House: relação entre televisão e bioética

Responde o especialista em bioética Carlo Valério Bellieni

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ROMA, segunda-feira, 10 de setembro de 2007 (ZENIT.org).- Existe uma curiosa relação entre televisão e bioética, explica o Dr. Carlos Valério Bellieni, do Departamento de Terapia Intensiva Neonatal da Policlínica Universitária «Le Scotte», de Siena, e membro da Academia Pontifícia para a Vida.



Constatando o enorme êxito que as séries de médicos e hospitais têm, o especialista em bioética analisou com Zenit, em particular, a série «House», estreada nos Estados Unidos em 2004 pela rede Fox, e entre 2006 e 2007 em vários países de língua espanhola e também portuguesa.

«É uma série que mostra algo interessante: saindo do rebanho, o médico não se deixa levar pelos elogios aos bem conhecidos jargões do relativismo ético na Medicina», que Bellieni descreve assim: «o paciente é último tribunal; o médico um ‘provedor de um serviço’; não existe capacidade alguma para emitir juízos morais sobre os comportamentos na Medicina».

Politicamente incorreto
House, com sua autonomia de juízo, é «politicamente incorreto» – «ainda que com alguma exceção» –, acrescenta o cientista. O interessante é que esses juízos procedem de uma personagem «em constante luta com o mundo».

«A força da série está precisamente na transformação do protagonista, em suas dúvidas e seus limites.»

O seriado parece ser uma apologia da frieza ante o paciente: narra a história de um médico (Gregory House) misantropo e antipático, que não quer ter contato humano com os pacientes.

«Esta distância, devida a seu próprio sofrimento existencial e físico, é, contudo, só aparente. Ainda permanecendo descortês e anti-social, em cada momento e com insistência ele procura chegar ao fundo da pessoa que deve curar», explica o Dr. Bellieni.

«Parte de seu próprio sofrimento consiste em reconhecer o dos demais, e às vezes é justamente esta reflexão que o faz ver coisas que não são vistas por aqueles que o rodeiam.»

«Fala de maneira brusca com os pacientes para convencê-los de que aceitem um determinado tratamento, não para agradá-los. Sabe que existe um bom comportamento médico e um equivocado, e quer que seus pacientes escolham o bom.»

Paternalismo?

Alguns poderiam acusar o doutor House de paternalismo. Mas seu colega na vida real considera que este defeito poderia ser muito melhor «que quem deixa o paciente sozinho ante um diagnóstico feito de palavras e números, ‘livre’ para escolher se quer morrer ou viver».

«Em resumo: com freqüência as palavras, e certas palavras doces e piedosas muito na moda – diz-nos com um paradoxo o autor do seriado –, servem para disfarçar a distância entre as pessoas», declara.

«Tudo isso – constata o especialista em bioética – se sublinha muito bem com a trilha sonora, muito rica em música de tema religioso, e que mostra a insatisfação de uma vida sem sentido; entre as peças musicais estão, por exemplo, a belíssima ‘Desire’ de Ryan Adams ou ‘Hallellujah’, de Jeff Buckley», indica.

Valores

Bellieni percebeu valores nesta série. O primeiro, explica, é que «o médico não é o ‘provedor de um serviço’, para quem cada petição de um paciente é igual a qualquer outra, mas que sabe distinguir entre uma boa resposta e uma má, e sabe encontrar a força para não proporcionar a segunda».

Por exemplo, explica, «House mantém o músico de jazz entubado, apesar de todos terem medo de transgredir seu ‘testamento biológico’; e também sua colega ‘Cuddy’ faz algo similar: ao pedido de uma injeção de morfina, na realidade lhe injeta um placebo».

Em segundo lugar, recorda, «a relação entre médico e paciente nunca tem um só sentido. Não está somente o que dá (o médico) e o que recebe (o enfermo), mas o médico, ou se coloca em atitude de aprender do enfermo, de sua força e de seu empenho – percebendo os sinais escondidos que lança ... –, ou do contrário daria um tratamento truncado, ineficaz».

«House cura uma criança autista conseguindo, só ele, entrar em contato com o menino; e não só isso, mas, ao final – quando parece deixar-se envolver pelo pensamento de que talvez curar uma criança autista, que é muito difícil de guiar, seja uma espécie de obstinação terapêutica –, a criança se aproxima dele, olha nos seus olhos e lhe dá seu brinquedo...»

«Surpreende todos – uma criança autista dificilmente fixa o olhar em outro nem mantém relações – e alegra seus pais, apesar da certeza da grandíssima dificuldade; inclusive dá ao doutor House a ocasião de refletir sobre si mesmo.»

«O protagonista vai inclusive falar com uma mulher da empresa, deprimida, que espera que a coloquem na lista de espera para um transplante de coração, e lhe pergunta gritando: ‘Mas você quer viver? Diga-me, porque mesmo eu ainda não sei!’. E não o faz para que ela faça um ‘testamento biológico’, mas para despertar nela (em si mesmo!) o amor à vida.»

Um homem com erros

«Certamente, House, como pessoa, não é um santo, e às vezes se equivoca em suas decisões morais. Mas se fosse um santo, seria surpreendente assim ouvi-lo argumentar, como de fato acontece, contra a droga ou o sexo incestuoso, ou contra a fundação heteróloga [na qual participa uma terceira pessoa diferente aos pais legais, ndr]? Seria tão ‘forte’ ouvi-lo fazer-se perguntas sobre a humanidade de um feto?»

«Em alguns momentos, os comentários positivos vêm de outras personagens da série. Por exemplo, quando, frente ao cinismo de House, a ajudante pergunta: ‘Mas é preciso ser religioso para compreender que um feto é vida?’. Ou a colega – a quem perguntam por uma menina que perderá o braço, ‘que qualidade de vida terá’ e ela responde: ‘A vida tem sempre qualidades’.»

Estupor ante o paciente

«O doutor House se deixa surpreender. Equivoca-se, mas sabe reconhecer o humano quando o encontra. Este é um aspecto importante, com freqüência esquecido na atividade médica: o estupor ante a misteriosa humanidade de um paciente.»

«House se deixa abraçar pela menina com tumor, a quem prolongou a vida por um ano, e impressionado pela força moral da pequena, chega a mudar seu estilo de vida.»

«Fica maravilhado ante a mãozinha do feto que sai do útero materno, durante uma operação, e toca a sua. Fica o dia todo olhando o dedo com o qual tocou a mãozinha, perguntando-se quem é essa vida que ninguém conhece como humana (talvez nem sequer ele), mas que o acariciou».

«Seu estupor é a base de sua habilidade para curar», revela Bellieni.

«House parece não estar nunca disponível para os pacientes... Não é um médico bondoso, está cheio de dor; mas guarda uma exigência de significado que não lhe permite desesperar-se. Por isso impressiona, em um momento no qual parece que só o próprio capricho tem valor, em especial na Medicina», conclui o especialista em bioética.