Homilia do Papa no encerramento do Ano Paulino

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CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 3 de agosto de 2009 (ZENIT.org).- Publicamos a homilia de Bento XVI nas primeiras vésperas por ocasião do encerramento do Ano Paulino, na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, no dia 28 de junho passado. A tradução ao português foi difundida recentemente pela Santa Sé.

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Senhores Cardeais 
Venerados Irmãos 
no Episcopado e no Sacerdócio 
Ilustres membros da Delegação 
do Patriarcado Ecuménico 
Caros irmãos e irmãs

Dirijo a minha cordial saudação a cada um. Em particular, saúdo o Cardeal Arcipreste desta Basílica e os seus colaboradores, o Abade e a comunidade monástica beneditina; saúdo também a Delegação do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla. O ano comemorativo do nascimento de São Paulo conclui-se esta tarde. Estamos reunidos junto do túmulo do Apóstolo cujo sarcófago, conservado debaixo do altar papal, recentemente foi objecto de uma atenta análise científica: no sarcófago, nunca aberto por muitos séculos, foi praticada uma minúscula perfuração para introduzir uma sonda especial, mediante a qual foram relevados vestígios de um precioso tecido de linho colorido de púrpura, coberto com uma lâmina de ouro puro, e de um tecido de cor azul com filamentos de linho. Foi também relevada a presença de grãos de incenso vermelho e de substâncias proteicas e calcárias. Além disso, minúsculos fragmentos ósseos, submetidos ao exame do carbono 14 por parte de especialistas que desconheciam a proveniência dos mesmos, resultaram pertencentes a uma pessoa que viveu entre os séculos I e II. Isto parece confirmar a tradição unânime e incontestável, que se trata dos despojos mortais do Apóstolo Paulo. Tudo isto enche a nossa alma de profunda emoção. Durante estes meses, muitas pessoas seguiram os caminhos do Apóstolo — os exteriores e mais ainda os interiores, que ele percorreu durante a sua vida: o caminho de Damasco rumo ao encontro com o Ressuscitado; os caminhos no mundo mediterrâneo, que ele atravessou com a tocha do Evangelho, encontrando contradição e adesão, até ao martírio, pelo que pertence para sempre à Igreja de Roma. A ela dirigiu também a sua Carta maior e mais importante. O Ano paulino conclui-se, mas pôr-se a caminho juntamente com Paulo, com ele e graças a ele chegar a conhecer Jesus e, como ele, ser iluminados e transformados pelo Evangelho — isto sempre fará parte da existência cristã. E sempre, indo além do ambiente dos crentes, ele permanece o "mestre das nações", que deseja levar a mensagem do Ressuscitado a todos os homens, porque Cristo os conheceu e amou a todos; morreu e ressuscitou por todos eles. Portanto, queremos ouvi-lo também nesta hora em que começamos solenemente a festa dos dois Apóstolos, unidos entre si mediante um vínculo estreito.

Faz parte da estrutura das Cartas de Paulo — sempre em referência ao lugar e à situação particular — a explicação do mistério de Cristo e o ensinamento da fé. Numa segunda parte, segue-se a aplicação à nossa vida: o que deriva desta fé? Como plasma ela a nossa existência no dia-a-dia? Na Carta aos Romanos, esta segunda parte começa com o capítulo 12, em cujos primeiros dois versículos o Apóstolo resume imediatamente o núcleo essencial da existência cristã. Que nos diz São Paulo nesse trecho? Em primeiro lugar afirma, como algo fundamental, que com Cristo teve início um novo modo de venerar a Deus — um novo culto. Ele consiste no facto de que o homem vivo se torna ele mesmo adoração, "sacrifício" já no seu próprio corpo. Já não se oferecem a Deus coisas. É a nossa própria existência que deve tornar-se louvor a Deus. Mas como acontece isto? A resposta é-nos dada no segundo versículo: "Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação do vosso modo de pensar, a fim de conhecerdes a vontade de Deus..." (12, 2). As duas palavras decisivas deste versículo são: "transformar" e "renovar". Devemos tornar-nos homens novos, transformados num novo modo de existência. O mundo está sempre em busca de novidades, porque com razão se sente sempre insatisfeito com a realidade concreta. Paulo diz-nos: o mundo não pode ser renovado sem homens novos. Somente se houver homens novos, haverá também um mundo novo, um mundo renovado e melhor. No início está a renovação do homem. Isto vale também para cada indivíduo. Só se nós mesmos nos renovarmos, o mundo será novo. Isto significa inclusive que não basta adaptar-se à situação actual. O Apóstolo exorta-nos a um não-conformismo. Na nossa Carta diz-se: não vos submetais ao esquema da época actual. Deveremos voltar a este ponto, refectindo sobre o segundo texto que esta tarde quero meditar convosco. O "não" do Apóstolo é claro e também convincente para quem observa o "esquema" do nosso mundo. Mas tornar-se novos — como se pode fazer isto? Somos verdadeiramente capazes? Com a palavra acerca do tornar-se novos, Paulo alude à sua própria conversão: ao seu encontro com Cristo ressuscitado, encontro de que na segunda Carta aos Coríntios diz: "Se alguém está em Cristo, é uma nova criação: passou o que era velho; eis que tudo se fez novo" (5, 17). Este encontro com Cristo era tão extraordinário para ele, que a este propósito diz: "Estou morto" (Gl 2, 19; cf. Rm 6). Ele tornou-se novo, outra pessoa, porque já não vive para si mesmo e em virtude de si próprio, mas para e em Cristo. Porém, ao longo dos anos viu também que este processo de renovação e de transformação continua durante a vida inteira. Tornar-nos-emos novos, se nos deixarmos arrebatar e plasmar pelo Homem novo, Jesus Cristo. Ele é o Homem novo por excelência. Nele a nova criatura humana tornou-se realidade, e nós poderemos verdadeiramente tornar-nos novos, se nos entregarmos nas suas mãos e nos deixarmos plasmar por Ele.

Paulo torna ainda mais claro este processo de "nova fusão", dizendo que nos tornamos novos se transformarmos o nosso modo de pensar. Aquilo que traduzimos como "modo de pensar" é o termo grego "nous". É uma palavra complexa. Pode ser traduzida com "espírito", "sentimentos", "razão" e, precisamente, também com "modo de pensar". A nossa razão deve renovar-se. Isto surpreende-nos. Desejaríamos talvez que se referisse antes a alguma atitude: àquilo que temos de mudar no nosso agir. mas não: a renovação deve ir até ao fundo. O nosso modo de ver o mundo, de compreender a realidade — todo o nosso pensar deve transformar-se a partir do seu fundamento. O pensamento do homem velho, o modo de pensar comum geralmente está orientado para a posse, o bem-estar, a influência, o sucesso, a fama e assim por diante. Mas deste modo tem um alcance muito limitado. Assim, em última análise, o centro do mundo permanece o próprio "eu". Temos que aprender a pensar de maneira mais profunda. Que significa isto? Na segunda parte da frase, São Paulo diz o que isto significa: é necessário aprender a compreender a vontade de Deus, de tal maneira que ela plasme a nossa vontade. A fim de que nós mesmos desejemos o que Deus quer, para que reconheçamos que o que Deus quer é a beleza e a bondade. Por conseguinte, trata-se de uma mudança na nossa orientação espiritual de base. Deus deve entrar no horizonte do nosso pensamento: o que Ele quer e o modo segundo o qual Ele idealizou o mundo e a mim mesmo. Temos que aprender a participar no pensamento e no desejo de Jesus Cristo. É então que seremos homens novos nos quais sobressai um mundo novo.

O próprio pensamento de uma necessária renovação do nosso ser pessoas humanas, Paulo explicou-o ulteriormente em dois trechos da Carta aos Efésios, sobre os quais portanto agora queremos reflectir brevemente. No capítulo 4 da Carta, o Apóstolo diz-nos que com Cristo temos que atingir a idade adulta, uma fé madura. Não podemos mais permanecer como "meninos inconstantes, levados por qualquer vento de doutrina..." (4, 14). Paulo deseja que os cristãos tenham uma fé "responsável", uma "fé adulta". A expressão "fé adulta", nas últimas décadas, tornou-se um slogan difundido. Ouvimo-lo com frequência no sentido da atitude de quem já não dá ouvidos à Igreja e aos seus Pastores, mas escolhe autonomamente aquilo em que quer acreditar ou não portanto, uma fé "ad hoc". E é apresentada como "coragem" de se expressar contra o Magistério da Igreja. Na realidade, todavia, para isto não é necessária coragem, porque se pode ter sempre a certeza do aplauso público. Pelo contrário, é necessária coragem para aderir à fé da Igreja, não obstante ela contradiga o "esquema" do mundo contemporâneo. Este é o não-conformismo da fé ao qual Paulo chama uma "fé adulta". É a fé que ele quer. Por outro lado, qualifica como infantil o correr atrás dos ventos e das correntes do tempo. Assim faz parte da fé adulta, por exemplo, empenhar-se pela inviolabilidade da vida humana desde o primeiro momento, opondo-se assim de forma radical ao princípio da violência, precisamente também na defesa das criaturas humanas mais inermes. Faz parte da fé adulta reconhecer o matrimónio entre um homem e uma mulher para toda a vida, como ordenamento do Criador, restabelecido novamente por Cristo. A fé adulta não se deixa transportar aqui e ali por qualquer corrente. Ela opõe-se aos ventos da moda. Sabe que estes ventos não constituem o sopro do Espírito Santo; sabe que o Espírito de Deus se expressa e se manifesta na comunhão com Jesus Cristo. No entanto, também aqui Paulo não se detém na negação, mas leva-nos ao grande "sim". Descreve a fé madura, verdadeiramente adulta, de maneira positiva com a expressão: "agir segundo a verdade na caridade" (cf. Ef 4, 15). O novo modo de pensar, que nos foi dado pela fé, verifica-se antes de tudo em relação à verdade. O poder do mal é a mentira. O poder da fé, o poder de Deus é a verdade. A verdade sobre o mundo e sobre nós mesmos torna-se visível, quando olhamos para Deus. E Deus torna-se-nos visível no rosto de Jesus Cristo. Olhando para Cristo, reconhecemos mais uma coisa: verdade e caridade são inseparáveis. Em Deus, ambas são inseparavelmente uma só coisa: a essência de Deus é precisamente esta. Por isso, para os cristãos verdade e caridade caminham juntas. A caridade é a prova da verdade. Sempre de novo, deveríamos ser medidos em conformidade com este critério, para que a verdade se torne caridade e a caridade nos torne verídicos.

Encontra-se mais um pensamento importante no versículo de São Paulo. O Apóstolo diz-nos que, agindo segundo a verdade na caridade, nós contribuímos para fazer com que tudo (ta pánta) — o universo — cresça tendendo para Cristo. Com base na sua fé, Paulo não se interessa somente pela nossa rectidão pessoal nem simplesmente pelo crescimento da Igreja. Ele interessa-se pelo universo: ta pánta. A finalidade última da obra de Cristo é o universo a transformação do universo, de todo o mundo humano, da criação inteira. Quem, juntamente com Cristo, serve a verdade na caridade, contribui para o verdadeiro progresso do mundo. Sim, aqui é totalmente claro que Paulo conhece a ideia de progresso. Cristo, o seu viver, sofrer e ressurgir foi o grande salto do progresso para a humanidade, para o mundo. Agora, porém, o universo deve crescer em vista dele. Onde aumenta a presença de Cristo, lá está o verdadeiro progresso do mundo. Lá o homem torna-se novo e, assim, torna-se novo o mundo.

Paulo evidencia-nos a mesma coisa a partir de outro ponto de vista. No capítulo 3 da Carta aos Efésios ele fala-nos da necessidade de ser "fortalecidos no homem interior" (cf. 3, 16). Assim, retoma um tema que antes, numa situação de tribulação, já tinha abordado na segunda Carta aos Coríntios: "Ainda que em nós se destrua o homem exterior, contudo o homem interior renova-se diariamente" (4, 16). O homem interior deve fortalecer-se — é um imperativo muito apropriado para o nosso tempo, em que os homens com muita frequência permanecem interiormente vazios e portanto devem apegar-se a promessas e narcóticos, que depois têm como consequência um ulterior aumento do sentido de vazio no seu íntimo. O vazio interior —a debilidade do homem interior — é um dos grandes problemas do nosso tempo. Deve ser revigorada a interioridade a perceptividade do coração; a capacidade de ver e compreender o mundo e o homem a partir de dentro, com o coração. Nós temos necessidade de uma razão iluminada pelo coração, para aprender a agir segundo a verdade na caridade. Todavia, isto não se realiza sem uma relação íntima com Deus, sem a vida de oração. Temos necessidade do encontro com Deus, que nos é concedido nos Sacramentos. E não podemos falar a Deus na oração, se não deixarmos que Ele mesmo fale primeiro, se não O ouvirmos na palavra que Ele nos comunicou. A este propósito, Paulo diz-nos: "Que Cristo habite pela fé nos vossos corações de modo que, arraigados e fundados na caridade, possais compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo, e conhecer a sua caridade, que excede toda a ciência" (Ef 3, 17 s.). O amor vê mais longe que a simples razão: é o que Paulo nos diz com estas palavras. E diz-nos ainda que só na comunhão com todos os santos, ou seja, na grande comunidade de todos os crentes — e não contra ela ou sem ela — podemos conhecer a vastidão do mistério de Cristo. Ele circunscreve esta vastidão com palavras que querem expressar as dimensões do cosmos: largura, comprimento, altura e profundidade. O mistério de Cristo tem uma vastidão cósmica: Ele não pertence apenas a um determinado grupo. Cristo crucificado abraçou o universo inteiro, em todas as suas dimensões. Ele toma o mundo nas suas mãos e eleva-o rumo a Deus. A começar por Santo Ireneu de Lião portanto, desde o século II, os Padres viram nesta palavra da largura, comprimento, altura e profundidade do amor de Cristo uma alusão à Cruz. O amor de Cristo abraçou na Cruz a profundidade mais baixa — a noite da morte, e a altura suprema — a elevação do próprio Deus. E tomou nos seus braços a largura e a vastidão da humanidade e do mundo em todas as suas distâncias. Ele abraça sempre o universo — todos nós.

Oremos ao Senhor, a fim de que nos ajude a reconhecer algo da vastidão do seu amor. Rezemos a Ele, a para que o seu amor e a sua verdade sensibilizem o nosso coração. Peçamos que Cristo habite nos nossos corações e nos torne homens novos, que ajam em conformidade com a verdade na caridade. Amém!

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