Há paz só para aquele que busca entregar-se inteiramente ao amor de Deus

Entrevista com Ir. Luis Alberto O. Cist, abade emérito da Abadia de Nossa Senhora da Assunção de Hardehausen-Itatinga

Brasília, (Zenit.org) Thácio Siqueira | 1397 visitas

A abadia de Nossa Senhora da Assunção de Hardehausen-Itatinga, localiza-se em Itatinga –SP.  A sua história se remete ao 28 de maio de 1140, na cidade de Hardehausen na Alemanha.

Depois de séculos de reformas e destruições, em 1951, no mesmo dia 28 de maio, a Santa Sé autorizou a transferência da antiga abadia de Hardehausen para Itatinga, em São Paulo.

“Há paz só para aquele que busca entregar-se inteiramente ao amor de Deus. Quem assim o faz nunca se arrependerá. A frustração e a infelicidade vêm da falta desta entrega.”, disse à ZENIT o Abade Emérito, Ir. Luis Alberto O. Cist.

Com o interrese de divulgar essa forma de vida, publicamos na íntegra a entrevista realizada com o Ir. Luis Alberto O.Cist.

Para maiores informaçoes acesse: www.mosteiroitatinga.org.br

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 ZENIT: O que faz com que uma pessoa entre na vida monástica? Qual é o sentido da vida monástica hoje?

Ir. Luis Alberto: Uma vocação monástica autêntica é sempre o desejo de buscar a Deus. Há um chamado, Deus põe este desejo no coração. Aquele que é chamado, sabe que isto é essencial, mesmo se não for capaz de formular o que sente dentro de si de modo mais teológico ou articulado. As verdadeiras vocações monásticas vivem deste apelo interior, sentem o desejo de uma entrega radical e mostram-se inteiramente disponíveis, isto é, não vêm com planos e projetos pré-elaborados, mas, com humildade e sentindo-se até imerecedoras do chamado, querem ser guiadas no caminho para Deus. O desejo de pertencer a Deus permanecerá por toda a vida e isto basta para aquele que é chamado. Sua vocação não se define pelo trabalhos e obras que, naturalmente, em função de busca de Deus, vai realizar no mosteiro. Tudo será meio para o grande fim que é Deus. Evidentemente, se é verdade que  todos fomos feitos para Deus (embora nem todos sejam chamados a busca-Lo da mesma forma), a vocação monástica permite realizar este anseio profundo da natureza humana e, por isso, é sempre atual e sempre necessária. O papa João Paulo II lembrou, certa vez, que, num mundo secularizado,  onde rapidamente vão desaparecendo os sinais de Deus, torna-se urgente a presença dos mosteiros como referências estáveis, sobretudo para os mais jovens, do amor, da bondade e da aliança que Deus oferece aos homens.

ZENIT: Fale-nos um pouco do seu mosteiro? Vida, número de membros, fundação...

Ir. Luis Alberto: Somos uma pequena comunidade, com nove membros (incluindo um noviço e dois postulantes ou iniciantes admitidos este ano),pertencente à Ordem Cisterciense. Sete vezes por dia rezamos o ofício divino no coro de nossa Igreja, iniciando nossa oração coral com as Vigílias, às 4:45 . Nossa última oração termina por volta das 19:45. Assim, nossa dia se divide entre oração coral e santa missa, trabalhos diversos, manuais e intelectuais,  pela manhã e pela tarde, e cerca de duas  horas e meia de lectio divina (leitura orante sobretudo da Palavra de Deus) e oração pessoal, com um breve tempo de repouso após o almoço e o descanso noturno. Nossa Abadia é, talvez,  um caso  único nas Américas, pois trata-se de uma transferência, autorizada pela Santa Sé, da Abadia de Hardehausen, fundada em 1140 na Alemanha e fechada em 1938. Daí nosso nome duplo, Hardehausen-Itatinga, com o acréscimo do nome do local onde estamos agora. Poderia acrescentar que nosso ideal é ter um estilo de vida marcado pela simplicidade.

ZENIT: Para o mundo vocês estão presos e estão perdendo a vida. É assim mesmo?

Ir. Luis Alberto: Diria que a pessoa que se sabe chamada, experimentando uma grande alegria, não seria mais capaz de viver no mundo. A vida monástica é suma liberdade na resposta a um chamado que plenifica.

ZENIT: Temos um Papa que escolheu um nome monástico para o seu pontificado, Bento XVI. O que tem significado Bento XVI para a espiritualidade monacal?

Ir. Luis Alberto: O Papa nos recorda sempre o primado da adoração e isto essencial, não só para o monge.

ZENIT: A vida de oração é muito complicada?

Ir. Luis Alberto: Não, ao contrário, porque nos leva ao nosso centro e ao nosso íntimo mais profundo, onde nos encontramos com Deus. O que poderia ser mais simples do que viver sob os olhos de Quem nos ama e a quem amamos, num terno  diálogo interior, no abandono e na confiança? É claro porém que a vida de oração exige renúncias, purificação interior, saber suportar as demoras de Deus, mas tudo isso é nada diante de um só instante de paz na presença de Jesus.

ZENIT: Há paz detrás dessas grades ou muros? Qual é a essência de um consagrado?

Ir. Luis Alberto: Há paz só para aquele que busca entregar-se inteiramente ao amor de Deus. Quem assim o faz nunca se arrependerá. A frustração e a infelicidade vêm da falta desta entrega. Esta paz não é incompatível, com tribulações, sofrimentos e provações de todo tipo, pois como diz São Bento, é pelas coisas duras e ásperas que se vai a Deus. Vencer o próprio egoísmo e orgulho será sempre um combate muito duro e doloroso. Mas, como também indica São Bento, com o progresso da vida monástica, percorre-se os caminhos de Deus com inenarrável doçura de amor. Consagrado é, fundamentalmente, aquele que deseja doar-se inteiramente a Deus, a ponto de não se pertencer mais a si mesmo, tornando-se um dócil instrumento nas mãos divinas, para que Ele realize nele sua obra de amor.

ZENIT: Vocês fazem algum trabalho apostólico?

Ir. Luis Alberto: Nossa comunidade não possui encargos apostólicos, mas atendemos  diariamente pessoas que buscam o sacramento da penitência e orientação espiritual. Além disso, faz parte de nossa vida o acolhimento de hóspedes que buscam o ambiente do mosteiro para dias de retiro e recolhimento espiritual.

ZENIT: Como os leitores de ZENIT podem ajudar o mosteiro de vocês?

Ir. Luis Alberto: Pediria orações pelas nossas vocações, para que possamos passar a outros o tesouro espiritual da tradição monástica cisterciense e, também, para que sejamos dignos de nossa vocação, vivendo como autênticos monges, buscando só a Deus, no despojamento, no trabalho e na oração.