Lições do Grande Turismo em Roma

Boa publicidade e pensamento ilusório

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Por Elizabeth Lev*

ROMA, terça-feira, 15 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) - Na antiga República Romana já havia turistas que visitavam a Cidade Eterna. A fila de postos de cambistas no Foro testemunhava as muitas moedas que passavam por Roma, assim como os vívidos relatos de viajantes que chegaram até nós de todas as épocas.

A era da Roma cristã viu os turistas serem substituídos pelos peregrinos, que vinham rezar diante dos túmulos de Pedro e Paulo, visitar os santuários dos mártires, admirar as ruínas romanas e maravilhar-se com o testemunho humilde de uns quantos santos valentes que conseguiram revolucionar um império gigantesco.

Com a organização do ano jubilar de 1300, fixado de 25 em 25 anos a partir do século XVI, os peregrinos passaram a fazer parte da panorâmica habitual, com suas capas empoeiradas e seus cajados, quase sempre descalços, de pés no chão romano. Os Papas do Renascimento reorganizaram a cidade para eles, construindo mais fontes, estradas e pontes. Os romanos lhes vendiam terços na Via dei Coronari e lhes ofereciam cama e cuidados na Trinità dei Pellegrini, enquanto os artistas os imortalizavam, como Caravaggio em seu “Senhora dos Peregrinos”, na Basílica de Santo Agostinho.

Mas à medida que o século XVII acabava, os peregrinos se viam acompanhados em Roma por novos visitantes, os Grandes Turistas, que chegaram no começo do século XVIII.

Esses homens, e de vez em quando algumas mulheres, não vinham rezar nas tumbas dos santos, mas estudar os restos da Antiga Roma, em busca de novos modelos e exemplos no mundo pagão antigo.

No novo museu da Via do Corso, a avenida tão querida desses Grandes Turistas, uma exposição especial nos revela a Roma do século XVIII, a irresistível atração para o resto da Europa e a resposta da cidade a esse novo tipo de visitante.

O Palácio Sciarra, da Via Mario Minghetti, acolhe a exposição “Roma e a Antiguidade: Realidade e Visão em 1700”, que ficará em Roma até 6 de março. As poucas salas de exposição foram elegantemente desenhadas no estilo neoclássico, desenvolvido em Roma durante o século XVIII, e completadas com pinturas, gessos e peças de arte decorativa que resumem o fascínio da Europa pela arte pagã antiga, na alvorada do Iluminismo.

Em 1738, operários que escavavam os alicerces da última villa do rei de Nápoles descobriram a cidade perdida de Herculano, que desde 79 d.C. permanecera sob a sepultura das cinzas despejadas pela histórica erupção do Vesúvio. Dez anos mais tarde foi achada Pompeia, ressuscitada dentre os mortos de um mundo perdido. Nobres e eruditos acorriam à Itália para ver as grandes descobertas, parando primeiro em Roma para admirar as ruínas da civilização que originara Pompeia.

Muitos chegaram a Roma vindos da Inglaterra e da Alemanha, que celebrava seu segundo centenário como nação protestante, pouco interessados nas “coisas do Papa” e nas “superstições” dos católicos. Procuravam as grandes verdades da Antiguidade: a ordem, a majestade e a erudição dos antigos.

As ruínas de Roma os cativavam. Das fantasmagóricas arcadas do Coliseu às solitárias colunas elevadas por cima dos pastos do Foro entregues às vacas, aqueles antigos fragmentos serviam de fundo para os retratos desses Grandes Turistas. Considerando a si próprios como os herdeiros do legado da Antiguidade, eles posavam sob os arcos ou encarapitados nas suas colunas. Observando-os, vestidos com os trajes em voga na época, pode-se ver a vaidade apoiando-se na ruína.

Como bons turistas, adoravam os souvenirs, e os italianos estavam mais do que preparados para produzir artigos de luxo para os visitantes levarem consigo. Duas reproduções da tumba de Cecilia Metella e do Panteão talhado em mármore com incrustações de pedras semi-preciosas deviam custar o que hoje custa uma passagem intercontinental para Roma na classe executiva. Delicadas panorâmicas mostram as ruínas, o horizonte e recantos pitorescos da cidade, caras lembranças de um mundo sem câmeras digitais.

Desenterravam-se estátuas diariamente em diversas escavações situadas nos arredores da cidade. Eram levadas para ateliês de Roma para ser restauradas por grandes artistas ou copiadas e vendidas no mercado de arte, tão logo ele começou a funcionar. Uma grande parte da atual exposição é dedicada à fascinante figura de Bartolomeo Cavaceppi, comerciante de antiguidades para importantes personalidades. Papas e nobres frequentavam seu estúdio, procurando obras de arte antigas ou criadas por sua própria mão. Cópias de obras particularmente valorizadas, como o Eros Capitolino, a Cátedra de Apolo e a Flora Farnese iam dos ateliês para mansões da Inglaterra, da França e da Rússia.

Roma também começou a receber estudantes, não seminaristas da Universidade Gregoriana para se formar em teologia, mas artistas que vinham estudar as obras dos antigos e recriar seu ideal de divindade, perfeição matemática e arrogante desprezo pela condição humana. A academia francesa deu lugar a gênios artísticos da estatura de David, que ilustrou muitas das cenas famosas da história romana na véspera da Revolução Francesa.

Duas mulheres recebem especial atenção na exposição. Desde o seu início até o século XX, a Academia de Arte Romana só admitiu duas mulheres. Uma foi Angelika Kaufmann, reapresentada com várias de suas obras em toda a exposição; a outra, Mary Moses, não tem obras expostas.

Os turistas liam poesia em latim sob as ruínas e adoravam a perfeição das proporções e a anatomia da arte. As estátuas gregas e romanas voltavam à sua condição de ídolos; as mulheres voltavam a vestir-se como elas (chegando a umedecer suas roupas para conseguir o efeito ondulado das cortinas) e os homens posavam como os antigos bustos de pensadores antigos.

Johann Joachim Winkelmann, antiquário por excelência, escreveu: “O único caminho para a grandeza, possivelmente inimitável, é a imitação aos antigos”. Winkelmann, porém, se horrorizou com as cores chamativas e reapresentações de Pompeia. Diante da realidade de que os antigos adoravam a comida e a bebida, tinham um gosto extravagante para decorar o interior de suas casas e salpicavam sues povoados com tabernas e prostíbulos, ele se retirou ao seu mundo da estatuária clássica, criando uma visão pessoal da Antiguidade que era bela, mas imprecisa.

O modelo ideal dos nobres e civilizados antigos, que podia suplantar as vidas santas dos santos cristãos, cujas tumbas enchem as ruas de Roma, se baseava em pouco mais do que boa publicidade e pensamento ilusório.

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Braços abertos


Perante todos estes turistas com descaso pelos mártires e louvor à grandeza de Cícero, como reagiu a Igreja? Retirou-se de mau humor detrás dos muros do Vaticano, para olhar na obscuridade, sozinha, os afrescos da Capela Sistina? Ignorou friamente as almas perdidas que adoravam novos ídolos?

Não, a Igreja Romana respondeu aos turistas ateus abrindo-lhes os braços. O Papa Pio VI, guardião orgulhoso da melhor coleção de antiguidades do mundo, abriu as portas do Museu Pio-Clementino em 1780, durante o apogeu do Grande Turismo.

Desenhado Michelangelo Simonetti e organizado por Giovanni Bautista Visconti, o Museu do Papa Pio assombrou o mundo. O Laocoonte, o Apolo de BelvedereVenus e CupidoCleopatra e muitos mais se puseram à disposição de acadêmicos, estudantes e turistas.

Disposta em grandes salas iluminadas que evocavam seus lugares originais, esta coleção ocupou um posto em todas as listas Top 10 de Roma. Vários felizardos visitantes, entre os quais se destacou Goethe, puderam percorrer a exposição, que ao entardecer era iluminada com velas, criando um ambiente idílico e cálido, que parecia um retorno à Idade de Ouro. (Os visitantes ainda podem realizar este tipo de visita às sextas-feiras à noite, da primavera ao outono, quando os Museus Vaticanos fecham mais tarde)

Pio VI melhorou a coleção com várias obras resgatadas durante seu reinado. De Tivoli trouxe várias musas, assim como a cabeça de Péricles, um dos achados mais interessantes de 1779, recordado na poesia de Vincenzo Monti. O governante ateniense e o mecenas de arte se uniram na pessoa de Pio VI, administrador da Cidade Eterna, benfeitor das artes assim como sucessor de São Pedro. (Ele não sabia no entanto que vários de seus visitantes tomavam notas do que viam para informar Napoleão, que, quando conquistou Roma em 1797, levou cerca de 500 obras de arte para o Louvre)

O Grande Turista passava meses preparando sua viagem. Muito mais que folhear um pequeno guia de viagem, ele estudava textos latinos, aprendia inscrições gregas, história, estilos e materiais. Esta elite intelectual, orgulhosa dos conhecimentos que tanto custara ganhar, estava surpresa de ver que a Cúria estava muito bem formada em arte, língua e literatura, tanto como ela, ou até mais.

Pio VI deu exemplo de erudição na Cúria, atuando como um guia turístico para o rei Gustavo III da Suécia. Gustavo, rei protestante, estava assombrado de encontrar com um Papa tão interessado e com tantos conhecimentos sobre a arte e a cultura do mundo antigo. Sem dúvida, estes eclesiásticos não eram nem de longe os velhos tontos supersticiosos que muitos protestantes lhe tinham dito que encontraria. Apesar de toda admiração que papas e prelados tinham pelos antigos, nunca esqueceram de que o mundo pagão implodiu sob o propósito consumista de seu tempo. Os cristãos tinham sido assassinados em nome desses ídolos belamente talhados, quando os antigos tentavam forçar todos a crer que os homens podiam se converter em deuses. Mas a revelação de que Deus se fez homem resistiu pacientemente a todas as ridicularizações e iras dos antigos pagãos, ofereceu seus mártires aos espetáculos de arena e se preparou para acolher os fragmentos de uma sociedade autodestrutiva. 

À entrada do museu Pio-Clementino, Pio VI coloca as tumbas esplêndidas de Santa Helena e Santa Costanza. Helena, mãe de Constantino, foi o meio através do qual seu filho encontrou o cristianismo, episódio que concluiu com a legalização do mesmo no ano 313. Ela também fez uma longa viagem à Terra Santa com a finalidade de encontrar a cruz de Cristo. Como padroeira da arqueologia, Santa Helena descobriu a evidência tangível do sacrifício salvífico de Cristo.

Neta de Helena, Costanza começou sua vida como qualquer filha mimada e privilegiada de um rei. Em meio a suas comodidades, extravagâncias e divertimentos, encontrou-se no entanto com Cristo, através da virgem mártir Santa Inês, e se converteu ao cristianismo. 

A disposição do Museu do Papa Pio VI deu uma aula aos turistas de qualquer idade, inclusive os membros mais importantes e complacentes da sociedade romana compreenderam o vazio de seu mundo. As altas abóbadas de seus templos estavam vazias, os belos rostos de seus ídolos eram máscaras ocas. A maior conquista dos romanos, o que permitiu que suas obras fossem preservadas para poder ser admiradas, foi dar as costas para seus deuses e dirigir o olhar para Cristo.

As pessoas que neste tempo buscam a verdade e a sabedoria podem aprender esta lição também hoje em Roma.

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* Elizabeth Lev leciona Arte e Arquitetura Cristãs no campus italiano da Duquesne University e no programa de Estudos Católicos da Universidade San Tommaso.