Itália: Pela ignomínia das mulheres crucificadas"

Sexta-feira 21 de março, uma " Via Crucis" em Roma para sensibilizar a opinião pública sobre a exploração sexual, um mercado alimentado na Itália por 9 milhões de homens

Roma, (Zenit.org) Federico Cenci | 420 visitas

Cada província da Itália tem o seu "Via Crucis", que serpenteia ao longo das estradas todos os dias do ano. As suas estações, à noite, são muitas vezes marcadas por fogueiras que iluminam corpos seminus. Causam escândalo, como todos os "Via Crucis" da história. Mas, assim como todos os "Via Crucis" da história, se alimentam da negligência e da cumplicidade.

Entre tanta indiferença, aparece às vezes alguma "Verônica" pronta para quebrar esta redoma de escândalo silencioso. Como o inquieto sacerdote da Romanha, Pe. Oreste Benzi, que com a sua "Comunidade João XXIII" sempre se esforçou para ajudar os últimos, os marginalizados. A sua forma de atuar direta e imediata, o levava a procurar as prostitutas nas calçadas, a dizer-lhes uma palavra de conforto, de afeto, até tirá-las daquela vida miserável à qual são forçadas pelos seus captores.

O seu compromisso tem tirado da escravidão da prostituição cerca de 9.000 jovens. Pe. Orestes morreu em 2007, mas seu testemunho foi conservado pela comunidade que ele fundou. Para o próximo 21 de março, sexta-feira da Quaresma, a “Comunidade João XXIII” organizou um “Via Crucis” que passará no coração de Roma dedicado às “mulheres crucificadas”. Começará às 20hs na praça Santos Apóstolos e terminará com um oratório sacro junto à Igreja de Santa Maria em Transpontina, a poucos passos de São Pedro.

"É assim - explicou a Zenit Pe. Aldo Buonaiuto, da "Comunidade João XXIII" - que queremos destacar a condição de todas as mulheres, das quais 40% são menores de idade, exploradas e utilizadas por mais de 9 milhões de homens pelas ruas da Itália, nas boates e nos apartamentos”. Trata-se de um “Via Crucis” de solidariedade, “que tem como objetivo unir não somente os crentes – é o desejo do Pe. Aldo – mas todos aqueles que acreditam na dignidade da pessoa e que nunca se deixarão levar pela escravidão e pela compra-venda do corpo humano”.

Será uma maneira de continuar e de enfatizar o compromisso que Pe. Benzi começou na sua Rimini, que era – diz Pe. Aldo – “uma espécie de capital do turismo sexual”. É ao longo da costa romanhola que ele descobriu o horror da escravidão. Horror testemunhado pela imagem daquelas “jovenzinhas que na frente de um padre com batina choravam e contavam a própria vida vivida em um sistema perverso e criminoso”, explica Pe. Aldo. "Espancamentos, torturas, extorsões, violências de cafetões e clientes", são estas as realidades que Pe. Oreste levou a sério.

Hoje, a obra do Padre Oreste continua, graças ao “voluntariado da unidade de rua” da “Comunidade João XXIII”, “em todo o território nacional e em outros 40 países no mundo”, explica Pe. Aldo. Trabalho que visa "sensibilizar as consciências, dar abrigo àquelas jovens que escapam de uma condição de escravidão e a oferecer-lhes uma oportunidade de integração social”.

Para conter o dramático estilicídio da exploração da prostituição, é também necessário ações concretas das instituições. A “Comunidade João XXIII” pede que, como narra Pe. Aldo, “o governo italiano aplique integralmente a diretiva europeia que prevê o reforço das políticas de prevenção do tráfico de seres humanos". Políticas que passam por "medidas que desestimulam a procura de todas as formas de exploração".

É justo isso o que pedia, já nos anos 90, Pe. Benzi, “quando afirmava que este mercado se vence atacando a procura, ou seja, punindo o cliente”, explica Pe. Aldo. “Hoje – continua o padre – esta diretiva europeia é chamada de ‘modelo nórdico’, eu na Itália, chamaria de ‘método padre Benzi’, porque se baseia na intuição que Pe. Oreste teve anos atrás”.

Pe. Aldo lembra que no ano 2000 Pe. Benzi apresentou um projeto de lei de iniciativa popular que visava justamente desencorajar a procura. "Em vez de falar ignominiosamente de legalização, ou seja, de fazer da mercantilização da pessoa uma atividade laboral para inchar os cofres do Estado – denuncia Pe. Aldo -, nós pedimos que seja defendida e tutelada sempre a pessoa”. Além disso, continua Pe. Aldo, “é preciso fazer entender que as relações humanas se conquistam, não se compram”. Na Rede, a “Comunidade João XXIII começou uma petição para convidar o governo italiano a dar passos concretos contra “a escravidão da prostituição”.

Este compromisso não passou despercebido ao Papa Francisco, que depois do Angelus no domingo passado deu "uma palavra" para o "Via Crucis" da próxima sexta-feira e disse, dirigindo-se aos membros da "Comunidade João XXIII” presentes na praça, um “estes são bons”.

"É o primeiro sinal do quanto estamos em sintonia com o Papa Francis - disse Pe. Aldo -, o qual sempre, com os seus modos de atuar, nos faz lembrar do nosso fundador Pe. Oreste, do qual entre outras coisas, começou há poucas semanas, o processo de beatificação”. “A sua exclamação – conclui – nos encheu de alegria e nos encorajou a seguir em frente”.

[Trad.TS]