Igreja Católica e cultura, “velhos companheiros de viagem”

Intervenção do cardeal Tauran no Conselho da Europa

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ESTRASBURGO, quinta-feira, 14 de abril de 2011 (ZENIT.org) - O cristianismo tem um grande papel a desempenhar no âmbito cultural, afirmou o cardeal Jean-Louis Tauran, em seu discurso dessa terça-feira em Estrasburgo (França), durante a sessão de primavera da assembleia parlamentar do Conselho da Europa, em um debate sobre a dimensão religiosa do diálogo intercultural.

"A Igreja Católica e a cultura são velhos companheiros de viagem", disse o purpurado em sua intervenção, conforme relatado pelo ‘L'Osservatore Romano'.

"Os crentes têm uma maneira de usar as coisas, de trabalhar, expressar-se, praticar a sua religião, enriquecer as artes e ciências, que fornece a toda a comunidade humana uma resposta aos grandes interrogantes que assombram o homem desde sempre", reconheceu.

"Não se trata de ditar aos homens o que fazer, e sim recordar-lhes que são os gestores dos recursos materiais e morais deste mundo para o benefício de todos e, portanto, cabe a eles o dever de mantê-los e cultivá-los para as gerações futuras."

Aos homens de hoje corresponde fazer com que seus contemporâneos "jamais se vejam privados das fontes de luz ou das propostas de sentido capazes de iluminá-los e apoiá-los", acrescentou.

"Frente aos experimentos sobre o humano, a eutanásia, o aborto, a banalização da sexualidade, a ditadura da aparência, devem ser cúmplices de tudo o que, na cultura, conduza ao sentido do humano e da humanização."

Diálogo

O cardeal recordou também a importância de que "os jovens sejam considerados iguais frente ao diálogo intercultural e inter-religioso".

"Eles devem ter a mesma oportunidade de acesso ao conhecimento de sua religião e poder conhecer também a religião dos outros", disse ele, pedindo que sejam informados "sobre outras formas de pensar e crer, dissipando, assim, os seus temores".

"Nós nos enriquecemos com outras formas de pensar do outro, compartilhando o melhor de nossas tradições espirituais."

Humanismo cristão

O cardeal sublinhou a existência de um "humanismo europeu de origem cristã", que "tornou possível, com a exceção de uma grande parte do século passado, o debate entre fé e razão".

Para o cardeal Tauran, trata-se de "um humanismo aberto à transcendência, que, ainda hoje, apesar do secularismo e do relativismo ambientais, permite que os cristãos - e os crentes em geral - recordem a prioridade da ética sobre as ideologias do momento, a primazia da pessoa sobre as coisas, a superioridade do espírito sobre a matéria".

"Na Europa, nenhuma religião pode pretender impor-se pela astúcia ou pela força - afirmou. Na Europa se dialoga. Na Europa, a religião não só é herdada, e sim, cada vez mais, escolhida. E dado que as religiões são também culturas, a Europa continua sendo hoje um crisol do viver juntos."

Por isso, destacou, "é oportuno que não faltem nunca espaços de escuta e partilha", que "nos permitem conhecer a verdadeira face das religiões".

Neste contexto, desejou que "o Conselho da Europa tenha sempre a coragem de tomar decisões concretas necessárias para promover - e, se necessário, defender - a liberdade de religião, para denunciar todas as formas de violência, perseguição e discriminação por motivos religiosos, na Europa e em qualquer lugar do mundo".

"Como crentes, temos uma grande oportunidade de trabalhar conjuntamente no contexto do diálogo ecumênico, do diálogo inter-religioso e também com todos os que caminham rumo ao Absoluto", disse o cardeal.

"Façamos que o nome de Deus nunca seja invocado para justificar a discriminação e a violência!"