Joseph Ratzinger fala sobre Karol Wojtyla

Entrevista com o Papa Emérito no livro "Ao lado de João Paulo II - Amigos e Colaboradores falam", por Wlodzimierz Redzioch

Roma, (Zenit.org) Antonio Gaspari | 929 visitas

"Que João Paulo II era um santo, durante os anos de colaboração com ele, se tornava cada vez mais e mais claro para mim. (...) Se doou com uma radicalidade que não pode ser explicado de outro modo. (...) Seu empenho era incansável, e não apenas nas grandes viagens, cujos programas eram cheios de eventos do início ao fim, mas também no dia a dia, desde a missa matutina até tarde da noite “.

Quem narra é Joseph Ratzinger, o Papa emérito Bento XVI. Ele falou em entrevista exclusiva a Wlodzimierz Redzioch para o seu livro "Ao lado de João Paulo - Amigos e Colaboradores falam” (Editora Ares).

Sobre o primeiro encontro entre ele e o Beato polonês, Papa Bento revela: "O primeiro encontro com o Cardeal Wojtyla ocorreu no conclave em que foi eleito Papa João Paulo I. Durante o Concílio, nós colaboramos na Constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo, ainda que, em seções diferentes, de modo que não nos encontrávamos". "Wojtyla - acrescenta - havia lido minha Introdução ao Cristianismo, e também citado durante os Exercícios Espirituais pregados por ele a Paulo VI e à Cúria na Quaresma de 1976. Portanto, é como se interiormente estivéssemos à espera do encontro”. Desde o início despertou em mim uma grande admiração e uma cordial simpatia pelo Metropolita de Cracóvia. No pré- conclave de 1978, ele fez para nós uma análise estupenda sobre a natureza do Marxismo. Mas, sobretudo, eu percebi imediatamente o fascínio humano que ele emanava, de como ele rezava, eu percebi o quanto ele era profundamente unido a Deus."

Sobre o relacionamento com João Paulo II, Ratzinger explica na entrevista que "a colaboração com o Santo Padre foi caracterizada pela amizade e afeto. Esta se desenvolveu, sobretudo, em dois níveis: o oficial e o privado (...) Sobre os problemas teológicos, conversávamos sempre de maneira frutuosa". "Além disso - diz ele - era de costume convidar para o almoço bispos em visitas ad limina, bem como grupos de bispos e sacerdotes diversos, dependendo das circunstâncias. (...) o grande número de presentes tornava a conversa diversa e abrangente. E havia sempre espaço para o bom humor. Ele ria com facilidade e assim, os almoços, mesmo na seriedade conferida ao momento, na verdade, eram também oportunidade para estar em agradável companhia.

Acima de tudo, foi a espiritualidade de João Paulo II que impressionou Ratzinger: "A espiritualidade do Papa foi caracterizada principalmente pela intensidade das suas orações, profundamente enraizada na celebração da Santa Eucaristia e realizada juntamente com toda a Igreja, com a recitação do breviário. (...) Sua devoção não poderia ser puramente individual, era também cheia de solicitude para com a Igreja e para com os homens (...) todos nós sabemos do seu grande amor pela Mãe de Deus. Doar-se totalmente a Maria significava ser, com ela, totalmente do Senhor."

De acordo com o Papa emérito, neste contexto deve ser compreendida a santidade de João Paulo II: "Somente a partir da sua relação com Deus é possível compreender o seu incansável empenho pastoral.”

Bento XVI contou ainda que, durante a primeira visita de João Paulo II à Alemanha "pela primeira vez, eu tive uma experiência muito concreta deste empenho enorme”. "Durante sua estadia em Mônaco da Baviera - diz ele - decidiu que tinha que dar uma pausa maior ao meio-dia. Durante esse intervalo, ele me chamou em seu quarto. Encontrei-o a rezar o breviário e disse: ‘Santo Padre, o senhor deveria descansar', e ele disse: ‘Eu posso fazer isso no Céu’. Somente quem está profundamente empenhado com a urgência de sua missão pode agir assim”.

Na entrevista, Ratzinger lista os desafios doutrinários enfrentados juntos: sobre a Teologia da Libertação, o ecumenismo e a tarefa da Teologia na era contemporânea. Ele analisa e destaca a importância das duas encíclicas "Redemptoris Missio" e "Fides et Ratio".

Em conclusão, Bento XVI escreve: "Minha recordação de João Paulo II é repleta de gratidão. Eu não podia e não deveria tentar imitá-lo, mas eu tentei levar adiante o seu legado e o seu trabalho, da melhor maneira que pude. E assim, tenho certeza de que ainda hoje a sua bondade me acompanha e a sua bênção me protege."

(Trad.:MEM)