Libertação dos dois bispos ortodoxos: entre desejo e realidade

Uma negociação positiva que não chega ao fim

Roma, (Zenit.org) Robert Cheaib | 529 visitas

"A esperança vem a nós vestida em trapos, para que a possamos  vestir com uma roupa de festa" (Paul Ricoeur). Muito esperávamos pela libertação dos dois bispos sírios, sequestrados segunda-feira, 22 março. A apreensão insustentável pelo seu sequestro e a real dificuldade de comunicação com diversas fontes para certificar-se da notícia levou-nos à esperança de que as miragens pudessem saciar a nossa sede de sucesso.

No momento em que a notícia saiu no site da Oeuvre d'Orient, Zenit - Edição árabe estava entrevistando um sacerdote sírio de Aleppo (cf. Diário de um sacerdote de Aleppo). Em alguns momentos recebemos diversas comunicações e confirmações da Síria do definitivo desfecho. O site da "Rússia Alyawm" também tinha difundido detalhes fornecidos por fontes locais que afirmavam que "autoridades políticas e religiosas interviram no assunto e pressionaram para a liberação dos dois bispos”, e que depois de "negociações difíceis" tinha-se chegado ao acordo para libertar os dois prelados.

Por volta das 23h30 da terça-feira, 23 de abril, Zenit conseguiu finalmente entrar em contato com uma fonte que colabora com o metropolita ortodoxo de Aleppo, mons. Boulos el-Yazgi. A fonte negou a notícia da libertação e disse: "Houve uma grande confusão na difusão de notícias conflitantes [...] porque aqui [em Aleppo] as comunicações são interrompidas muitas vezes."

"Devemos dizer a verdade sobre a não libertação para que o caso dos dois bispos seqüestrados não seja arquivado prematuramente", acrescentou.

E à pergunta sobre o status quo das negociações, a fonte reiterou: "Nenhuma novidade. Os dois bispos não foram libertos e não temos informações precisas sobre o local onde se encontram".

Uma declaração conjunta de dois patriarcas, além disso, e para evitar qualquer mal-entendido, o patriarca ortodoxo de Antioquia e todo o Oriente, S.B. Mar Ignatius Zakka I e o Patriarca sírio-ortodoxo de Antioquia e todo o Oriente, Mar Yuhanna Yazgi X, publicaram um comunicado oficial conjunto que apresenta as circunstâncias do sequestro da segunda-feira. Os dois bispos, Mons. Gregorios Yuhanna Ibrahim mons. Boulos el-Yazgi, estavam "voltando para Aleppo, de uma missão humanitária". Os dois prelados foram, provavelmente, com o compromisso de negociar a libertação do pe Michel Kayal, um jovem sacerdote armênio e do pe Maher Mahfuz, um padre ortodoxo, seqüestrados no dia 9 de fevereiro de 2013.

No seu comunicado os dois patriarcas reafirmam que os cristãos na Síria "são uma parte essencial do tecido dos povos aos quais pertencem. Eles sofrem com todos os sofredores”.

O comunicado dirige um apelo urgente aos seqüestradores para que "respeitem a vida dos dois irmãos seqüestrados" e os convida a "desistir de todos os atos que disseminem divisões religiosas e confessionais entre os filhos de uma única nação”.

Os dois patriarcas também expressaram a sua compreensão pela “preocupação que paira no ânimo dos cristãos por causa de um tal acontecimento” e convida-os à paciência e à confiança em Deus, lembrando que “a defesa da nossa terra acontece em primeiro lugar por meio da perseverança nela, e por meio do trabalho para fazê-la uma terra de amor e de pacífica convivência”.

A declaração não esquece de dirigir mais uma vez um apelo ao mundo inteiro, para que tomem medidas para "pôr fim ao drama que acontece na Síria amada".

Os patriarcas Zakka e Yazgi também convidam os compatriotas muçulmanos a trabalharem juntos e rejeitarem o usar seres humanos como objetos, “seja como escudos humanos nas lutas, seja como mercadorias de troca econômica ou política”.

Finalmente um apelo também vai dirigido aos sequestradores lembrando-lhes que os dois sequestrados são “apóstolos do amor no mundo”. O que testemunha o calibre dos dois bispos sequestrados não são somente palavras, mas “o seu compromisso religioso, social e nacional”. Portanto, o convite agora é de “colaborar para que esta situação dolorosa seja tratada sem violência que só serve para os inimigos da nação”.

... a nossa esperança ainda está vestida de trapos ... mas como diz um dos últimos ditados publicado no dia 19 de abril de Mons. Gregorios Yohanna Ibrahim na sua página de Facebook: "A esperança ... é uma pequena janela, mas, apesar da sua pequenez, ela abre enormes horizontes na vida".