Igreja: a razão e a paixão da vida

As palavras de Bento XVI aos cardeais no último dia do seu pontificado

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) | 1424 visitas

Bento XVI na manhã desta quinta-feira 28 de Fevereiro, último dia do seu pontificado encontrou-se com os cardeais presentes em Roma para  uma saudação de despedida. Apresentamos a seguir suas palavras:

Venerados e queridos Irmãos!

Com grande alegria vos recebo e ofereço a cada um de vós a minha mais cordial saudação. Agradeço ao Cardeal Angelo Sodano que, como sempre, foi capaz de transmitir os sentimentos do Colégio: Cor ad cor loquitur. Obrigado Eminência, de coração. Gostaria de dizer – tendo com referência a experiência dos discípulos de Emaús - que também para mim foi uma alegria caminhar convosco nos últimos anos, na luz da presença do Senhor ressuscitado.

Como disse ontem diante dos milhares de fiéis que encheram a Praça de São Pedro, a vossa proximidade e o vosso conselho foram de grande ajuda no meu ministério. Nos últimos oito anos, vivemos com fé momentos de luz radiante no caminho da Igreja, junto a momentos nos quais algumas nuvens se adensaram no céu. Procuramos servir a Cristo e a sua Igreja com amor profundo e total, que é a alma do nosso ministério. Demos esperança, aquela que vem de Cristo, que só pode iluminar o caminho. Juntos podemos dar graças ao Senhor que nos fez crescer na comunhão e juntos pedir-Lhe que vos ajude a crescer ainda nesta unidade profunda, de modo que o Colégio dos Cardeais seja como uma orquestra, onde as diferenças - expressão da Igreja universal - contribua sempre para a harmonia superior e concorde.

Gostaria de vos deixar um pensamento simples, que muito está no meu coração: um pensamento sobre a Igreja, sobre seu mistério, que é para todos nós - podemos dizer - a razão e a paixão da vida. Deixo-me ajudar por uma expressão de Romano Guardini, escrita no ano em que os Padres do Concílio Vaticano II aprovaram a Constituição Lumen Gentium, em seu último livro, com uma dedicatória pessoal para mim; por isso as palavras deste livro são-me particularmente queridas. Guardini diz: A Igreja "não é uma instituição concebida e construída sob um projeto..., mas uma realidade viva... Ela vive ao longo do tempo, como qualquer ser vivo, transformando-se ... No entanto, na sua natureza permanece a mesma, e seu coração é Cristo". Foi a nossa experiência, ontem, parece-me, na Praça: ver que a Igreja é um corpo vivo, animado pelo Espírito Santo e vive realmente pela força de Deus. Ela está no mundo, mas não é do mundo: é de Deus, de Cristo, do Espírito. Vimos isso ontem. Por isso é também verdadeira e eloquente outra frase de Guardini: "A Igreja desperta nas almas". A Igreja vive, cresce e desperta nas almas que, como a Virgem Maria - acolhem a Palavra de Deus e a concebem pelo poder do Espírito Santo; oferecem a Deus a própria carne e, precisamente na sua pobreza e humildade, tornam-se capazes de gerar Cristo hoje no mundo. Através da Igreja, o Mistério da Encarnação permanece para sempre. Cristo continua a caminhar através dos tempos e em todos os lugares.

Permaneçamos unidos, queridos irmãos, nesse Mistério: na oração, especialmente na Eucaristia diária, e assim sirvamos a Igreja e toda a humanidade. Esta é a nossa alegria, que ninguém nos pode tirar.

Antes de vos cumprimentar pessoalmente, gostaria de dizer-vos continuarei a estar perto com a oração, especialmente nos próximos dias, para que sejais totalmente dóceis à ação do Espírito Santo na eleição do novo Papa. Que o Senhor vos mostre o que Ele quer. E entre vós, entre o Colégio de Cardeais, está também o futuro Papa ao qual desde já prometo a minha reverência e obediência incondicionadas. Portanto, com afeto e gratidão, concedo-vos de coração a Benção Apostólica.