino desta série. Enquanto isso, em Maryland, também em novembro, a população decidirá se um sexto cassino será aberto e se mais mesas de jogos serão criadas nos cassinos que já existem.

Um editorial no jornal Washington Post de 4 de abril criticou a proposta, afirmando que as últimas estimativas sobre os impostos de jogos de azar, que deveriam financiar a educação, são excessivamente otimistas. O artigo se opõe ao jogo por causa dos danos sociais que eles causam, em particular o impacto negativo sobre os mais pobres.

Esse impacto negativo do jogo é revelado em relatório publicado em janeiro pelo Centro de Comunicação Pública do Institute for American Values. Concentrado em Nova Iorque, o relatório assinado por Paul Davies se intitula “A aposta errada da América: por que a crescente parceria governo-cassinos é um pacto com o diabo”.

O autor observa que, em comparação com décadas passadas, quando o jogo estava limitado a Las Vegas e Atlantic City, verificou-se um boom da jogatina, intensificado nos últimos anos a ponto de hoje existirem 500 cassinos em 27 estados.

A “corrida armamentista”

"Muitos estados estão trabalhando para criar novos tipos de jogos de azar, a fim de atrair e manter os clientes", diz Davies. "Está surgindo uma ‘corrida armamentista’ do jogo".

Só em 2010, a legislação sobre o jogo foi apresentada em 20 estados. As últimas estatísticas oficiais são de 2006. Naquele ano, os americanos perderam US $ 91 bilhões no jogo.

A sedução do enriquecimento rápido e fácil casa com a mentalidade contemporânea da gratificação instantânea, diz Davies. A maioria dos jogadores vem dos grupos menos capazes de arcar com o ônus da própria perda inevitável: idosos, minorias e operários. Davies cita a previsão de que a inauguração dos próximos quatro cassinos de Ohio produzirá 110 mil jogadores problemáticos e patológicos.

O jogo também está ligado ao crime organizado, diz Davies. Em 2004, quando foi aprovado na Pensilvânia, duas das onze primeiras licenças foram concedidas a infratores já julgados.

Os defensores do jogo argumentam que essa atividade gera emprego. Davies, no entanto, observa que muitos deles recebem baixos salários. Os funcionários em serviço em Atlantic City, por exemplo, recebem 12 dólares por hora.

Crime

A ligação entre crime e jogo foi analisada também num relatório da Fundação pelo Fim do Jogo Predatório. O estudo “Cassino e Flórida: crimes e custos penitenciários”  foi publicado no início deste ano.
O documento estima que a introdução do jogo no condado de Miami-Dade, na Flórida, terá custos de 3 bilhões de dólares para o sistema prisional nos próximos dez anos.

O relatório informa que o maior estudo sobre o impacto dos cassinos no crime, de 2006, examinou a relação entre cassinos e crimes em cada ano entre 1977 e 1996, com base em dados do FBI e dos censos federais. Em 1996, 8% dos crimes podia ser atribuído aos cassinos, com um custo por adulto equivalente a 75 dólares por ano. Cinco anos depois, a pesquisa constatou que os crimes econômicos aumentavam 8,6% e os crimes violentos 12,6% ao ser aberto um novo cassino.

O estudo também analisa as taxas de criminalidade nos condados vizinhos e não registra nenhuma diminuição, levando os autores à conclusão de que o crime não migrou, mas aumentou de fato.

Comunidade

Outro argumento utilizado a favor do jogo é que os clubes e cassinos distribuem parte dos lucros às comunidades locais. Um relatório recém-publicado na Austrália, no entanto, mostra que este apoio não leva em conta os custos associados com o jogo.

No domingo passado, a organização de caridade UnitingCare Australia publicou um relatório encomendado pela Monash University. O documento fornece uma estimativa dos gastos em máquinas de pôquer e dos benefícios para a comunidade.

No estado de Nova Gales do Sul, os usuários das máquinas de pôquer perderam 5 bilhões de dólares australianos em 2010-11, um total de 1.003 dólares por adulto. O valor total doado pela indústria do jogo à comunidade foi de 63,5 milhões, representando 1,3% das perdas. Nos estados de Victoria e Queensland, as proporções são, respectivamente, 2,4% e 2,3%.

As máquinas de pôquer, conclui o relatório, "representam um método extremamente ineficiente e caro para financiar as atividades esportivas e beneficentes das comunidades".

O jogo mais difundido pode parecer uma opção atraente para os governos, mas vai em detrimento do povo, cujo bem-estar eles deveriam proteger.