Igrejas na Europa relançam compromisso com a criação

Mensagem ao final da peregrinação “verde” organizada pela CCEE

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MARIAZELL, quinta-feira, 9 de setembro de 2010 (ZENIT.org) – Promover, por meio da formação, uma conversão da mente e do coração que motive a mudança do comportamento habitual é o objetivo indicado pelas Igrejas europeias na mensagem final dos bispos e delegados das conferências episcopais da Europa que participaram na peregrinação pela salvaguarda da criação, realizada de 1 a 5 de setembro entre Hungria, Eslováquia e Áustria, até o Santuário de Mariazell.

Igreja na Europa: renovar seu compromisso com a salvação da criação é o título da mensagem, que conclui e relança, para o trabalho futuro, a iniciativa promovida pelo Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE), com o objetivo de realizar uma reflexão comum sobre o tema indicado por Bento XVI para o Dia Mundial da Paz 2010: preservar a criação para cultivar a paz. 

O cosmos do caos

“A bondade, beleza e fecundidade da Criação constituem a primeira vocação do homem, vocação que lhe é confiada na responsabilidade.”

Assim como do caos, ordenado pela Palavra de Deus, surgiu o Cosmos – imagem proposta pelo presidente do Conselho Pontifício para a Justiça e Paz, cardeal Peter Turkson, em sua intervenção aos participantes na peregrinação –, “o cosmos, sem a Palavra de Deus, pode conduzir-nos aos caos”.

“Esta persuasão encontra eco na própria etimologia da palavra «ecologia», que contém a ideia de velar por uma boa ordem na «oikos», na casa comum, na nossa habitação terrestre.”

“Como cristãos – afirmou Dom Manuel da Silva Rodrigues Linda, bispo auxiliar da diocese portuguesa de Braga e responsável da Comissão para a Pastoral Social da Conferência Episcopal Portuguesa – trata-se de uma verdade de fé da qual devemos ser mais conscientes.”

“A conversão da mentalidade e as atitudes ecológicas – prosseguiu – nascem de uma conversão a Deus.”

Segundo o prelado, temos de partir da pergunta “Quem é Deus para mim?”. “O nosso é um Deus criador, que quer a vida de suas criaturas e não deseja que morram”.

“Quando nos damos conta de que juntamente com todas as criaturas, habitamos a mesma morada, uma casa comum, já não gostaremos de ver desfigurações e danos ao nosso redor. A partir daqui começa uma mudança de mentalidade que deve levar à conversão do coração.”

“Os que pensam somente no lucro nunca se encaminharão para a conversão”, advertiu.

E concluiu: “seria conveniente que também na catequese e na pregação dominical se destacasse mais o conceito de Deus criador”.

Ecologia da pessoa humana

A mensagem final da peregrinação recorda que “o «livro da natureza» é uno e indivisível. O respeito por uma «ecologia humana» está integralmente interligado com o respeito pela Criação”.

“O perigo do movimento ecológico – comentou Dom Andrè-Joseph Léonard, arcebispo de Malinas-Bruxelas (Bélgica) e presidente da Conferência Episcopal Belga – é esquecer o lugar central da pessoa humana, preocupando-se com o futuro de todas as espécies animais e deixar de lado, possivelmente, a pessoa humana”.

É, em contrapartida, muito importante, segundo Dom Léonard, “unir em uma única preocupação o meio ambiente natural e a pessoa humana”.

Trata-se de um tema que “une aspectos filosóficos e teológicos a perfis científicos para depois ser traduzido em atitudes muito práticas”.

“Eu mesmo – explicou o arcebispo –, após ter participado em encontros sobre o tema da salvaguarda da criação, decidi comprar um carro ecológico, que consome pouco, e aprendi a estar atento a pequenas coisas que contudo têm um grande impacto, como usar menos água ou utilizar o trem no lugar do carro e também usar mais a bicicleta.”

A questão do respeito pelo meio ambiente implica também as estruturas eclesiásticas.

“Na Bélgica – afirma Dom Léonard – há muita decisões para se tomar, nas paróquias, seminários, igrejas, para economizar energia.”

A todos os homens de boa vontade

A mensagem de Mariazell destaca a necessidade de recorrer a fontes de energia alternativa e chegar a um acordo pacífico sobre a utilização dos recursos, principalmente a água.

Também se recordam os princípios da doutrina social da Igreja sobre a solidariedade, subsidiariedade e a justiça distributiva, assim como o dever de preocupar-se pelas gerações futuras.

A salvaguarda da criação deve receber uma atenção ecumênica. Por isso, a mensagem recomenda uma oração e uma ação comum das Igrejas e das comunidades cristãs, a partir do convite da assembleia ecumênica de Sibiu de 2007, que indica a cada ano, no período de 1 a 4 de outubro, festa de São Francisco, um tempo particular de oração e de sensibilização sobre a temática ecológica.

“Trata-se – afirma o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena e presidente da Conferência Episcopal Austríaca – de um âmbito de colaboração não só ecumênico, mas de toda pessoa de boa vontade.”

Há, de fato, “pessoas de outras religiões ou sem nenhuma crença religiosa que têm um grande sentido de responsabilidade pelo futuro, pelas próximas gerações e pelo bem comum que nos foi dado na criação”.

Semear para o futuro

“O ‘êxito’ de iniciativas como esta peregrinação – afirmou Pe. Duarte da Cunha, secretário geral da CCEE – não se deve avaliar segundo a lógica do mundo, que exige resultados imediatos.”

“Nosso trabalho quer propor sementes que trarão frutos com a graça de Deus e a responsabilidade de todos”, explicou.

“Na mensagem conclusiva – prossegue o sacerdote – emergem muitas propostas.”

“Adverte-se sobretudo da urgência de que as Igrejas mantenham um nível de reflexão e de aprofundamento sobre o respeito à criação, não só na ecologia, mas do complexo cuidado da vida.”

Os resultados da peregrinação serão apresentados na assembleia plenária da CCEE do próximo mês de outubro em Zagreb.

“Esperamos saber – concluiu o secretário geral da CCEE – o que as conferências episcopais europeias sugerem para continuar o caminho empreendido.”