Hans-Gert Pöttering: Europa precisa de renovação espiritual

Presidente emérito do Parlamento Europeu comenta mensagem papal da Quaresma

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Por Carmen Elena Villa

CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- As políticas europeias “devem adotar a mensagem da Quaresma do Santo Padre”, disse Hans-Gert Pöttering, presidente emérito do Parlamento Europeu e da Fundação “Konrad Adenauer”.

O funcionário participou na semana passada da coletiva de imprensa na qual foi apresentada a mensagem de Bento XVI para a Quaresma de 2010: “A justiça de Deus está manifestada mediante a fé em Jesus Cristo” (Rm 3, 21-22).

“Precisamos novamente de um espírito europeu de solidariedade com todos os povos e culturas”, disse Pöttering.

Ele indicou que este continente precisa viver a solidariedade não somente em questões materiais, ainda que este aspecto seja importante, mas também é necessária “uma renovação espiritual”.

Presença de Deus na justiça

Indicou que uma “visão secular sobre a ideia de justiça distributiva que se dissocia da ideia de Deus se converte em ideologia” e assegurou que um exemplo disso é a queda do sistema socialista na Europa no final do século XX.

Por isso, disse que é importante “manter o balanço entre a ideia de justiça, que repousa na alma de cada ser humano, e a realidade material, que só pode ser concebida em relação com os demais, com nossos semelhantes e com o sistema em que vivemos”.

Afirmou estar convencido de que a solidariedade global não ter a ver somente com os bens materiais: “Justiça e paz, redistribuição e reconhecimento só podem existir entre os povos e Estados deste mundo se nós agirmos em solidariedade e irmandade”.

“Politicamente se fala de solidariedade – acrescentou Pöttering. Teologicamente, sempre falamos de caridade.” E nos termos caridadesolidariedade e fraternidade “se encontra a chave para uma verdadeira compreensão da responsabilidade dos cristãos do mundo”.

Indicou como solidariedade e caridade implicam na “responsabilidade de defender e proteger a dignidade universal de cada ser humano em qualquer parte do mundo e em qualquer circunstância”.

“Se quisermos conservar a liberdade e aumentar a justiça, então devemos colocar o valor da fraternidade e o da solidariedade no centro do nosso pensamento político”, insistiu o presidente da Fundação “Konrad Adenauer”.

Indicou que a Europa tem necessidade de um novo espírito de solidariedade “em nosso mundo contemporâneo de globalização e encontro entre culturas e religiões”.

“A Europa e a comunidade internacional têm a obrigação moral de assumir outras responsabilidades”, assegurou.

Acrescentou que a solidariedade da Europa com o mundo “deve ser concreta” ao enfrentar o fato de que dois bilhões de pessoas vivem com menos de 2 dólares por mês.

Convidou a estender no mundo inteiro o projeto da Organização Mundial da Saúde denominado Unitaid, que combate doenças como AIDS, malária, tuberculose e outras em 93 países pobres.

Tal projeto é financiado com uma estratégia que algumas companhias aéreas têm, acrescentando à taxa de impostos das passagens aéreas 1 ou 2 dólares, e com isso se arrecadou nos últimos três anos 1,5 milhão de dólares.

Diálogo inter-religioso

Pöttering indicou também que a paz e a justiça precisam de povos que respeitem as convicções religiosas.

“O respeito recíproco no interior de um diálogo intercultural não significa fechar os olhos diante dos contrastes insuperáveis”, advertiu.

“Não obstante, conseguiremos deter o fanatismo no mundo do século XXI somente se privarmos os fanáticos – que pretendem transformar o mundo através da violência – dos pretextos espirituais graças aos quais é possível manipular as pessoas de boa vontade.”

Para isso, é importante um “diálogo de solidariedade” entre cristãos e muçulmanos e entre cristãos e judeus. “Precisamos disso entre os privilegiados que vivem a prosperidade e a liberdade material e entre aqueles que vivem marginalizados da existência social e cultural e que são excluídos do crescimento econômico e das oportunidades tecnológicas”.

Pöttering concluiu sua intervenção destacando os pontos da mensagem do Papa: “renunciar à autossuficiência e aceitar nossa missão com humildade”.