Igrejas divididas, co-responsáveis pela secularização da Europa

Disse o cardeal Kasper na III Assembléia Ecumênica do velho continente

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SIBIU, domingo, 9 de setembro de 2007 (ZENIT.org).- As divisões entre católicos, ortodoxos e evangélicos «são co-responsáveis pelas divisões na Europa e pela secularização do continente», afirma o cardeal Walter Kasper, presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos.



Em sua intervenção ante a assembléia, encerrada neste domingo, o purpurado alemão traçou um breve balanço dos avanços no caminho ecumênico e de suas repercussões no processo de unificação no velho continente.

Segundo o cardeal Kasper, as Igrejas, ainda que se movendo sobre o sólido terreno comum, custodiam a fé em Jesus Cristo como um «tesouro em vasilhas de barro».

«Por causa de nossas divisões, obscurecemos a luz de Jesus Cristo a muitas pessoas e fizemos com que a realidade de Jesus Cristo não fosse crível», disse.

«Nossas divisões – e a história é testemunha – são co-responsáveis pelas divisões na Europa e pela secularização deste continente», acrescentou.

«Nossas divisões também são co-responsáveis pelas dúvidas que muitos têm com respeito à Igreja e de que questionem sua existência. Frente a tal situação, na qual se encontram nossas Igrejas, não podemos ficar tranqüilos; não podemos seguir adiante como se não tivesse passado nada».

O purpurado aludiu às reações ao recente documento vaticano, publicado em 10 de julho passado pela Congregação para a Doutrina da Fé e titulado «Respostas a algumas perguntas acerca de certos aspectos da Doutrina sobre a Igreja», no qual se precisa «o significado autêntico de expressões eclesiológicas magisteriais que, no debate teológico, correm o risco de ser mal compreendidas».

Neste sentido, o purpurado afirmou: «Sei que muitos, em especial muitos irmãos e irmãs evangélicos, sentiram-se feridos por isso. Isto não deixa indiferente nem sequer a mim e representa um peso também para mim».

«Porque o sofrimento e a dor de meus amigos é também minha dor. Não era nossa intenção ferir ou menosprezar ninguém», admitiu.

«Queríamos dar testemunho da Verdade, o que esperamos também das outras Igrejas, como seguramente fazem», sublinhou.

Apesar disto, seguiu dizendo o purpurado, no documento se sublinha que «Jesus Cristo está presente com seu poder salvífico também nas Igrejas e nas comunidades eclesiais separadas de nós».

«As divergências não se referem, portanto, ao ser cristão, e nem sequer à questão da salvação; as diferenças têm a ver com a questão da concreta mediação salvífica, assim como a forma visível da Igreja», explicou.

Contudo, o «verdadeiro nó» que se deve desfazer refere-se à compreensão da Igreja e da Eucaristia, e a «terapia» pode acontecer só através da «purificação da memória», disse, recordando a famosa expressão usada por João Paulo II.

«Nenhum progresso ecumênico será possível sem conversão e penitência. Disso deve brotar a disponibilidade à renovação e à reforma, que é necessária em toda Igreja e que pede a cada Igreja começar por si mesma», disse.

O purpurado afirmou que «o método das convergências», adotado até agora no diálogo ecumênico, revelou-se frutífero em muitas questões, como o demonstra a firma da Declaração Conjunta da Igreja Católica e da Federação Luterana Mundial sobre a Doutrina da Justificação (31 de outubro de 1999). Agora, reconheceu, enquanto tanto, «este método se esgotou evidentemente».

Neste momento de estancamento do ecumenismo, o purpurado fez um chamado a «dar testemunho uns aos outros de nossas respectivas posturas, de modo honesto e atraente», evitando tons polêmicos e mediante um enriquecimento mútuo.

Nesse sentido, o purpurado sublinhou alguns âmbitos específicos nos quais as diversas confissões cristãs puderam beneficiar-se, como o aprofundamento da Sagrada Escritura, a renovada atenção às formas litúrgicas e a maior sensibilidade pelo sentido do sagrado e a arte sacra.

Contudo, sublinhou, a unidade «não pode ser obra nossa. É um dom do Espírito de Deus; só Ele pode reconciliar os corações. Este Espírito de unidade é o que devemos pedir na oração».

Mais tarde, o cardeal relacionou a questão da unidade visível e plena de todos os cristãos com o destino da Europa.

Lamentavelmente, «hoje, a Europa corre não tanto o risco de trair os próprios ideais quanto de esquecê-los de modo banal».

«O perigo principal não está representado tanto pela oposição atéia, mas pelo esquecimento de Deus – já que simplesmente se passa por cima dos preceitos de Deus –, pela indiferença, pela superficialidade, pelo individualismo e pela falta de disponibilidade a comprometer-se em favor do bem comum e a saber sacrificar-se por este fim», acrescentou.

«A nova evangelização é nossa tarefa. Precisa-se do verdadeiro pão da fé convencida e vivida. A Europa não pode ser só uma unidade econômica e política; a Europa precisa, se quiser ter futuro, de uma visão comum e de um sistema comum de valores fundamentais».

«A Europa, e isto significa nós, os cristãos da Europa, temos de despertar de uma vez; a Europa deve alinhar-se com o que lhe é próprio, com sua história e seus valores que em um tempo lhe deram grandeza e que podem garantir-lhe um porvir novo», sublinhou.

«Esta é nossa missão comum», concluiu.