Jejum e oração de bispo convocam sociedade brasileira a repensar rumos

Para Dom Walmor de Azevedo, conceito de progresso precisa de «séria revisão»

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Por Alexandre Ribeiro

 

BELO HORIZONTE, sexta-feira, 14 de dezembro de 2007 (ZENIT.org).- O impasse que a população brasileira vive com a questão da transposição do Rio São Francisco ultrapassa a atitude de Dom Luiz Flávio Cappio e desafia a sociedade a repensar seus caminhos e seus rumos.

Assim se manifestou o arcebispo de Belo Horizonte (Minas Gerais, sudeste do Brasil), Dom Walmor Oliveira de Azevedo, esta sexta-feira, em artigo difundido aos fiéis por sua arquidiocese.

O bispo Cappio, da diocese de Barra (Bahia, nordeste do país), entrou hoje no 18º dia de greve de fome contra o projeto de transposição do chamado Rio da integração nacional, que faz ligação do Sudeste e do Centro-Oeste com o Nordeste do país.

Entre as razões de seu protesto, Dom Cappio aponta a imposição do projeto, a não-democratização do acesso à água – que estaria concentrada nas mãos de poucos e grandes produtores –, os graves impactos ambientais, prejuízos a populações ribeirinhas, indígenas, o estado de deterioração do rio, entre outras.

Ao discutir o assunto em seu artigo, Dom Walmor de Azevedo afirma que esta realidade convoca «todos para um maior conhecimento e um corajoso posicionamento a respeito».

Segundo o arcebispo, que é presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Doutrina da Fé da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), há «no coração de pastor» de Dom Frei Luiz Cappio, «na sua oração e jejum, uma iluminação advinda» de Cristo Jesus, «aquele que vem ao encontro da humanidade, preferindo os mais pobres».

«É uma iluminação muito diferente, desconcertante. A iluminação desta presença cria uma coragem diferente. Faz ter coragem de compreender a própria vida como oferta. Esta iluminação está remetendo, neste momento, toda a sociedade brasileira a um confronto.»

«Este confronto é muito incômodo», reconhece o arcebispo. «Não há uma formulação única capaz de abarcar o entendimento da situação e permitir que todos se repousem numa condição confortável, em se tratando do contestado projeto de transposição do Rio São Francisco, precisado, na verdade, de consistente revitalização, com investimentos muito mais significativos».

«Um projeto, a revitalização, que salvará o Rio e não deixará os pobres sem água, operacionalizando propostas alternativas já estudadas e conhecidas para os habitantes do semi-árido nordestino.»

Segundo o arcebispo de Belo Horizonte, «estas alternativas como resposta reforçam e comprovam o quanto é plausível a condenação do projeto da transposição, salvando o rio com sua revitalização e garantindo a milhões de pessoas o dom da água».

«Deixará de fora as facilidades e favorecimentos ao agro-negócio e um desenvolvimento que a todo custo chega e não garante participação dos que precisam mais», afirma.

De acordo com Dom Walmor de Azevedo, o contexto global de toda essa discussão «revela questões e raízes mais fundas».

Esse contexto explicita «as incompetências nos entendimentos, pensando o mundo da política; os interesses egoístas, pensando os interessados na transposição; as arbitrariedades, tendo em conta as legalidades a serem garantidas pelas cortes de justiça; e o conceito de progresso que exige deste tempo moderno uma séria revisão».

«A solução deste desafio não é apenas um entendimento político simples. Não é só uma questão de honra para este ou aquele lado. A sociedade brasileira, neste caso e noutros, está sendo desafiada a repensar seus caminhos e seus rumos», destaca.

Assim – prossegue o arcebispo –, «este cenário preocupante na sociedade brasileira tem raízes e desafios mais profundos».

«Dom Cappio é sinal de que está iluminado por uma outra estrela-guia, Cristo Jesus. Só Ela pode configurar melhor as estrelas-guia da razão, da liberdade e do progresso. Este sinal é convite inteligente para parar as obras e pensar», afirma.