Igreja precisa viver do «perene Pentecostes», adverte pregador do Papa

Em sua meditação de Advento a Bento XVI e à Cúria

| 2022 visitas

Por Marta Lago

 

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 14 de dezembro de 2007 (ZENIT.org).- Todos na Igreja «estamos chamados» a estar na «corrente da graça» de um «Pentecostes contínuo», chave para o anúncio profético de Cristo, reconheceu esta sexta-feira o pregador da Casa Pontifícia perante o Papa e seus colaboradores da Cúria Romana.

E expressão desse Pentecostes contínuo é o «batismo no Espírito», aquele que distingue toda a pessoa e obra de Cristo, sintetizou o padre Raniero Cantalamessa OFM Cap., em sua segunda pregação do Advento.

Eixo destas meditações é o texto paulino: «Falou por meio do Filho» (Hb 1, 1-3), do qual se desprende a divisão do tempo em duas partes: quando Deus falou através dos profetas e o tempo em que Deus fala através do Filho, apontou o pregador do Papa na sexta-feira passada.

E passagem entre um tempo e o outro é João Batista, «mais que um profeta» porque anuncia Cristo presente – sublinhou –. Figura precursora do Messias, no Novo Testamento, o Batista é a melhor evidência da novidade de Cristo.

«Entre a missão de João o Batista e a de Jesus ocorreu algo decisivo, tal que constitui uma divisória entre duas épocas. O centro de gravidade da história se deslocou: o mais importante já não está em um futuro mais ou menos iminente, mas está «aqui e agora», no reino que está já operante na pessoa de Cristo».

E é esta a «nova profecia» que inaugurou João Batista: consiste em «revelar a presença escondida de Cristo no mundo», sacudindo sua indiferença.

Mas «para dar testemunho de Jesus se requer espírito de profecia». «Existe este espírito de profecia na Igreja? Ele é cultivado? Alentado? Ou se crê, tacitamente, que se pode prescindir dele, apontando mais para meios e recursos humanos?», interrogou.

Urge esta profecia, que tenha profetas de Deus, ainda pequenos ou desconhecidos, mas com «fogo no coração, palavra nos lábios, profecia no olhar», que é o que define o «perene Pentecostes» que a Igreja precisa – como dizia Paulo VI e recordou o padre Cantalamessa –.

O poder do Espírito

«A comparação entre o Batista e Jesus se cristaliza no Novo Testamento na comparação entre o batismo de água e o batismo do Espírito», explicou o pregador da Casa Pontifícia; Jesus «batiza no Espírito Santo» «no sentido de que recebe e dá o Espírito sem medida», «infunde seu Espírito Santo sobre toda a humanidade redimida».

De fato, a expressão «batizar no Espírito» define «a obra essencial do Messias» e, aplicando isso «à vida e ao tempo da Igreja, devemos concluir que Jesus, ressuscitado não batiza no Espírito Santo unicamente no sacramento do batismo – expressou –, mas, de maneira distinta, também em outros momentos: na Eucaristia, na escuta da Palavra e, em geral, em todos os meios da graça».

Através do «batismo do Espírito» – testemunhou, fazendo-se porta voz de milhões de fiéis – «se tem experiência da unção do Espírito Santo na oração, de seu poder no ministério pastoral, de seu consolo na provação, de sua guia nas decisões», «transforma interiormente, dá o gosto do louvor de Deus, abre a mente à compreensão das Escrituras, ensina a proclamar Jesus “Senhor” e dá o valor de assumir tarefas novas e difíceis, no serviço de Deus e do próximo», antes ainda que a eventual «manifestação dos carismas».

«Não é que todos estão chamados a experimentar a graça de um “novo Pentecostes” [termo que João XXIII usou N. do R.] desta forma», reconheceu o padre Cantalamessa, «mas todos estamos chamados a não permanecer fora desta “corrente da graça” que atravessa a Igreja do pós-Concílio”».

E se dirigiu especialmente ao matrimônio – sacramento da doação recíproca –, onde a ação sanadora do Espírito Santo é chave porque «é o dom feito pessoa, é a doação do Pai ao Filho e do Filho ao Pai».

Assim, aonde chega o Espírito – «o amor de Deus» – «renasce a capacidade de fazer-se dom e com ela a alegria e a beleza dos esposos de viverem juntos»; «reaviva toda expressão de amor», concluiu.