Haiti: o terremoto que fortaleceu a fé

Entrevista com o bispo auxiliar de Porto Príncipe

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ROMA, domingo, 22 de maio de 2011 (ZENIT.org) - Sofrer faz parte da história e do próprio ser do povo haitiano, afirma o bispo auxiliar Joseph Lafontant.

É um sofrimento que leva os haitianos a se unirem ao Cristo que sofre e a ter uma devoção especial pela via crúcis, que se revitalizou depois do terremoto de janeiro de 2010. O bispo conversa com o programa de TV Deus chora na Terra, da Catholic Radio and Television Network (CRTN), em colaboração com a Ajuda à Igreja que Sofre. 

- Com toda essa destruição, quais foram os efeitos psicológicos?

Dom Lafontant: As pessoas pensaram que o Haiti estava acabado. Essa foi a reação inicial. Mas o povo haitiano tem o que nós chamamos de "voloir vivre", a vontade de viver. "Bom, isso aqui foi destruído. Temos que reconstruir". Eles não pensam nos lugares públicos primeiro, mas nas casinhas deles, mesmo que nem todas foram destruídas. Agora eles entram em pânico quando vêem em cima deles um teto de tijolos. É por isso que eles moram nas barracas, com tetos de plástico, porque eles têm medo das réplicas do terremoto. Foram muitas réplicas, não com o mesmo impacto, mas várias continuaram deixando feridos.

- As pessoas se perguntam “por que nós”?

Dom Lafontant: Perguntam, elas perguntam tudo isso: "Por que nós? Somos um país tão pobre, vivemos com tanta pobreza...". Mas, no fim, eles falaram: "Aconteceu. Foi a mãe natureza. Nós temos que conservar a nossa fé em Deus, porque Deus é quem nos guia, é Ele quem manda. Estamos vivos. Muitos morreram. Se nós ficamos vivos, quer dizer alguma coisa". Desde os primeiros momentos, a solidariedade no país foi incrível.

- Entre as pessoas?

Dom Lafontant: Sim. Por exemplo, as pessoas que sabiam onde e como fazer ligações telefônicas parava as pessoas que passavam na rua e ofereciam: "Olha, aqui tem um telefone, fale com a sua família". Outros acolhiam as pessoas que estavam nas ruas; a solidariedade voltou a ser parte de nós. A solidariedade faz parte da nossa cultura, mas agora é bem mais forte.

- Para aprofundar mais um pouco: eles não perguntaram se aquilo foi a ira de Deus? Se de alguma forma eles não mereciam ou estavam sendo castigados, por exemplo?

Dom Lafontant: Pessoas de outras igrejas sim. Nós, católicos, temos uma resposta: "Deus não é alguém que se vinga, que castiga. Pelo contrário, ele salva. Ele não barra as leis da natureza". Depois do terremoto, as pessoas começaram a voltar para as igrejas. Nós temos uma emissora de rádio, a Radio Soleil, tínhamos um padre todo dia explicando o fenômeno e não deixando as pessoas aceitarem aquela explicação do castigo de Deus, não. Eles explicavam: "Nós temos que ser pessoas melhores, porque estamos todos na mesma situação".

- Os ricos e os pobres...

Dom Lafontant: Os ricos e os pobres. Os enterros, sem caixões para todos... Todo mundo ali era igual. Isso fez as pessoas refletirem. Alguns me disseram diretamente: "Sabe, depois do terremoto eu virei uma pessoa diferente, porque eu estou vivo, e eu vi que as posses não são nada. Estar vivo é muito mais do que qualquer coisa que eu tenho. Eu não vou mais me preocupar com a aparência, com o que eu estou vestindo, com a aparência da minha casa, o jeito que eu vivo, porque a vida tem que ser diferente". Nós temos uma espécie de Haiti renovado, renascido depois do terremoto.

- Um renascimento da fé?

Dom Lafontant: Não é só um renascimento da fé; é um fortalecimento. É curioso ver as paróquias onde as igrejas caíram, as pessoas nas barracas, debaixo do céu. Elas vieram rezar especialmente durante a quaresma. Uma coisa que vocês precisam saber sobre o povo do Haiti: eles gostam de fazer a via crúcis toda sexta-feira da quaresma. E é engraçado que, quando eles se confessam para comungar na quinta-feira santa, eles se acusam de ter faltado, digamos, a três estações da via crúcis, mas não falam nada de faltar três vezes à missa.

- Por que essa importância da via crúcis?

Dom Lafontant: Porque no caminho da cruz eles enxergam a si mesmos. Eles se relacionam com o sofrimento de Cristo: traído, cuspido, desprezado, espancado. O sofrimento faz parte da história e do ser dos haitianos, eles se sentem relacionado com o sofrimento de Cristo.

- A Igreja teve a sua via crúcis particular. O arcebispo de Porto Príncipe, o vigário geral, o chanceler, religiosas, padres e catorze seminaristas morreram. Como superar esse prejuízo humano?

Dom Lafontant: Temos que superar... Porque os vivos têm que seguir em frente. Veja o exemplo dos seminaristas. Nós tentamos ajudá-los, para eles não perderem o ano acadêmico. No começo do mês que vem eles voltam a estudar nas barracas. Antes disso nós tivemos que levá-los para um psicólogo, porque muitos deles foram salvos dos escombros. Dois deles, da nossa diocese. Um perdeu uma perna e o outro teve que amputar um braço. Eles querem viver. Querem estudar. Querem seguir em frente.

- E estão precisando de ajuda psicológica?

Dom Lafontant: Claro, e estão tendo. Temos um padre da Congregação da Santa Cruz. Ele ficou duas horas com eles falando sobre o trauma. Depois dessas duas horas ele falou que ia ter que tratar dez deles em particular. Outras dioceses fizeram a mesma coisa. Fizeram encontros em grupos para ajudar a libertar as mentes dos seminaristas traumatizados.

- O que mais o impactou de toda tragédia?

Dom Lafontant: Pessoalmente, foi a morte do arcebispo (Joseph Serge Miot). Tínhamos trabalhado juntos durante muitos anos. Estivemos juntos na conferência episcopal antes que ele fosse nomeado bispo. Estivemos juntos no seminário, quando eu era reitor. Desde sua nomeação ao episcopado, trabalhamos juntos, até sua morte. Trabalhávamos como irmãos. Ainda que eu seja mais velho como bispo, sacerdote e de idade, sempre o considerei meu arcebispo, meu superior. Ele me considerava um bom colaborador.

- Por que Nossa Senhora é tão importante para os haitianos?

Dom Lafontant: O Haiti sempre esteve sob a proteção da Virgem Maria, de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. O país se consagrou nos anos quarenta, e os bispos renovaram a consagração nos noventa. A mãe, em nossa cultura, é algo muito importante. A economia do país está nas mãos das mulheres. A mãe sempre está presente. Quando se necessita de algo, recorre-se à mãe.

- Por isso vão à Virgem?

Dom Lafontant: Sim. Nos lugares onde as igrejas foram derrubadas, toda semana centenas de pessoas vão rezar o rosário. As pessoas vão orar à Santíssima Virgem.

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Esta entrevista foi realizada por Mark Riedemann para "Deus chora na terra", um programa rádio-televisivo semanal produzido por ‘Catholic Radio and Television Network', (CRTN), em colaboração com a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre.

Mais informação em www.aisbrasil.org.br, www.fundacao-ais.pt.