Liberais e conservadores sofrem do mesmo mal

Entrevista com o cardeal Kurt Koch, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos

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Jan Bentz

CIDADE DO VATICANO, terça-feira, 30 de outubro de 2012 (ZENIT.org) - Na XIII Congregação Geral do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização, ZENIT conversou com o cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção dos Cristãos.

Eminência, o senhor já participou de outros sínodos? Quais são as suas impressões do sínodo em andamento?

Cardeal Kurt Koch: Eu já estou no meu quarto sínodo. Participei de dois como bispo de Basileia, no sínodo extraordinário sobre a Europa, e depois no sínodo sobre a Palavra de Deus, em 2008. No meu novo trabalho, participei do sínodo sobre o Oriente Médio e agora no da Nova Evangelização. No fim, o padrão é sempre o mesmo, mas o sínodo mundial dos bispos é particularmente interessante, justamente por ter representantes de todo o mundo. Aproveitar as experiências de todos os bispos é algo extraordinário, experimentar o quanto a Igreja pelo mundo é diferente e, ao mesmo tempo, tem problemas tão semelhantes.

O senhor é presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. O diálogo com os protestantes é muito importante na Alemanha. Na sua opinião, que progressos têm sido feitos na Alemanha e o que esperar de concreto do sínodo?

Cardeal Kurt Koch: A declaração conjunta sobre a doutrina da justificação, assinada em Augusta, em 1999, foi um grande passo à frente no diálogo ecumênico com os luteranos. Resta agora a tarefa de discutir o eclesiológico desta declaração conjunta. É claro que os evangélicos têm um entendimento diferente da Igreja em relação aos cristãos católicos. Não basta simplesmente reconhecer uns aos outros como Igreja. Precisamos de muito diálogo teológico sério sobre o que constitui a essência da Igreja.

Para os cristãos evangélicos poderia haver uma solução semelhante à Anglicanorum coetibus, que foi dedicada aos anglicanos?

Cardeal Kurt Koch: A Anglicanorum Coetibus não foi uma iniciativa de Roma, e sim da Igreja Anglicana. O Santo Padre procurou uma solução e, na minha opinião, encontrou uma solução bem ampla, que levou em consideração, amplamente, as tradições eclesiais e litúrgicas dos anglicanos. Se os luteranos manifestarem desejos parecidos, então teremos que refletir sobre isso. Mas a iniciativa cabe aos luteranos.

Ouvimos durante o sínodo os representantes das Igrejas Ortodoxas. O que se vislumbra para o diálogo com os ortodoxos num futuro próximo?

Cardeal Kurt Koch: Os ortodoxos estão bastante envolvidos na preparação do sínodo pan-ortodoxo. Eu, pessoalmente, estou convencido de que, quando ele ocorrer, vai ser um grande passo à frente no diálogo ecumênico. Por isso nós temos que apoiar esses esforços ortodoxos e ter paciência. Nas comissões ecumênicas, continuamos o diálogo teológico sobre a relação entre a sinodalidade e o primado.

Muitos dizem que a secularização foi provocada também pela Igreja, mesmo que involuntariamente. Não seria necessário analisar quais correntes levaram a uma secularização, para corrigi-las?

Card. Kurt Koch: Alguns históricos destacam realmente, e justamente, que o cisma do século XVI e as sucessivas sanguinárias guerras confessionais, particularmente a Guerra dos Trinta anos, ‘co causaram’ a secularização no sentido da privatização da religião. Dado que o cristianismo era presente apenas na forma de confissões que se combatiam até o sangue não servia mais como fundamento e garantia de unidade e de paz social. Por esse motivo a incipiente idade moderna buscou um novo fundamento de unidade, independentemente da religião. É necessário levar em consideração estes processos fatais também em vista do 500° aniversário da Reforma. Certamente na historia posterior a idade moderna, outros avanços da secularização foram chegando como o abandono da questão sobre Deus, que têm outros motivos e são também contemplados no projeto da Nova Evangelização.

 Sobre o Concilio Vaticano II, é muito atual a discussão sobre o conceito da “hermenêutica da continuidade”. Não é que os dois extremos “políticos” da Igreja, isto é, os conservadores e os liberais, estão cometendo o mesmo erro, no sentido de que ambos consideram o Concílio uma “ruptura”?

Card. Kurt Koch: Sim, mas exatamente por este motivo o Papa chama a sua interpretação do Concilio não “hermenêutica da continuidade”, mas “hermenêutica da reforma”. Trata-se de uma renovação na continuidade. Esta é a diferença: os liberais sustentam a hermenêutica da descontinuidade e da ruptura. Os conservadores sustentam uma hermenêutica da pura continuidade: somente o que já é detectável na Tradição pode ser doutrina católica, por isso não pode ser uma renovação. Ambos vêem igualmente o Concilio como uma ruptura, mesmo que de maneiras muito diversas. O Santo Padre levantou a questão sobre esta compreensão da hermenêutica conciliar da ruptura e propôs a hermenêutica da reforma, que une continuidade e renovação. Esta hermenêutica o Santo Padre já apresentou em seu primeiro discurso natalício em 2005 e deu assim as indicações precisas sobre como interpretar o Concilio e torná-lo mais fecundo para o futuro.

(Trad.ZENIT)