Laicidade justa não esvazia os valores de uma nação

Explicação do cardeal Peter Erdö, presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa

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RIMINI, quinta-feira, 26 de agosto de 2010 (ZENIT.org) - Neste momento em que muitos países do mundo propõem a laicidade como modelo nas relações Igreja-Estado, renunciando a formas precedentes, quais são os valores que podem unir as sociedades?

Esta é a pergunta que foi respondida pelo cardeal Peter Erdo, presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) e primaz da Hungria, em artigo no contexto do "Meeting" de Comunhão e Liberação, que acontece em Rimini. 

Depois de deixar claro que a Igreja defende o conceito de laicidade justa, o arcebispo de Esztergom-Budapeste explica que "a visão de mundo e do ser humano não deve ser obra dos Estados, nem das autoridades políticas".

Uma chave: subsidiariedade

"Seguindo uma justa subsidiariedade, a visão de mundo constitui um fato pessoal, mas também comunitário, transmitido e compartilhado por outras pessoas, por diferentes grupos ou também por toda a sociedade", destaca o arcebispo de 58 anos de idade, um dos maiores especialistas em Direito Canônico da história da Hungria.

"As comunidades religiosas transmitem de forma eminente a visão comunitária do mundo - segue explicando o purpurado -. Portanto, a laicidade justa do Estado significa precisamente que as autoridades estatais e políticas, assim como as internacionais ou continentais, não podem definir a visão de mundo dos cidadãos, mas que devem fazer referência aos elementos fundamentais destes valores da sociedade, no marco de uma clara subsidiariedade."

O denominador comum

Mas em virtude desta visão de mundo, "é possível chegar a um denominador comum que possa oferecer o mínimo necessário para a convivência e a colaboração das pessoas e dos povos?", pergunta-se Erdo.

"Segundo a convicção cristã, todos os homens podem conhecer as verdades essenciais sobre Deus por meio da realidade concreta - responde -. Acreditamos portanto na força cognoscitiva humana incluída nos princípios fundamentais da vida."

"Esta é também a base da moral revelada - acrescenta -. A graça, também neste âmbito, pressupõe a natureza. A condição de uma sintonia sobre os princípios fundamentais da moralidade nos diferentes Estados é, portanto, o conhecimento ou o reconhecimento - aberto ao progresso da pesquisa e do raciocínio - da plena realidade das coisas objetivamente existentes."

"A verdade, portanto, nos liberta também na vida social - continua explicado o cardeal húngaro -. Assim, se forma a possibilidade de um equilíbrio entre a ‘justa' laicidade do Estado, baseada na subsidariedade, nas questões de visão de mundo, e a possibilidade de um amplo consenso sobre os princípios fundamentais."

"Precisamente esta busca de equilíbrio pode ser uma tarefa histórica da Europa, multicultural", sugere o cardeal.

Nova Evangelização

"Neste contexto, os cristãos do continente, que há vinte anos reencontraram muitos valores da própria unidade, estão convidados a dar testemunho da plena verdade de Cristo, da esperança que quer se abrir a todos e que convida todos para uma reflexão comum", afirma.

"Nova evangelização, portanto, no contexto da pluralidade, do respeito mútuo, e sobretudo da abertura ecumênica, que deve fazer mais forte a voz do Evangelho com o testemunho comum e que deve ser uma escola de diálogo que nos prepara também para o diálogo com as demais religiões, e com os não-crentes no espírito da caridade e da verdade", conclui.