«Jesus começou a pregar»: 1ª meditação da Quaresma ao Papa e à Cúria

Do Pe. Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap.

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CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008 (ZENIT.org).- «A Palavra de Deus é viva e eficaz» (Hebreus 4, 12) é o tema as meditações que Bento XVI seus colaboradores da Cúria acompanham nesta Quaresma, através do pregador da Casa Pontifícia – o Pe. Raniero Cantalamessa O.F.M. Cap. A primeira delas, nesta sexta-feira, teve por título «Jesus começou a pregar – A Palavra de Deus na vida de Cristo». Oferecemos seu conteúdo na íntegra.

 

 

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Quaresma 2008 na Casa Pontifícia

Primeira Pregação

«JESUS COMEÇOU A PREGAR»

A Palavra de Deus na vida de Cristo

À vista do Sínodo do próximo mês de outubro, pensei emdedicar a pregação quaresmal deste ano ao tema da Palavra de Deus. Meditaremos sucessivamente sobre o anúncio do evangelho na vida de Cristo, isto é, sobre o Jesus «que prega», sobre o anúncio na missão da Igreja, ou seja, sobre o Cristo «pregador», sobre a Palavra de Deus como meio de santificação pessoal, a lectio divina, e sobre a relação entre o Espírito e a Palavra, na prática, a leitura espiritual da Bíblia.

Começamos esta pregação no dia em que a Igreja celebra a festividade da Cátedra de São Pedro, e isso não carece de significado em nosso tema. Oferece-nos, antes de mais nada, a ocasião de prestar a homenagem de nosso afeto e devoção a quem ocupa hoje a sede petrina, o Santo Padre Bento XVI. Recorda-nos também aquilo que o próprio apóstolo Pedro escreve em sua 2ª Carta, isto é, que «nenhuma profecia da Escritura pode interpretar-se por conta própria» (2 Pd 1, 20) e que por isso toda interpretação da Palavra de Deus deve mensurar-se com a tradição viva da Igreja, cuja interpretação autêntica está confiada ao magistério apostólico e, de maneira singular, ao magistério petrino.

É belo, em uma circunstância como esta e no contexto do atual diálogo ecumênico, recordar um conhecido texto de Santo Irineu: «Dado que seria muito extenso enumerar as sucessões de todas as Igrejas, tomaremos a Igreja grandiosa e antiga e de todas conhecida, a Igreja fundada e estabelecida em Roma pelos gloriosos apóstolos Pedro e Paulo. (...) Com esta Igreja, em razão de sua origem mais excelente (propter potentiorem principalitatem), deve necessariamente estar de acordo toda Igreja, isto é, os fiéis que procedem de toda parte – aquela na qual para todos os homens sempre se conservou a Tradição que vem dos apóstolos» [1].

Com este espírito, não sem temor e tremor, eu me preparo para apresentar minhas reflexões sobre o tema vital da Palavra de Deus, em presença do sucessor de Pedro, bispo da Igreja de Roma.

1. A pregação na vida de Jesus

Depois do relato do batismo de Jesus, o evangelista Marcos prossegue sua narração dizendo: «Jesus foi para a Galiléia e proclamava o Evangelho de Deus: ‘O tempo se cumpriu e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede no Evangelho’» (Mc 1, 14 s.). Mateus escreve mais brevemente: «Desde então, Jesus começou a pregar e a dizer: ‘Convertei-vos, porque o Reino dos Céus chegou’» (Mt 4, 7). Com estas palavras começa o «Evangelho», entendido como a boa notícia «de» Jesus – isto é, trazida por Jesus e da qual Ele é o sujeito –, diferente da boa notícia «sobre» Jesus, da sucessiva pregação apostólica, na qual Jesus é o objeto.

Trata-se de um evento que ocupa um lugar bem preciso no tempo e no espaço: acontece «na Galiléia», «depois de que João foi preso». O verbo empregado pelos evangelistas, «começou a pregar», destaca fortemente que se trata de um «início», de algo novo, não só na vida de Jesus, mas na própria história da salvação. A Carta aos Hebreus expressa assim a novidade: «Muitas vezes e de muitos modos Deus falou no passado a nossos pais por meio dos Profetas; nestes últimos tempos, ele nos falou por meio do Filho» (Hb 1,1-2). Começa um tempo particular de salvação, um kairos novo, que se estende durante cerca de dois anos e meio (desde o outono do ano 27 até a primavera do ano 30 d.C.).

Jesus atribuía tanta importância a esta atividade, que chegou a dizer que havia sido enviado pelo Pai e consagrado com a unção do Espírito precisamente para isso, ou seja, «para anunciar aos pobres a Boa Nova» (Lc 4, 18). Em uma ocasião, quando alguns queriam entretê-lo, ele pede aos apóstolos que partam, dizendo-lhes: «Vamos a outra parte, aos povos vizinhos, para que também pregue lá, pois foi para isso que eu vim» (Mc 1, 38).

A pregação faz parte dos chamados «mistérios da vida de Cristo» e é como tal que nos aproximamos dele. Com a palavra «mistério» se entende, neste contexto, um evento da vida de Jesus portador de um significado salvífico que, como tal, celebra-se pela Igreja em sua liturgia [2]. Se não existe uma festa litúrgica específica da pregação de Jesus, é porque esta se recorda em cada liturgia da Igreja. A «liturgia da Palavra» na Missa não é senão a atualização litúrgica do Jesus que prega. Um texto do Concílio Vaticano II diz: Cristo «está presente em sua palavra, pois quando se lê na Igreja a Sagrada Escritura, é Ele quem fala» [3].

Da mesma forma que na história, depois de ter pregado o Reino de Deus, Jesus foi a Jerusalém para oferecer-se em sacrifício ao Pai, na liturgia, depois de ter proclamado novamente sua palavra, Jesus renova o oferecimento de si ao Pai através da ação eucarística. Quando no final do prefácio dizemos: «Bendito o que vem em nome do Senhor: hosana nas alturas», nós nos transladamos idealmente a esse momento em que Jesus entra em Jerusalém para celebrar lá sua Páscoa; é onde termina o tempo da pregação e começa o tempo da paixão.

A pregação de Jesus é, portanto, um «mistério» porque não contém só a revelação de uma doutrina, mas explica o próprio mistério da pessoa de Cristo, e é essencial para entender tanto o precedente – o mistério da encarnação – como o seguinte: o mistério pascal. Sem a palavra de Jesus, seriam eventos mudos. Feliz intuição a de João Paulo II quando introduziu a pregação do Reino entre os «mistérios luminosos» que acrescentou aos gozosos, dolorosos e gloriosos do Rosário, junto ao batismo de Jesus, as bodas de Caná, a transfiguração e a instituição da Eucaristia.

2. A pregação de Cristo continua na Igreja

O autor da epístola aos Hebreus escrevia bastante tempo depois da morte de Jesus, portanto muito depois de que Ele tivesse deixado de falar; no entanto, diz que Deus nos falou por meio do Filho «nos últimos tempos». Assim que considera os dias em que vive como parte dos «dias de Jesus». Por isso, um pouco mais adiante, citando a palavra do Salmo «Se ouvirdes hoje sua voz, não endureçais vossos corações», a aplica aos cristãos, dizendo: «Tomai precaução, meus irmãos, para que ninguém de vós venha a perder interiormente a fé, a ponto de abandonar o Deus vivo. Antes, animai-vos mutuamente cada dia durante todo o tempo compreendido na palavra hoje» (Hb 3, 7s). Deus fala, portanto, também hoje na Igreja, e fala «por meio do Filho». «Deus -- lê-se na Dei Verbum --, que falou em outro tempo, fala sem interrupção com a Esposa de seu amado Filho; o Espírito Santo, por quem a voz do Evangelho ressoa viva na Igreja, e por ela no mundo, vai induzindo os fiéis na verdade inteira, e faz que a palavra de Cristo habite neles abundantemente» [4].

Mas como e onde podemos ouvir esta «voz sua»? A revelação divina está fechada; em certo sentido, já não há mais palavras de Deus. Mas aqui descobrimos outra afinidade entre Palavra e Eucaristia. A Eucaristia está presente em toda a história da salvação: no Antigo Testamento, como figura (o cordeiro pascal, o sacrifício de Melquisedec, o maná), no Novo Testamento, como evento (a morte e ressurreição de Cristo), na Igreja, como sacramento (a Missa). 

O sacrifício de Cristo está consumado e concluído na cruz, em certo sentido, portanto, já não há mais sacrifícios de Cristo; contudo, sabemos que existe ainda um sacrifício e é o único sacrifício da Cruz que se faz presente e operante no sacrifício eucarístico; o evento continua no sacramento, a história na liturgia. Algo análogo sucede com a palavra de Cristo: deixou de existir como evento, mas existe ainda como sacramento.

Na Bíblia, a palavra de Deus (dabar), especialmente na forma particular que assume nos profetas, constitui sempre um acontecimento; é uma palavra-evento, ou seja, uma palavra que cria uma situação que leva a cabo sempre algo novo na história. A repetida expressão: «a palavra de Javé se dirigiu a...» (em Ezequiel, em Ageu, em Zacarias etc).

Este tipo de palavra-evento se prolonga até João Batista; em Lucas, de fato, lemos: «No ano quinze do império de Tibério César..., a palavra de Deus foi dirigida a (factum est verbum Domini super) João, filho de Zacarias, no deserto» (Lc 3, 1s). Depois deste momento, tal fórmula desaparece por completo da Bíblia e em seu lugar surge outra: já não «Factum est verbum Domini», mas: «Verbum caro fac-tum est»: a Palavra se fez carne (Jo 1, 14). O evento agora é uma pessoa! Jamais se encontra a frase: «a palavra de Deus se dirigiu a Jesus», porque Ele é a Palavra. Às realizações provisórias da palavra de Deus nos profetas, sucede agora a realização plena e definitiva.

Dando-nos o Filho -- escreve São João da Cruz -- Deus nos disse tudo de uma só vez e já não tem mais a revelar. Deus se fez, de certo modo, mudo, ao não ter mais o que dizer [5]. Mas há que entender bem: Deus cala enquanto que nos diz coisas novas a respeito das que das que disse Jesus, não no sentido de que já não fala mais; Ele diz sempre de novo o que disse uma vez em Jesus!


3. A palavra sacramento que se ouve

Já não mais palavras-evento na Igreja, mas há palavras-sacramento. As palavras-sacramento são as palavras de Deus «sucedidas» de uma vez para sempre e recolhidas na Bíblia, que voltam a ser «realidade ativa» cada vez que a Igreja as proclama com autoridade e o Espírito que as inspirou volta a acendê-las no coração de quem as escuta. «Ele receberá do que é meu e vos anunciará», disse Jesus do Espírito Santo (Jo 16, 14).

Quando se fala da Palavra como «sacramento», se toma este termo não no sentido técnico e restrito dos «sete sacramentos», mas no sentido mais amplo pelo qual se fala de Cristo como o «primordial sacramento do Pai» e da Igreja como do «sacramento universal de salvação» [6]. Tendo presente a definição que Santo Agostinho dá do sacramento como «uma palavra que se vê» (verbum visibile) [7], costuma-se definir, por contraste, a palavra como «um sacramento que se ouve» (sacramentum audibilie).

Em cada sacramento se distingue um sinal visível e a realidade invisível que é a graça. A palavra que lemos na Bíblia, em si mesma, não é mais que um sinal material (como a água e o pão), um conjunto de sílabas mortas ou, como muito, uma palavra do vocabulário humano como as demais; mas quando intervém a fé e a iluminação do Espírito Santo, através deste sinal entramos misteriosamente em contato com a viva verdade e vontade de Deus, e ouvimos a própria voz de Cristo.

«O corpo de Cristo – escreve Bossuet – não está mais realmente presente no adorável sacramento do que quanto a verdade de Cristo está na pregação evangélica. No mistério da Eucaristia as espécies que vês são sinais, mas o que nelas se encerra é o próprio corpo de Cristo; na Escritura, as palavras que ouvis são sinais, mas o pensamento que vos dão é a própria verdade do Filho de Deus».

A sacramentalidade da palavra de Deus se revela no fato de que, às vezes, aquela atua manifestamente além da compreensão da pessoa, que pode ser limitada e imperfeita; obra quase por si mesma, ex opere operato, como diz em teologia

Quando o profeta Eliseu disse a Naamã, o sírio, a quem havia ido ver para que o curasse da lepra, que se lavasse sete vezes no Jordão, respondeu indignado: «Porventura os rios de Damasco, o Abama, e o Farfar, não valem maios que todas as águas de Israel? Não poderia eu lavar-me neles para ficar purificado?» (2 Reis 5, 12). Naamã tinha razão: os rios da Síria eram, sem dúvida, melhores e mais caudalosos; contudo, curou-se banhando-se no Jordão e sua carne ficou como a de uma criança, coisa que jamais haveria ocorrido se houvesse se banhado nos grandes rios de seu país.

Assim é a palavra de Deus contida nas Escrituras. Entre as pessoas e também na Igreja houve e haverá livros melhores que alguns livros da Bíblia, mais refinados literalmente e mais edificantes religiosamente (pense-se na Imitação de Cristo), mas nenhum deles opera como o faz o mais modesto dos livros inspirados.

Existe, nas palavras da Escritura, algo que age além de toda explicação humana; há uma desproporção evidente entre o sinal e a realidade que produz, coisa que permite pensar, precisamente, na eficácia dos sacramentos.

As «águas de Israel», que são as Escrituras divinamente inspiradas, continuam hoje curando a lepra dos pecados; ao terminar de ler a passagem do evangelho da Missa, a Igreja convida o ministro a beijar o livro e a dizer «Que as palavras do Evangelho perdoem nossos pecados» (per evangelica dicta deleantur nostra delicta). O poder curador da palavra de Deus é atestado na própria Escritura: «Não os curou nem erva nem ungüento – diz-se de Israel no deserto –, mas a tua palavra, Senhor, que tudo cura!» (Sb 16, 12).

A experiência confirma. Ouvi uma pessoa dar o seguinte testemunho em um programa de televisão no qual participei. Tratava-se de um alcoólatra em fase avançada; não agüentava mais de duas horas sem beber; a família estava no limite do desespero. Convidaram-no com sua esposa a um encontro sobre a palavra de Deus. Ali alguém leu uma passagem da Escritura. Uma frase o atravessou como uma labareda de fogo e sentiu que estava curado. Depois, cada vez que ficava tentado pela bebida, corria para abrir a Bíblia naquele ponto e só com o fato de reler as palavras sentia que lhe voltava a força, agora que estava totalmente recuperado. Quando quis dizer qual era a frase, perdeu a voz de emoção. Era a palavra do Cântico dos cânticos: «Teus amores são melhores que o vinho» (Ct 1, 2). Estas simples palavras, aparentemente alheias a sua situação, haviam realizado o milagre. Um episódio similar se lê no Peregrino Russo. Mas o mais célebre é o de Agostinho. Ao ler as palavras de Paulo aos Romanos (13, 11 ss.): «Despojemo-nos das obras das trevas… Como em pleno dia, procedamos com decoro: nada de orgias ou bebedeiras», sentiu uma «luz de serenidade» que assaltava seu coração e compreendeu que estava curado da escravidão da carne [8].

4. A Liturgia da Palavra

Existe um âmbito e um momento na vida da Igreja em que Jesus fala hoje da forma mais solene e mais segura, e é a liturgia da palavra na Missa. Nos inícios da Igreja, a liturgia da palavra estava separada da liturgia eucarística. Os discípulos – referem os Atos dos Apóstolos – «iam ao templo todos os dias» (Atos 2, 43); lá escutavam a leitura da Bíblia, recitavam os salmos e as orações juntos aos demais judeus; realizavam o que se faz na liturgia da palavra; depois se reuniam separadamente, em suas casas, para «partir o pão», ou seja, para celebrar a Eucaristia (Atos 2, 43).

Logo essa práxis se tornou impossível, tanto pela hostilidade com relação a eles, por parte da comunidade judaica, como porque as Escrituras já haviam adquirido para eles um sentido novo, totalmente orientado a Cristo. Foi assim como também a escuta das Escrituras se transladou do templo e da sinagoga aos lugares de culto cristãos, transformando-se na atual liturgia da palavra que precede a oração eucarística.

São Justino, no século II, faz uma descrição da celebração eucarística na qual já estão presentes todos os elementos essenciais da futura Missa. Não só a liturgia da palavra é parte integrante dela, mas às leituras do Antigo Testamento se somaram às que o santo chama de «as memórias dos apóstolos», ou os evangelhos e as cartas, na prática, o Novo Testamento.

Escutadas na liturgia, as leituras bíblicas adquirem um sentido novo e mais forte que quando se lêem em outros contextos. Não têm tanto o objetivo de conhecer melhor a Bíblia, como quando esta se lê em casa ou em uma escola bíblica, quanto o de reconhecer quem se faz presente ao partir o pão, iluminar cada vez um aspecto particular do mistério que se vai receber. Isso aparece de modo quase programático no episódio dos dois discípulos de Emaús: foi escutando a explicação das Escrituras que seu coração começou a arder, de maneira que foram capazes de reconhecer Jesus depois ao partir o pão.

Um exemplo entre muitos: as leituras do XXIX domingo do tempo comum do ciclo B. A primeira leitura é uma passagem do servo que carrega as iniqüidades do povo (Is 53, 2-11); a segunda leitura fala de Cristo, sumo sacerdote provado em tudo como nós, exceto no pecado; a passagem evangélica fala do Hino do homem que veio a dar a vida em resgate de muitos. Juntas, estas três passagens trazem à luz um aspecto fundamental do mistério que se vai celebrar e receber na liturgia eucarística.

Na Missa, as palavras e os episódios da Bíblia não só se narram, mas se revivem; a memória se converte em realidade e presença. O que aconteceu «naquele tempo», ocorre «neste tempo», «hoje» (hodie), como ama expressar-se a liturgia. Não somos só ouvintes da palavra, mas interlocutores e atores nelas. É a nós, aí presentes, a quem se dirige a palavra; estamos chamados a ocupar o lugar dos personagens evocados.

Também aqui alguns exemplos ajudam a entender. Lê-se, na primeira leitura, o episódio de Deus que fala a Moisés desde a sarça ardente: nós estamos, na Missa, ante a verdadeira sarça ardente... Lê-se de Isaías que recebeu nos lábios a brasa que o purifica para a missão: nós vamos receber nos lábios a verdadeira brasa, àquele que veio para trazer fogo à terra... Ezequiel é convidado para comer o rolo dos oráculos proféticos e nós nos preparamos para comer quem é a própria palavra feita carne e feita pão.

A questão se esclarece mais ainda se passamos do Antigo ao Novo Testamento, da primeira leitura à passagem evangélica. A mulher que sofria hemorragia está segura de curar-se só de tocar a orla do manto de Jesus: o que dizer de nós, que estamos a ponto de tocar muito mais que a borda de suas vestes? Uma vez eu escutava no evangelho o episódio de Zaqueu e me tocou sua «atualidade». O Zaqueu era eu; dirigiam-se a mim as palavras: «Hoje devo ir a sua casa»; era de mim que se podia dizer: «Foi hospedar-se na casa de um pecador!»; e era para mm, depois de recebê-lo na comunhão, a quem Jesus dizia: «Hoje a salvação entrou nesta casa».

E assim com cada episódio evangélico. Como não se identificar na Missa com o paralítico a quem Jesus diz: «Teus pecados te são perdoados» e «Levanta-te e vai pra tua casa»; com Simeão que segura entre seus braços o Menino Jesus; com Tomé que toca vacilante suas feridas? Na celebração do dia, o evangelho desta sexta-feira da segunda semana da Quaresma narra a parábola dos vinhateiros homicidas (Mt 21, 33-45): «Finalmente lhes enviou a seu filho dizendo: “A meu filho respeitarão”». Recordo o efeito destas palavras sobre mim enquanto as ouvia em uma ocasião, mais distraidamente. Esse mesmo Filho está a ponto de entregar-se na comunhão: estava eu preparado para receber-lhe com o respeito que o Pai celestial esperava?

Não só os fatos, mas também as palavras do evangelho escutadas na Missa adquirem um sentido novo e mais forte. Num dia de verão, eu estava celebrando a Missa em um pequeno mosteiro de clausura. A passagem evangélica era de Mateus, 12. Jamais esquecerei a impressão que me causaram as palavras de Jesus: «Agora aqui há alguém maior que Jonas... Agora aqui alguém maior que Salomão». Era como se as escutasse naquele momento pela primeira vez. Compreendia que estes dois advérbios, «agora» e «aqui», significavam verdadeiramente agora e aqui, ou seja, naquele momento e naquele lugar, não só no tempo em que Jesus estava na terra, há tantos séculos. Desde este dia de verão, tais palavras me são queridas e familiares de forma nova. Com freqüência, na Missa, no momento em que faço a genuflexão e me levanto depois da consagração, brota repetir, para mim mesmo: «Agora aqui há alguém maior que Jonas! Agora aqui há alguém maior que Salomão!».

«Vós que estais acostumados a tomar parte nos divinos mistérios – dizia Orígenes aos cristãos de seu tempo –, quando recebeis o corpo do Senhor o conservais com todo cuidado e toda veneração para que nem uma partícula caia no chão, para que nada se perca do dom consagrado. Estais convencidos, justamente, de que é uma culpa deixar cair seus fragmentos por descuido. Se por conservar seu corpo sois tão cautos – e é justo que o sejais –, sabei que descuidar da palavra de Deus não é culpa menor que descuidar de seu corpo.» [9]

Entre as muitas palavras de Deus que ouvimos cada dia na Missa ou na Liturgia das Horas, há quase sempre uma destinada em particular a nós. Por si só pode encher toda nossa jornada e iluminar nossa oração. Trata-se de não deixá-la cair no vazio. Diversas esculturas e obras do antigo Oriente mostram o escriba em ato de recolher a voz do soberano que dita ou fala; ele está totalmente atento; pernas cruzadas, tronco erguido, olhos bem abertos, ouvido atento. É a atitude que em Isaías se atribui ao Servo do Senhor: «Cada manhã desperta meu ouvido para escutar como os discípulos» (Is 50, 4). Assim deveríamos ser nós quando se proclama a palavra de Deus.

Acolhamos, portanto, como dirigida a nós, a exortação que se lê no Prólogo da Regra de São Bento [10]: «Abertos nossos olhos à luz divina, escutemos com ouvido atento e cheio de estupor a voz divina que cada dia nos é dirigida e grita: Se escutardess hoje sua voz, não endureçais vosso coração (Sal 94, 8), e também: Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas» [v. Ap 2 e 3. N. do T.]

[Tradução: Élison Santos, Alexandre Ribeiro e José Caetano. Revisão: Aline Banchieri]

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[1]  Santo Irineu, Adv. Haer. III, 2.

[2] Cf. Santo Agostinho, Lettere, 55, 1,2.

[3] Sacrosanctum concilium 7.

[4] Dei Verbum, 8.

[5] Cf. S. Giovanni della Croce, Salita al monte Carmelo II, 22, 4-5.

[6] Cf. Lumen Gentium, 48.

[7] S. Agostino, Trattati sul vangelo di Giovanni, 80,3;

[8] S. Agostino, Confessioni, VIII,12.

[9] Origene, In Exod. hom. XIII, 3.

[10] Regole monastiche d'occidente, Qiqajon, Comunità di Bose, 1989, p. 53.