Libertação é quando o Destino está muito próximo do coração

Dom Filippo Santoro falou em Rimini de sua experiência missionária

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Por Alexandre Ribeiro

RIMINI, segunda-feira, 31 de agosto de 2009 (ZENIT.org).- No auge dos debates em torno da Teologia da Libertação, o então padre Filippo Santoro, missionário italiano do Movimento Comunhão e Libertação, sendo professor de teologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, perguntou a Dom Luigi Giussani: “que é libertação?” Este respondeu: “é quando o Destino está muito próximo do coração do homem”.

Trata-se de um experiência válida para cada pessoa, para a América Latina e o mundo, disse Dom Filippo Santoro, hoje bispo de Petrópolis (Rio de Janeiro, Brasil), em sua conferência na semana passada no Meeting de Rimini para a amizade entre os povos.

Dom Filippo contou como iniciou sua missão no Brasil. Diante da necessidade de um professor de teologia na PUC do Rio, em 1984, Dom Giussani o questionou se ele viria voluntariamente para o Brasil. Ele disse que sim. Giussani o felicitou e fez um comentário: a missão “não é uma estratégia, mas uma resposta ao convite da Igreja; devemos gastar nossos sapatos, pois nosso horizonte é o mundo".

O bispo recordou um outro momento, no ano de 1974, quando acompanhou Dom Giussani em algumas viagens e encontros do Movimento Comunhão e Libertação. Dom Filippo confessa que um momento, entre os cansaços das viagens, pensou: "em que grande aventura o Senhor me lançou. Para ir em missão me concedeu muitos novos amigos! E eu nem perdi meus velhos amigos de Puglia".

Nesse chamado à missão ele veio parar no “coração da Teologia da Libertação, portando como método teológico não uma dialética, mas uma presença”. Na PUC do Rio de Janeiro, padre Filippo Santoro assumiu algumas matérias que antes eram ministradas por Clodovis Boff, irmão de Leonardo Boff, ambos expoentes da Teologia da Libertação.

Ele contou que diante do ímpeto social de seus alunos, propôs não outra ideologia, mas a sua própria experiência. “A comunhão vem antes da libertação. Não o contrário. E a comunhão para mim era o olhar e o abraço de Dom Giussani e dos amigos em quem eu vivenciava a total diversidade do abraço de Cristo. Da comunhão à libertação”.

“No ápice da disputa da Teologia da Libertação, perguntei a Dom Giussani: ‘que é a libertação? Quando há uma experiência de libertação?’ Ele disse: ‘quando o Destino está muito próximo do coração do homem’.”

Segundo Dom Filippo, essa intuição vai ao encontro das orientações da Conferência de Aparecida, que, no número 44 de seu documento final, afirma: “a própria natureza do cristianismo consiste em reconhecer a presença de Jesus Cristo e segui-lo”. 

A fé como ponto de partida. Esta era a experiência que os bispos da Conferência de Aparecida vivenciavam junto dos milhares de romeiros que se dirigiam diariamente ao Santuário para expressar a simplicidade de seu amor a Maria.

“Dava-se um passo novo na questão sobre a origem e o método da prática pastoral e da teologia, especialmente na América Latina. Ponto de partida é a fé vivida pelo povo de Deus, não as análises ou a situação de pobreza e injustiça”, comentou o bispo.

Já a introdução do documento de Aparecida, recorda Dom Filippo, chama a “recomeçar a partir de Cristo”, reconhecendo que “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”.

O confronto diante do método da Teologia da Libertação –que coloca o pobre como princípio–, não é apenas “divagação teológica”, diz Dom Filippo. Esta questão “destaca o ponto de partida seja da nossa vida pessoal como nas grandes situações onde a Igreja vive, como por exemplo na América Latina”.

“Além dos debates teológicos na América Latina e de possíveis reduções meramente organizativas da Missão, é indispensável oferecer fatos que indiquem a presença do Mistério entre nós, antes de qualquer análise social, antes de qualquer categoria do pobre, da globalização, da ecologia e da própria cultura. Um encontro que vem antes de tudo”, afirmou o bispo.

Ele citou novamente o documento de Aparecida, que no número 14 afirma que o desafio fundamental é “mostrar a capacidade da Igreja de promover e formar discípulos que respondam à vocação recebida e comuniquem em todas as partes, transbordando de gratidão e alegria, o dom do encontro com Jesus Cristo”.

“Não temos outro tesouro a não ser este. Não temos outra felicidade nem outra prioridade que não seja sermos instrumentos do Espírito de Deus na Igreja, para que Jesus Cristo seja encontrado, seguido, amado, adorado, anunciado e comunicado a todos, não obstante todas as dificuldades e resistências”, prossegue o documento.

Trata-se de um encontro “tão simples como aquele em que Dom Giussani me perguntou: ‘você iria voluntariamente ao Brasil?’; um encontro como quando faço a proposta de uma missão continental aos meus fiéis de Petrópolis”.

O “meu eu” renasce e permanece vivo a partir de um encontro que "vale por sua verdade", não apenas por seu papel. “E isso é ótimo para o meu ministério episcopal quando, vivendo a beleza da experiência, eu confirmo os meus fiéis na fé e os lanço no ímpeto missionário”.