Juntar as peças de uma fé perdida

Este é o objetivo da visita do papa Francisco ao Santuário de Aparecida

Rio de Janeiro, (Zenit.org) Alfonso M. Bruno | 407 visitas

O papa Francisco quis complementar a sua viagem apostólica ao Brasil com uma visita ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.

Trata-se de uma valorização da reunião profética e programática do episcopado latino em 2007, mas, principalmente, de mais uma demonstração da devoção mariana convicta que vem acompanhando as longas e ágeis passadas do papa Bergoglio. Já no dia seguinte à sua eleição, ele surpreendeu e foi aplaudido pelo gesto de piedade mariana que o levou como peregrino à basílica de Santa Maria Maior.

O papa repete o gesto na véspera da Jornada Mundial da Juventude. Ele quer confiar à intercessão da Virgem Maria o sucesso espiritual do evento e todos os seus participantes.

No santuário de Nossa Senhora Aparecida, Maria é venerada através da imagem da Imaculada Conceição, representada grávida, tal como Nossa Senhora de Guadalupe. Não se trata apenas de uma homenagem à virgindade de Maria, mas também à atitude dela para com todo o povo das Américas: ela se apresenta como Esposa.

Se considerarmos a história da cristianização do continente americano, perceberemos que foi basicamente um “conúbio”, influenciado pela função materna de Nossa Senhora. Não estamos aludindo aqui às muitas formas de sincretismo religioso que identificam Maria com os antigos deuses, símbolos da fertilidade feminina. Remontamos, mais precisamente, a um acontecimento histórico, ao fato de que a evangelização das Américas gerou, inclusive em sentido físico, a maioria dos cristãos.

O papa visitará o local em que aconteceu esse “conúbio”, com seu olhar voltado especialmente para o futuro, graças aos jovens.

É pela alta porcentagem de pessoas com menos de 30 anos de idade que a América do Sul é chamada de "Continente da Esperança". Embora preserve a primazia mundial no número absoluto de católicos batizados, o Brasil sofreu nas últimas décadas um proselitismo agressivo das seitas evangélicas, que criaram uma transumância religiosa significativa. As estatísticas mais recentes dizem que muitos batizados já não se consideram católicos, mas, depois de verem descumpridas as promessas de saúde e prosperidade ventiladas pelos artifícios retóricos das seitas protestantes, muitos voltam para a Igreja católica, testemunhando que o que mais lhes faltou quando estiveram fora do catolicismo foi precisamente a presença da Virgem Maria.

A história de Nossa Senhora Aparecida, que é representada por uma imagem de terracota adornada com uma coroa de ouro e um manto azul, começa com a passagem de Pedro Almeida, governador da capitania de São Paulo, pela cidade de Guaratinguetá.

Os moradores queriam homenageá-lo com um banquete luxuoso. Embora não fosse época de pesca farta, homens generosos se lançaram ao rio Paraíba em busca de peixes.

Os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso rezaram a Maria pedindo uma pesca frutífera para homenagear o ilustre visitante. Sem pegarem nada, porém, eles foram acompanhando o curso do rio até o porto de Itaguaçu. Iam finalmente desistir quando João Alves lançou a rede pela última vez e, no lugar dos peixes, pescou uma estátua da Imaculada, sem a cabeça. Ao relançar as redes, grande surpresa: ele recuperou de primeira a cabeça da mesma estátua. Logo a seguir, pescaram tanto que quase afundaram.

Este é o primeiro milagre atribuído a Nossa Senhora Aparecida, cujo nome deriva do próprio fato de ter “aparecido” nas águas.

Aquela descoberta e a pesca milagrosa se espalharam rápido pela região, atraindo multidões em busca de graças. Na casa do próprio Felipe Pedroso foi improvisado um oratório público, mas a grande afluência os obrigou a construir uma capela. Em 1834, a atual “basílica velha” começou a ser levantada, ficando pronta apenas em 1888.

Dentre os primeiros milagres acontecidos por intermédio da devoção a Nossa Senhora de Aparecida, que foram reconhecidos pelas autoridades eclesiásticas, os mais importantes são:
- o apagar-se e reacender-se, repetidas vezes, das velas que iluminavam a imagem de Maria;
- o romper-se dos grilhões do escravo Zacarias, que pedira ao seu “dono” autorização para rezar diante da imagem;
- a recuperação da visão de uma menina cega, que, ao se aproximar de Aparecida, gritou para a mãe: “Que linda aquela igreja!”.

Maria, como proclama o documento final da conferência de Aparecida, é a grande missionária que continua a missão do Filho e que forma todos os outros missionários.

A proposta dos padres sinodais em Aparecida, que teve no então cardeal Jorge Bergoglio um ativo interlocutor, foi a visão mariana de uma Igreja Mãe a exemplo da Virgem Maria, e não apenas de uma instituição burocrática.

O projeto de uma Igreja modelado a partir do exemplo de Maria, como "casa e escola de comunhão", é, sem dúvida, o que Francisco procurará realizar através dos jovens, ricos em vitalidade e generosidade, mas muitas vezes incompreendidos e abandonados à sua própria sorte.