Homilia do papa Francisco na Casa Santa Marta: as coisas de Deus não podem ser entendidas só com a cabeça

Na homilia desta terça-feira, o Santo Padre nos exorta a pedir a docilidade do Espírito Santo e ficar abertos a Ele

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) Redacao | 608 visitas

As coisas de Deus não podem ser entendidas só com a cabeça: é necessário abrir o coração ao Espírito Santo, disse hoje o papa Francisco, na missa da Casa Santa Marta. O papa recordou que a fé é um dom de Deus, mas não pode ser recebida quando se vive "desvinculado" do seu povo, a Igreja.

O Santo Padre destacou que as leituras do dia nos mostram "dois grupos de pessoas". Na primeira leitura, "aqueles que foram dispersos por causa da perseguição surgida" após a morte de Estêvão. "Eles se dispersaram e levaram a semente do Evangelho a toda parte", disse o pontífice, observando que, no início, eles falavam somente aos judeus. Depois, "de forma natural, alguns deles", chegados de Antioquia, "começaram a falar também aos gregos". E assim, lentamente, "abriram as portas para os gregos, para os pagãos", recordou o Santo Padre.

E quando chegou a notícia a Jerusalém, Barnabé foi enviado a Antioquia "para fazer uma visita de inspeção". O papa prosseguiu explicando que todos "ficaram contentes" porque "uma multidão considerável se uniu ao Senhor". E essa gente "não disse ‘vamos primeiro aos judeus, depois aos gregos, aos pagãos’. Eles se deixaram levar pelo Espírito Santo! Foram dóceis ao Espírito Santo!".

"Uma coisa vem da outra" e eles "acabam abrindo as portas a todos: mesmo aos pagãos, que, na mentalidade deles, eram impuros"; eles "abriam as portas para todos". Este "é o primeiro grupo de pessoas, as que são dóceis ao Espírito Santo". "Algumas vezes, o Espírito Santo nos empurra a fazer coisas fortes: como empurrou Felipe a ir batizar Cornélio".

Francisco explicou: "Às vezes, o Espírito Santo nos leva suavemente. E a virtude é deixar-se levar pelo Espírito Santo, não resistir ao Espírito Santo, ser dócil ao Espírito Santo. E o Espírito Santo age hoje na Igreja, age hoje em nossa vida. Alguém poderia dizer: 'Eu nunca vi!'. Mas fique atento ao que acontece, ao que vem à sua mente, a que vem ao seu coração. Coisas boas? É o Espírito Santo que convida você a seguir esse caminho. É necessária a docilidade! Docilidade ao Espírito Santo".

O Santo Padre falou então do segundo grupo apresentado nas leituras, os "intelectuais, que se aproximam de Jesus no templo: são os doutores da lei". Jesus sempre teve problemas com eles, "porque eles não entendiam: davam voltas em torno das mesmas coisas, porque acreditavam que a religião era só uma coisa de cabeça, de leis". Para eles era necessário "cumprir os mandamentos e nada mais. Não imaginavam que existisse o Espírito Santo". Interrogavam Jesus, "queriam discutir. Tudo estava na cabeça, tudo era intelecto". Francisco recordou que, para essa gente "não há coração, não há amor e a beleza, não há harmonia"; é gente "que só quer explicações".

O papa comentou: "Você dá as explicações e eles, não convencidos, voltam com outra pergunta. E assim dão voltas, voltas... Como deram voltas em torno de Jesus a vida toda, até o momento em que conseguiram pegá-lo e matá-lo! Eles não abrem o coração ao Espírito Santo! Acham que as coisas de Deus também podem ser entendidas só com a cabeça, com as ideias, com as próprias ideias. São orgulhosos. Acham que sabem tudo. E o que não entra na inteligência deles não é verdade. Você pode ressuscitar um morto diante deles, mas eles não acreditam!".

A seguir, o pontífice destaca que Jesus "vai além" e diz "algo fortíssimo": "Vós não credes porque não fazeis parte das minhas ovelhas! Vós não credes porque não sois o povo de Israel. Saístes do povo. Estais na aristocracia do intelecto". E esta atitude "fecha o coração. Eles renegaram o seu povo".

"Aquela gente tinha se desvinculado do povo de Deus e por isso não podia acreditar. A fé é um dom de Deus! Mas a fé vem quando você está no povo de Deus. Se você está na Igreja, se você é ajudado pelos sacramentos, pelos irmãos, pela assembleia. Se você crê que esta Igreja é Povo de Deus. Aquela gente tinha se separado, não acreditava no Povo de Deus, só acreditava nas suas coisas e tinha construído todo um sistema de mandamentos que eles impunham aos outros e não deixavam os outros serem Igreja, serem povo. Não conseguiam acreditar! Este é o pecado de resistir ao Espírito Santo".

Para terminar a homilia, Francisco repassou a ideia desses dois grupos de pessoas: os "de doçura, de gente doce, humilde, aberta ao Espírito Santo", e os de gente "orgulhosa, autossuficiente, soberba, separada do povo, aristocrática do intelecto, que fechou as portas e resiste ao Espírito Santo". E isso "é ter coração duro! E isso é perigoso".

O pontífice nos exortou: "Peçamos ao Senhor a graça da docilidade ao Espírito Santo para seguirmos em frente na vida, para ser criativos, para ser alegres, porque aquela outra gente não era alegre". E quando "há muita seriedade, não há o Espírito de Deus". Portanto, peçamos "a graça da docilidade e que o Espírito Santo nos ajude a nos defender daquele outro espírito mau das suficiências, do orgulho, da soberba, do coração fechado ao Espírito Santo".