Levantada a expulsão de dom Michele Russo

Termina a controvérsia com o bispo italiano expulso do país por denunciar desvio de receitas petrolíferas

Roma, (Zenit.org) | 1023 visitas

Dom Michele Russo pode voltar ao Chade e retomar o ministério apostólico na diocese de Doba. Um comunicado oficial confirma a notícia que já estava circulando no Vaticano havia alguns dias.

O caso foi resolvido graças principalmente à ação eficiente e ininterrupta da diplomacia da Santa Sé.
Dom Russo tinha sido intimado a deixar o país africano em 14 de outubro, depois de servir como missionário no Chade durante quase trinta anos.

O motivo da expulsão teriam sido as críticas à gestão das receitas petrolíferas, feitas pelo bispo na rádio diocesana La Voix du Paysan (A Voz do Agricultor), primeira estação livre do país, confiada por dom Russo em 2010 aos Frades Franciscanos da Imaculada Conceição, sob a direção do pe. Clemente M. Bonou. A mesma estação, uma das poucas que se preocupa com o desenvolvimento integral da população, foi suspensa pelo Conselho Superior de Comunicações.

As alegações do bispo, contestadas pelo governo do Chade, teriam sido pronunciadas durante uma homilia traduzida para o idioma gambay e transmitida pela rádio.

"Foi um mal-entendido criado pela tradução da minha homilia. O radialista ressaltou com expressões idiomáticas da cultura local uma situação bem conhecida de injustiça. Não foi a primeira vez que eu usei os mesmos termos, que desta vez foram ‘dramatizados’ por uma tradução equivocada, para denunciar a situação, impulsionado pelo evangelho e pela doutrina da Igreja, sensível às necessidades do rebanho de almas que me foram confiadas. Isso revela, de qualquer modo, uma indiferença real e preocupante das pessoas comuns", disse dom Russo, que se manteve em contato, na Itália, com o pe. Alfonso Bruno, porta-voz dos Franciscanos da Imaculada, consequentemente envolvidos no caso.

Os religiosos de Doba contribuíram para manter a calma entre os fieis, apesar de um sentimento generalizado de indignação e revolta. Esta atitude contrasta com a declaração do Conselho Superior de Comunicações do Chade, que acusava o sermão transmitido pela rádio de "minar a ordem pública de propósito".

O Chade se tornou um país produtor de petróleo em 2003, graças à exploração de jazidas descobertas em Doba e do oleoduto que atravessa Camarões para abastecer navios petroleiros no Golfo da Guiné. O Banco Mundial, que financiou em grande parte o projeto, impôs a condição de que as receitas do petróleo fossem usadas​​ exclusivamente para a redução da pobreza no país.

No entanto, o presidente muçulmano Deby Idriss, no poder desde 1990 e reeleito entre fortes contestações em 2006 e em 2011, preferiu investir em armas, especialmente depois de uma rebelião liderada por seu próprio grupo étnico, que o acusou de peculato e nepotismo. A rebelião, reprimida com a ajuda de tropas francesas, gerou ondas de refugiados para os países vizinhos. O drama não impediu que a Exxon, a Elf, o Banco Mundial e a China se calassem perante a ditadura para conseguirem dobrar a extração de petróleo, depois da ameaça de fechamento de poços e da retirada das concessões do governo.

Ex-colônia francesa, independente desde 1960, o Chade tem população de maioria muçulmana (53,10%, principalmente no norte do país), seguida por cristãos (35%) e animistas (10%), ambos concentrados mais no centro-sul, e ateus (2,90%). As maiores igrejas cristãs são a católica, as assembleias cristãs do Chade, a batista e a evangélica do Chade.