Jesus não é uma mera estrada do dever

A livre interpretação da tradição

Brasília, (Zenit.org) Edmar Araújo | 1046 visitas

Numa tarde agradável de sábado, a falar sobre experiências na Igreja Católica, estávamos eu e um velho amigo que há muito não via. Nossas dores, nossos amores e nossas vidas dedicadas à evangelização, todas resumidas em palavras naquela mesa da praça de alimentação de determinado shopping center, permitiram que fossemos mais crentes em Deus, na sua misericórdia que a todos alcança e na Igreja de Cristo, a detentora das chaves do Reino dos Céus. (Mt 16,19)

Ao falarmos sobre problemas no clero, lembrei-me de uma colocação sobre a defesa da fé católica a todo e qualquer custo. Não nos causaria nenhum estranhamento qualquer posicionamento favorável a Igreja já que somos católicos. O que nos incomodou foi a impressão que tivemos sobre o espírito tradicionalista de auto-proclamação que tem causado, até o momento ainda incontáveis, dúvidas sobre o atual papado de Francisco. Foi quando falei que determinados setores da Igreja, a exemplo das teses protestantes que moldaram a livre interpretação das escrituras, realizam a livre interpretação da tradição católica.

Ao iniciar a redação dessa breve reflexão, recordei onde havia lido sobre a idéia de livre interpretação da tradição. Foi no texto “Bonecas Russas”, de Gustavo Nogy, que atribui a autoria da tese de livre interpretação da tradição a um amigo, Rodrigo Pedroso. O post, publicado no site Ad Hominem, talvez traduza parte das inquietações partilhadas entre mim e o velho amigo.

Esses, que se intitulam tradicionalistas defensores da verdadeira fé católica, não se encontram nas paróquias. Preferem ir à uma igreja onde o novo rito da missa não tenha sido acatado para, em nome da tradição, participarem do rito tridentino. Esses abominam o Concílio Vaticano II talvez sem dar-se conta que é este Concílio parte da grande história da Igreja.

À luz das recentes palavras do papa Francisco, esses “cristãos são mornos, sem coragem” e "fazem tanto mal para a Igreja". Preferem criticar os evangelizadores a evangelizá-los e econrajá-los. Preferem criticar a celebração e o celebrante a enaltecer a presença do celebrado. Abdicaram do coração e fecharam-se em suas mentes. O Sumo Pontífice alertou sobre esta estrada inviável chamada moralismo. “Mesmo quem insiste em ver em Jesus uma mera ‘estrada do dever’, de fato, cai na armadilha da pretensão de compreender tudo somente ‘com a cabeça’. Quem tem uma atitude assim carrega tudo ‘sobre os ombros dos fieis’.

O Espírito Santo, afirma o Papa, não quer modernizar a Igreja, mas atualizar o coração do homem e da mulher hodiernos. E essa atualização é um grande incomodo para os que ainda não se tornaram dóceis à sua santa ação. “O Espírito Santo nos incomoda. Porque mexe conosco, nos faz caminhar, empurra a Igreja para frente. (...) e pior: há pessoas que querem andar para trás. Isso é que se chama ser teimoso, isso se chama querer domesticar o Espírito Santo, isso se chama tornar-se tardos e lentos de coração”.

Creio que nossa inquietude demore um pouco mais para terminar. Enquanto ela não passa, continuamos eu e o bom amigo nossa militância rumo a Cristo, sem nunca esquecer que o caminho se faz caminhando. Duvidosos, mas esperançosos. Sofrendo, mas felizes. Cansados, mas em movimento.

http://www.adhominem.com.br/2013/03/bonecas-russas.html

Edmar Araújo é jornalista e criador do Blog Medidas de Fé. Foi um dos 150 blogueiros convidados para o Vatican Blog Meeting, encontro internacional de blogueiros patrocinado pelo Conselho Pontifício para a Cultura e pelo Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais do Vaticano, ocorrido em maio de 2011