Homilia do Papa na festa do Batismo do Senhor

Capela Sistina, 10 de janeiro de 2010

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CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 20 de janeiro de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos a homilia de Bento na missa da festividade do Batismo do Senhor, na Capela Sistina, a 10 de janeiro.

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Queridos irmãos e irmãs!

Na festa do Baptismo do Senhor, também este ano tenho a alegria de administrar o sacramento do Baptismo a alguns recém-nascidos, que os pais apresentam à Igreja. Sede bem-vindos, queridos pais e mães destes pequeninos, e vós padrinhos e madrinhas, amigos e parentes, que os circundais. Demos graças a Deus, que hoje chama estas sete meninas e estes sete meninos a tornarem-se seus filhos e acolhemo-los com alegria na Comunidade cristã, que a partir de hoje se torna também a sua família.

Com a festa do Baptismo de Jesus continua o ciclo das manifestações do Senhor, que começou no Natal com o nascimento do Verbo encarnado em Belém, contemplado por Maria, José e os pastores na humildade do presépio, e que teve uma etapa importante na Epifania, quando o Messias, através dos Magos, se manifestou a todas as nações. Hoje Jesus revela-se, nas margens do Jordão, a João e ao povo de Israel. É a primeira ocasião em que ele, como homem maduro, entra no cenário público, depois de ter deixado Nazaré. Encontramo-lo junto do Baptista, que é procurado por um grande número de pessoas, num cenário insólito. No trecho evangélico, há pouco proclamado, São Lucas observa antes de tudo que o povo "esperava" (3, 15). Assim, ele ressalta a expectativa de Israel, capta, naquelas pessoas que tinham deixado as suas casas e os compromissos habituais, o desejo profundo de um mundo diverso e de palavras novas, que parecem encontrar uma resposta precisamente nas palavras severas, empenhativas, mas cheias de esperança do Precursor. O seu é um baptismo de penitência, um sinal que convida à conversão, a mudar de vida, porque aproxima Aquele que "baptizará no Espírito Santo e no fogo" (3, 16). De facto, não se pode aspirar por um mundo novo permanecendo imersos no egoísmo e nos costumes ligados ao pecado. Também Jesus abandona a casa e as ocupações habituais para alcançar o Jordão. Chega ao meio da multidão que está a ouvir o Baptista e põe-se na fila como todos, à espera de ser baptizado. João, logo que o vê aproximar-se, intui que naquele Homem há algo único, que é o misterioso Outro que esperava e para o qual estava orientada toda a sua vida. Compreende que se encontra diante de Alguém maior que ele e que não é digno nem sequer de lhe desatar a correia das sandálias.

Junto do Jordão, Jesus manifesta-se com uma extraordinária humildade, que recorda a pobreza e a simplicidade do Menino colocado na manjedoura, e antecipa os sentimentos com os quais, no final dos seus dias terrenos, chegará a lavar os pés dos discípulos e sofrerá a humilhação terrível da cruz. O Filho de Deus, Aquele que é sem pecado, coloca-se entre os pecadores, mostra a proximidade de Deus ao caminho de conversão do homem. Jesus carrega sobre os seus ombros o peso da culpa da humanidade inteira, inicia a sua missão pondo-se no nosso lugar, no lugar dos pecadores, na perspectiva da cruz.

Recolhido em oração, depois do baptismo, enquanto sai da água, abrem-se os céus. É o momento esperado por multidões de profetas. "Se rasgásseis os céus e descêsseis!", tinha invocado Isaías (64, 1). Neste momento, parecia sugerir São Lucas, este pedido é satisfeito. De facto, "o céu abriu-se e o Espírito Santo desceu" (3, 21-22); ouviram-se palavras nunca antes pronunciadas: "Tu és o Meu Filho muito amado; em Ti pus todo o Meu enlevo" (v. 22). Jesus, saindo das águas, como afirma São Gregório de Nazianzo, "vê o céu abrir-se e separar-se, aquele céu que Adão tinha fechado para si e para toda a sua descendência" (Discurso 39 para o Baptismo do Senhor, pg 36). O Pai, o Filho e o Espírito Santo descem entre os homens e revelam-nos o seu amor que salva. Se são os anjos que levam aos pastores o anúncio do nascimento do Salvador, e as estrelas aos Magos vindos do Oriente, agora é a própria voz do Pai que indica aos homens a presença no mundo do seu Filho e que convida a olhar para a ressurreição, para a vitória de Cristo sobre o pecado e sobre a morte.

O feliz anúncio do Evangelho é o eco desta voz que desce do alto. Por isso, justamente Paulo, como ouvimos na segunda leitura, escreve a Tito: "Porque a graça de Deus, fonte de salvação, manifestou-se a todos os homens" (2, 11). De facto, o Evangelho é para nós graça que dá alegria e sentido à vida. Ela, prossegue o Apóstolo, "ensina-nos a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos, a fim de que vivamos no século presente com toda a sobriedade, justiça e piedade" (v. 12); isto é, conduz-nos para uma vida mais feliz, mais bela, mais solidária, para uma vida segundo Deus. Podemos dizer que também para estas crianças hoje se abrem os céus. Elas receberão o dom da graça do Baptismo e o Espírito Santo habitará neles num templo, transformando em profundidade o seu coração. A partir deste momento, a voz do Pai chamará também a eles para serem seus filhos em Cristo e, na sua família que é a Igreja, concederá a cada um o dom sublime da fé. Este dom, agora que não têm a possibilidade de compreender plenamente, será colocado no seu coração como uma semente cheia de vida, que espera desenvolver-se e dar fruto. Hoje são baptizados na fé da Igreja, professada pelos pais, pelos padrinhos e pelas madrinhas e pelos cristãos presentes, que depois os conduzirão pela mão no seguimento de Cristo. O rito do Baptismo traz à memória com insistência o tema da fé já no início, quando o Celebrante recorda aos pais que pedindo o baptismo para os próprios filhos, assumem o compromisso de os "educar na fé". Esta tarefa é recordada de modo ainda mais forte aos pais e padrinhos na terceira parte da celebração, que começa com as palavras que lhe são dirigidas: "Compete a vós educá-los na fé para que a vida divina que recebem em dom seja preservada do pecado e cresça dia após dia. Portanto, se em virtude da vossa fé, estais prontos a assumir este compromisso... fazei a vossa profissão em Cristo Jesus. É na fé da Igreja que os vossos filhos são baptizados". Estas palavras do rito sugerem que, de qualquer forma, a profissão de fé e a renúncia ao pecado por parte dos pais, dos padrinhos e madrinhas representam a premissa necessária para que a Igreja confira o Baptismo aos seus filhos.

Imediatamente antes da infusão da água sobre a cabeça do recém-nascido há depois mais uma chamada à fé. O celebrante faz uma última pergunta: "Quereis que vosso filho receba o Baptismo na fé da Igreja, que todos juntos professamos?". E só após a sua resposta afirmativa é administrado o Sacramento. Também nos ritos explicativos – unção com o crisma, entrega da veste branca e do círio aceso, gesto do "effeta" – a fé representa o tema central. "Preocupai-vos – diz a fórmula que acompanha a entrega do círio – por que os vossos filhos... vivam sempre como filhos da luz; e perseverando na fé, vão ao encontro do Senhor que vem"; "O Senhor Jesus – afirma ainda o Celebrante no rito do "effeta" – te conceda ouvir depressa a sua palavra, e professar a tua fé, para louvor e glória de Deus Pai". Depois, tudo é coroado pela bênção final que recorda ainda aos pais o seu compromisso de serem para os filhos "as primeiras testemunhas da fé".

Queridos amigos, hoje para estas crianças é um dia grandioso. Com o Baptismo, elas, tendo-se tornado partícipes da morte e ressurreição de Cristo, iniciam com ele a aventura jubilosa e exaltante do discípulo. A liturgia apresenta-a como uma experiência de luz. De facto, entregando a cada um a vela acesa no círio pascal, a Igreja afirma: "Recebei a luz de Cristo!". É o Baptismo que ilumina com a luz de Cristo, que abre os olhos ao seu esplendor e introduz no mistério de Deus através da luz divina da fé. Sob esta luz deverão caminhar por toda a vida as crianças que estão para serem baptizadas, ajudadas pelas palavras e pelo exemplo dos pais, dos padrinhos e das madrinhas. Eles deverão comprometer-se a alimentar com as palavras e com o testemunho da sua vida as chamas da fé das crianças, para que possa resplandecer neste mundo, que com frequência anda errante nas trevas da dúvida, e levar a luz do Evangelho que é vida e esperança. Só assim, quando forem adultos, poderão pronunciar com plena consciência a fórmula colocada no final da profissão de fé. Esta é a fé da Igreja. E nós alegramo-nos por professá-la em nosso Senhor Jesus Cristo.

Também nos nossos dias a fé é um dom que se deve redescobrir, cultivar e testemunhar. Com esta celebração do Baptismo, o Senhor conceda a cada um de nós viver a beleza e a alegria de sermos cristãos, para que possamos introduzir as crianças baptizadas na plenitude da adesão a Cristo. Confiemos estas crianças à intercessão materna da Virgem Maria. Peçamos-lhe que, revestidos com a veste branca, sinal da sua nova dignidade de filhos de Deus, durante toda a sua vida sejam discípulos fiéis de Cristo e testemunhas corajosas do Evangelho. Amém.

[Traduzido pela Santa Sé

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