Homossexual e fiél à Igreja: é possível? (Segunda Parte)

Entrevista exclusiva com Philippe Ariño, escritor e blogueiro contra-corrente

Roma, (Zenit.org) Redacao | 617 visitas

[A primeira parte da entrevista foi publicada ontem, quinta-feira, 15 de maio]

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ZENIT: Você acha que é possível curar-se da homossexualidade?

Philippe: Sim. Deus pode curar todas as nossas feridas, incluindo aquelas psico-sexuais. No entanto, não me fixo só em uma forma de cura da homossexualidade. Não nos esqueçamos que é Deus que escolhe as formas e não nós, não nós! Não nos esqueçamos nem mesmo que existem vários graus de profundidade da feridade homossexual, e que em certas pessoas a homossexualidade não é tão profundamente enraizada, enquanto que em outras ela é tão profunda (sem, contudo, ser fundamental) que procurando eliminar a erva daninha, é arriscado arrancar também a boa semente.

É importante acreditar nas curas espetaculares de Jesus (e conheço algumas pessoas que conseguiram superar os seus medos e as suas feridas homossexuais), sem mencionar as curas progressivas e menos espetaculares. Por exemplo, há pacientes com câncer que vão a Lourdes e que retornam com a mesma doença. Oraram mal ou fizeram mal os seus pedidos? Não. Eles se curaram de outra forma. Por meio do sentido que a força de Jesus dá aos seus sofrimentos. Às vezes, Deus permite que o mal se enraíze para melhor manifestar a sua presença transcendente.

Algumas pessoas - especialmente entre os fundamentalistas religiosos cristãos e protestantes em particular, são fanáticos pelos “ex-gay” e pelas “terapias reparadoras” no que diz respeito à homossexualidade. Na prática, eles renegam totalmente as pessoas homossexuais, as suas liberdades, os seus caminhos e a sua realidade do desejo homossexual. Segundo eles, porque se trata de um problema “horrível”, que não deveria existir, e acaba por não existir realmente!

A este respeito, ouvi dizer, algumas conferências contra o gênero e o "matrimônio para todos”, são um claro incentivo para não enfrentar a questão da homossexualidade. É muito preocupante esta fuga em direção a um maniqueísmo espiritual ou um cientificismo frio. A Igreja nos chama para realmente colocarmos a pessoa antes da Verdade, mesmo que a Verdade seja necessária para a consistência da Caridade.

Devemos encarar a homossexualidade antes de saber o que fazer com ela. Em relação a este desejo real, um certo número de católicos tem a tendência de concentrar-se na cura antes mesmo de observar do que é que se tem que curar, antes mesmo de considerar a pessoa homossexual e de ver que alguns de nós permanecerão homossexuais por toda a vida. Acaba que essas pessoas se defraudam tanto da sua homossexualidade, por causa dos muitos católicos que focam só na cura, que ocasiona muitos danos. O pior é que são sinceros, desde o momento que nos vitimizam, choram por nós, dramatizam a nossa situação e afinal nos culpam ainda mais. Se ainda sente-se o desejo homossexual depois de casados, depois de ter pedido incansavelmente a cura a Jesus, depois de uma psicoterapia ou uma ágape-terapia, é preciso desconfiar por tamanha “maldade”? Por uma tão grande falta de fé e de impermeabilidade ao dom da graça? Nunca devemos deixar de acreditar na cura de Jesus. Não devemos deixar de pedi-la, mas as formas desta cura não nos pertencem, mesmo que nós concorramos a ela, Jesus não no-la dará sem o nosso consentimento e sem a nossa liberdade.

Tento explicar – especialmente a certos espíritos tão piedosos que colocam a Verdade por acima da Caridade e da realidade – que não é porque eu os coloque em guarda contra a heterossexualidade (que é uma paródia da diferença entre os sexos, paródia que a Igreja, por outro lado, nunca defendeu), e nem mesmo porque eu trate com prudência o conceito de “cura da homossexualidade", nem mesmo porque até fale abertamente sobre a homossexualidade, que, portanto, eu justifique a homossexualidade ou me reduza a ela ou ainda duvide da eficácia das “terapias reparativas”, em alguns casos. Tudo o que quero é a doçura e o respeito pelas pessoas, na exigência da Verdade proposta por Jesus. Ele não nos acolhe “a partir do momento em que não formos mais homossexuais” ou “porque não seremos realmente homossexuais” nem “para mudar-nos”. Ele quer converter-nos. Não mudar-nos. E leva a sério o que nós sentimos. Ele trabalha com o que nós somos e, a partir daí, se adapta e diz: "Vamos ver o que podemos fazer".

ZENIT: Finalmente, quais conselhos você daria aos países europeus que se preparam para receber o tsunami do “matrimônio para todos” e da ideologia do gênero?

Philippe: Aconselho que utilizem a mesma linguagem que os promotores dessas leis desumanas que desconstroem a identidade sexuada, o matrimônio e a família, ao invés de começar com o que já se sabe (que pode ser correto no papel ou na teoria, mas que não acrescentará nada ao raciocínio emotivo e sentimentalista da opinião pública e dos nossos governantes).

Por enquanto, e o caso da França em 2013 o provou mais uma vez, nós tivemos muito medo de falar sobre homossexualidade e homofobia. Nos escondemos atrás da criança, da família, tanto que a lei do “matrimônio para todos” passou, dividindo-se hipocritamente em duas. Os nossos políticos tiveram a coragem de dizer que se o que nos criava problemas era somente a criança, eles teriam feito passar a lei de “abertura” do matrimônio “em nome do amor e da igualdade” e estariam prontos para discutir as consequências sobre a filiação posteriormente!

A questão, para os adversários do gênero e do "matrimônio gay", consiste no ajudar as pessoas homossexuais a falarem publicamente e assim demonstrarem que a sua homossexualidade é instrumentalizada para fazer passar uma lei que, concretamente, dá, mínimo, três pais para uma criança, e que é uma grande mudança de civilização: é a condição da alteridade dos sexos no casamento que é reprimida!

Durante os debates sobre o "matrimônio para todos" será preciso, acima de tudo, defender a diferença dos sexos amantes (não a diferença dos sexos em si) e denunciar a heterossexualidade, que é a principal base ideológica sobre a qual descansa o gênero, o "casamento para todos" e todas as ideologias pró- gay (além da crença na "homofobia"). Só desmistificando a homossexualidade mostra-se a grandeza dos casais homem-mulher amantes e se destrói a idealização/banalização social da homossexualidade!

[Entrevista por N.S. / Trad.T.S.]