Há 40 anos a serviço da Santa Sé (1)

Entrevista com o arcebispo Józef Kowalczyk, núncio apostólica na Polônia

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Por Wlodzimierz Redzioch

VARSÓVIA, 5 de maio de 2010 (ZENIT.org). - Alguns sacerdotes doam a própria vida pela missão nos limites da pobreza ou da doença, outros o fazem na diplomacia, a serviço da Igreja e dos Papas. É o caso do arcebispo Józef Kowalczyk (Jadowniki Mokre, 28 de agosto de 1938), núncio apostólico na Polônia.

Foi nomeado para o cargo em 1989 pelo Papa João Paulo II. Mais de 20 anos já se passaram desde então, e a Polônia e o mundo mudaram radicalmente, como ele próprio explica nesta entrevista concedida à Zenit no final deste Ano Sacerdotal.

- Excelência, alguns meios de comunicação o apresentam como "arcebispo polonês", ignorando ou esquecendo que o senhor é, na verdade, cidadão vaticano e representa a Santa Sé em um país estrangeiro. Já faz mais de 40 anos que está a serviço dos papas. Em que circunstâncias iniciou sua atuação na Cúria Romana?

- Dom Kowalczyk: Após o Concílio Vaticano II, Paulo VI quis internacionalizar a Cúria Romana. Foi nestas circunstâncias que o cardeal Stefan Wyszyński - em nome do episcopado polonês - propôs meu nome para atuar na Congregação para a Disciplina dos Sacramentos: o cardeal Antonio Samorè, hoje prefeito, aceitou minha candidatura e assim, em 19 de dezembro de 1969, comecei meu serviço.

- O senhor, nascido na Polônia, ocupa-se também de problemas específicos referentes a este país?

- Dom Kowalczyk: No início não, mas em 1976 fui nomeado - com a aprovação do episcopado polonês - membro do Grupo da Santa Sé para os Conatos Permanentes de Trabalho com a República Popular da Polônia. No âmbito desta atribuição, viajava à Polônia com outros membros do Grupo - entre os quais gostaria de lembrar ao menos o arcebispo Luigi Poggi - para encontrar representantes do episcopado, do governo e do Ofício para o Culto.

- Como sua vida mudou com a eleição à Cátedra de Pedro do arcebispo de Cracóvia?

- Dom Kowalczyk: Logo após sua eleição, em 18 de outubro de 1978, João Paulo II me pediu que assumisse a função de chefe da Secretaria de Estado, a qual deveria organizar e fazer funcionar, com alguns colaboradores. Minha tarefa era, em princípio, organizar todos os textos em polonês do Santo Padre - encíclicas, cartas apostólicas, homilias, mensagens etc., e providenciar sua publicação. Além disso, a seção polonesa ocupava-se ainda da correspondência, oficial e privada, que o Papa recebia em polonês. Com sua supervisão, obviamente, respondia as cartas e as remetia às várias repartições da Cúria.

- Posso imaginar que este era ser um trabalho árduo...

- Dom Kowalczyk: É verdade. Mas logo tive de me ocupar com outro: em 17 de novembro de 1978, o secretário de Estado me colocou na chefia da Comissão para a publicação dos escritos de Karol Wojtyła; para esta tarefa, a tradução e publicação prévias de todos os textos de Wojtyła antes de sua eleição à Cátedra de Pedro constituiu uma preparação. Este trabalho - que também envolvia centenas de contratos para as traduções e publicações em vários idiomas - foi realizado em colaboração com a Libreria Editrice Vaticana.

- O senhor também trabalhou na Fundação "João Paulo II"...

- Dom Kowalczyk: Esta foi outra tarefa a mim confiada pelo Secretário de Estado: era minha incumbência preparar o estatuto e o regulamento da Fundação "João Paulo II", cuja função era difundir o magistério do Papa polonês.

- Concomitantemente, ainda se ocupava dos contatos com as autoridades comunistas polonesas?

- Dom Kowalczyk: Sim, eu me ocupava dos contatos com o episcopado polonês e com o governo, em particular com o Grupo da República Popular Polonesa para os contatos permanentes de trabalho com a Santa Sé junto à Embaixada Polonesa em Roma. Os assuntos de nossas conversações eram múltiplos, mas gostaria de lembrar os preparativos das viagens do Papa à Polônia, a primeira em 1979 e a segunda em 1983, particularmente difíceis devido ao estado de guerra decretado pela junta militar do general Jaruzelski, em 1981.

Uma missão particular era aquela ligada à elaboração de um acordo referente às relações Estado-Igreja: os comunistas, buscando sair do isolamento, desejavam o acordo; para a Igreja Católica na Polônia, por sua vez, o acordo era uma condição necessária para que a Santa Sé pudesse restabelecer as relações diplomáticas com o país.

- O acordo foi alcançado e, em 17 de julho de 1989, chegou-se à troca de cartas entre o ministro das relações exteriores polonês e o cardeal Agostino Casaroli, dando início às relações diplomáticas entre os dois Estados. O senhor imaginava que seria nomeado núncio em Varsóvia?

- Dom Kowalczyk: De forma alguma, mas um dia, no verão de 1989, João Paulo II me convidou para almoçar em Castel Gandolfo. Após o Ângelus, ele me disse: "Você irá para Varsóvia como núncio". Fiquei surpreso, mas o Papa me fez entender que esta era sua decisão pessoal e me explicou suas razões. Se raciocínio era o seguinte: há 50 anos, não havia um núncio na Polônia e a Igreja havia se habituado a um modo de agir; portanto, era necessário alguém que tivesse condições de entender esta situação; além disso, era necessária também uma pessoa que conhecesse bem a Cúria. O Papa me disse abertamente que pretendia me ajudar com suas indicações e sugestões.

- Olhando pela perspectiva destes anos passados, pode-se dizer que o Papa tinha razão...

- Dom Kowalczyk: Penso que sim: sendo de formação polonesa, conhecia bem a situação política e eclesial do país, os problemas da sociedade e a mentalidade polonesa. Para um estrangeiro, teria sido muito difícil enfrentar os problemas que se apresentavam naquele momento.

(A segunda parte desta entrevista será publicada amanhã)