Índia: Hindus radicais são absolvidos da violência de 2008

Igreja protesta contra relatório da comissão do juiz Somasekhara

| 1195 visitas

Por Paul De Maeyer

ROMA, terça-feira, 8 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) - A comunidade cristã da Índia, particularmente as dioceses católicas do estado de Karnataka, no sudoeste - que em Bangalore tem o coração da indústria de alta tecnologia "made in India" -, rejeitou decisivamente o relatório final da comissão de investigação da violência anticristã ocorrida em setembro de 2008 no estado.

Os resultados das investigações dirigidas por um ex-juiz do Supremo Tribunal de Karnataka e Andhra Pradesh, B. K. Somasekhara, entregues em 28 de janeiro, em um relatório dirigido ao ministro-chefe de Karnataka, B. S. Yedyyurappa, do partido nacionalista hindu Bharatiya Janata Party (BJP), são inaceitáveis para os cristãos, bem como para os movimentos de direitos humanos, que denunciam, há anos, a impunidade e conivência entre os movimentos extremistas hindus e as autoridades.

O relatório de "Justice B. K. Somasekhara Commission of Inquiry", investigação que começou em outubro de 2008, absolveu o governo e a polícia do estado de Karnataka, negando o seu envolvimento ou responsabilidade nos atos, e também eximiu as organizações extremistas hindus. Os ataques, diz o texto, não foram realizados por "verdadeiros hindus", mas por "vilões fundamentalistas equivocados", pertencentes a grupos ou organizações definidas ou indefinidas que "erroneamente" pensaram que o partido que ocupa o poder os protegeria (UCA News, 28 de janeiro).

O documento do juiz Somasekhara também trata sobre a delicada questão das conversões "forçadas" ou "induzidas" ao cristianismo, um tema "muito importante" para os grupos hindus radicais. Ao mesmo tempo em que dispensa a Igreja Católica, o relatório diz que há "sinais claros de conversão ao cristianismo" por parte de determinadas organizações ou "pastores sediciosos" que teriam usado fundos locais ou estrangeiros para induzir as pessoas a se converterem, "não necessariamente por meio da coação, da fraude ou da coerção", como sustentam os grupos hindus fundamentalistas.

A comissão "one-man" (composta, de fato, por um único membro, o juiz Somsekhara) também rejeita o pedido feito por algumas organizações hindus de proibir publicações cristãs, incluindo a Bíblia, mas recomenda, por sua vez, a introdução de uma "lei anticonversão" em Karnataka, seguindo o exemplo de pelo menos sete dos estados da União Indiana: Arunachal Pradesh, Chhattisgarh, Gujarat, Himachal Pradesh, Madhya Pradesh, Orissa e Rajasthan.

Para a Igreja, o documento é "injusto". Durante uma coletiva de imprensa, o arcebispo de Bangalore, Dom Bernard Moras, falou no sábado, 5 de fevereiro, de um texto "altamente tendencioso", que "certamente cria divisão". Para o prelado, a versão final "legitima a posição do Estado" e "deliberadamente absolve indivíduos ou organizações responsáveis pelos ataques mencionados no relatório interino" (Daijiworld.com, 5 de fevereiro). Apresentado em 1º de fevereiro de 2010, este último havia apontado várias organizações hindus, como Bajrang Dal, Sri Rama Sene (SRS) e Viswa Hindu Parishad (VHP).

"A comunidade cristã não estava satisfeita com a decisão do governo de nomear uma comissão de investigação ‘one-man', ou seja, o juiz Somasekhara. Nós cooperamos com a comissão. Mas, após analisar o documento, estamos profundamente preocupados e decidimos rejeitá-lo", declararam, por sua vez, os representantes do Conselho Regional dos Bispos Católicos de Karnataka (KRCBC) e do Fórum de Direitos Humanos de Karnataka United Christian (KUCFHR) (Daily News & Analysis, 6 de fevereiro).

A diocese de Mangalore já anunciou que vai lutar contra as conclusões do juiz Somasekhara. "Transmitiremos nosso protesto ao presidente e ao primeiro-ministro", disse há poucos dias o bispo da diocese, Dom Aloysius Paul D'Souza.

"Apresentaremos também um pedido à Suprema Corte", acrescentou o prelado (UCA News, 3 de fevereiro). De acordo com a diocese, o relatório "fracassou em sua tentativa de indicar ao governo soluções e medidas de controle dos grupos organizados, responsáveis pelos atentados contra as igrejas", disse uma nota oficial enviada à agência de notícias Fides, em 1º de fevereiro.

O ativista católico Joseph Dias, secretário-geral do Christian Secular Forum (PSC), também foi firme ao considerar os nacionalistas do BJP como culpados. "Em Karnataka e em outros estados da Índia, onde o partido está no poder, a violência contra os cristãos aumentou claramente", disse à agência Fides.  "Precisamos fazer que se ouça a voz de dissidência da sociedade civil. Exigimos que o documento seja retirado e substituído por um novo inquérito imparcial. Caso contrário, existe o risco de que os movimentos extremistas hindus, que querem eliminar a presença cristã na sociedade indiana, sintam-se apoiados pelas instituições", continuou (3 de fevereiro).

De acordo com dados compilados pela agência Fides, em Karnataka, que tem pouco mais de um milhão de cristãos - em uma população total de mais de 52 milhões de habitantes -, foram registrados, durante a onda de violência de 2008, pelo menos 113 ataques contra alvos cristãos (pessoas, edifícios ou instituições) e outros 138 assaltos ou atos anticristãos nos anos seguintes.

O que acendeu o estopim foi a morte violenta de um dos líderes do grupo radical hindu Vishwa Hindu Parishad (VHP), Swami Laxanananda Saraspati, morto por um comando armado na noite do sábado, 23 de agosto de 2008, juntamente com 5 seguidores, no distrito de Kandhamal, no estado de Orissa, que também foi cenário de gravíssimos incidentes anticristãos. Os radicais hindus atribuíram a responsabilidade aos cristãos, ainda que, justamente depois, o líder da guerrilha maoísta de Orissa, Sabyasachi Panda, tenha assumido a responsabilidade pela matança (AsiaNews, 6 de outubro de 2008).

Hoje, a violência contra cristãos continua na ordem do dia na Índia, especialmente no estado de Karnataka. Segundo Michael F.Saldanha, ex-juiz do Supremo Tribunal de Karnataka e presidente da Associação Católica de Kanara do Sul, não há dúvida: em Karnataka, o partido nacionalista BJP "superou Orissa" (Compact Direct News, 22 de março de 2010).

Parece, no entanto, que os protestos do mundo cristão estão dando frutos. No último domingo, o governador de Karnataka, H. R. Bhardwaj, disse estar "preocupado" com o relatório, que "provocou a ira de toda a comunidade cristã, porque não se fez justiça" (DNA, 6 de fevereiro). O governador suspendeu temporariamente um reconhecimento "ad honorem" ao escritor M. Chidananda Murthy, porque se suspeita que ele tenha apoiado o relatório de Somasekhara.