Liturgia da Palavra: A caminho nas estradas do mundo com Jesus

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

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SÃO PAULO, quinta-feira, 5 de maio de 2011 (ZENIT.org) - Apresentamos o comentário à liturgia do III Domingo da Páscoa – At 2,14. 22-23; 1 Pd 1, 17-21; Lc 24, 13-35 – redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo ‘Pontificio Ateneo Santo Anselmo’ (Roma), Dom Emanuele, monge beneditino camaldolense, assina os comentários à liturgia dominical, às quintas-feiras, na edição em língua portuguesa da Agência ZENIT. 

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III DOMINGO DA PÁSCOA

Leituras: At 2,14. 22-23; 1 Pd 1, 17-21; Lc 24, 13-35

Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, dois dos discípulos de Jesus iam para um povoado, chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém” (Lc 24,13). 

Os dois discípulos, ao afastarem-se de Jerusalém naquela triste tarde, carregavam sobre seus ombros a dor, a decepção e a inquietação de todos os demais, já que tinham perdido, com a ignominiosa morte de Jesus, o amigo, o mestre, o messias sonhado: “Nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas estas coisas  aconteceram! É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deram um susto.... A ele, porém, ninguém o viu” (Lc 24, 21-24). 

A penosa caminhada deles, atravessada de perguntas inquietantes sem respostas, não parou até hoje. A caminhada deles se tornou o nosso caminho, o da Igreja e dos homens e das mulheres de todo tempo, até a vinda gloriosa do Senhor e ao encontro definitivo com ele, face a face, no fim dos tempos. 

Seus desvios e seus pesos são também os nossos. Suas esperanças desiludidas, escondidas embaixo da cinza das expectativas falidas, são também as nossas. Nosso é também seu inquieto perguntar-se sobre os acontecimentos da vida, assim como a procura de uma saída razoável das angústias. Porém, é também a nós - como ocorrera com eles - que se aproxima e se faz companheiro do mesmo caminho, o misterioso e desconhecido viajante.

Os dois discípulos exprimem bem a situação do homem e da mulher do nosso tempo: desiludidos pelas falsas seguranças da modernidade, às vezes até mesmo pelo próprio rosto da Igreja, ferido por fraquezas e pecados; à procura de um sentido da vida, de ideais pelos quais lutar, crer, esperar. 

Jesus primeiro se faz encontro, chegando-se a eles; se faz companheiro de viagem, se interessa pela vida e pelos os problemas deles; os provoca a se manifestarem e a sair do pequeno mundo em que estão fechados. E caminha com eles. 

Vós me ensinais vosso caminho para a vida; junto a vós, felicidade sem limites, delícia eterna e alegria ao vosso lado” (Sl 15,11 – Salmo Responsorial). Mais uma vez, somos surpreendidos pela gratuidade e fantasia com a qual Deus toma a iniciativa; já que ele nos procura para curar nossas feridas, nos reanimar com sua própria vida, a fim que possamos alcançar a felicidade pela qual nos criou. Jesus que se faz companheiro solidário com os dois, cura a sua cegueira (24,16), quebra a máscara das ilusões (Lc 24, 21), os tira fora do sepulcro lacrado pelas falsas esperanças messiânicas, e os coloca definitivamente no caminho certo (Lc 24,31-32).

Jesus os ressuscita da morte interior, que estava corroendo as felizes experiências partilhadas com ele no passado e tornadas, de repente, sem sentido e sem perspectivas, pela obscuridade dos últimos acontecimentos (Lc 24, 21.24). O atento e partícipe companheiro desconhecido de viagem os transforma em mensageiros sagazes e corajosos da ressurreição de Jesus e da própria pessoal. Ou melhor, abrindo-lhes os olhos da inteligência interior a novos rumos de vida, os faz testemunhas críveis que Jesus, o crucificado, é o Vivente que doa a vida, pois, ao encontrá-lo e ao vê-lo com os olhos da fé, por ele suscitada, eles mesmos voltaram a viver.

Ao longo dos onze quilômetros que separavam Jerusalém de Emaús, com a partilha amigável das inquietações, e com as palavras iluminadoras, capazes de tocar o coração deles antes do que a mente, Jesus faz os dois discípulos percorrerem o longo caminho do evento pascal: passar da morte para a vida. 

Eles estão convencidos de ter entendido muito bem o que tinha acontecido nos dias passados em Jerusalém, para Jesus e para si mesmos. Com a escrita “Este é Jesus, o rei dos judeus”, colocada por Pilatos em cima da cruz, tinham sido crucificadas definitivamente também as ilusões por eles cultivadas a respeito do messias libertador, prometido pelos profetas. A pedra que pesa em cima do coração deles é mais pesada daquela que veda a entrada do sepulcro de Jesus, no Jardim perto do Calvário. 

Jesus ao invés, os chama de pessoas que estão totalmente enganadas. Eles não têm a única luz que pode oferecer a verdadeira compreensão dos acontecimentos daquela excepcional páscoa. Falta-lhes a fé, que revela o misterioso plano de Deus sobre Jesus, preanunciado pelos profetas, plano que se foi realizando através do seu sofrimento; via escolhida por Deus para ele entrar na sua glória ao cumprir plenamente sua missão. “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?” (Lc 24, 25-26).

Jesus muda radicalmente o horizonte existencial dos discípulos. O assume com generosa solidariedade, e o reinterpreta, porém, à luz autêntica das escrituras e da sua própria experiência pessoal pascal. Revelando seu mistério, Jesus revela aos discípulos a verdade escondida que eles não podiam alcançar por si mesmos: são homens que tem uma visão distorcida do projeto de Deus; estão mortos à esperança, mas ele vai ressuscitá-los. Abre o mesquinho mundo em que estão sepultados e os coloca no vasto horizonte do desígnio de Deus. 

Para tal fim, ele desenvolve a hermenêutica certa das Escrituras, a partir das próprias perguntas que saem da vida deles. Os conduz a se deixarem iluminar pela luz da Palavra vivente de Deus que é ele mesmo. Como os discípulos, cada pessoa é chamada a entrar nesta relação vital com a Palavra, com autêntica atitude de disponibilidade ao Espírito e de sincera conversão ao Senhor, fonte de libertação, como diz Paulo (2 Cor 3,17), assim que Jesus se torne contemporâneo a cada um, no seu caminho de libertação e de ressurreição. 

“Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando! Jesus entrou para ficar com eles” (Lc 24, 29). O desespero vai se tornando aos poucos desejo de nova verdade, apenas vislumbrada, e já abre o coração ao imprevisível; de fato Jesus os conduzirá bem além do imaginado por eles. Quando a pessoa se deixa alcançar, ainda que um pouco, pelo toque misterioso do Espírito, ninguém sabe para onde ele pode nos conduzir. Os santos de ontem e de hoje, são testemunhas excepcionais da aventura imprevisível da fé e do amor por Cristo, assim como desta surpreendente pedagogia divina. Abrir as portas a Cristo sem medo é a única maneira para que ele possa abrir para nós as portas da libertação e da felicidade.

Por Cristo, seu mestre e esposo, a Igreja é desafiada a tornar-se companheira solícita de todo homem e mulher à procura da vida. Quantas vezes, ao invés, se corre o risco de se repetir em nós a atitude evasiva do sacerdote e do levita, em relação ao homem deixado meio vivo pelos assaltantes à beira da estrada de Jerusalém para Jericó (cf. Lc 10, 29-37)? Por acaso, Jesus não está tomando forma, ainda hoje, através do rosto de desconhecidos “bom-samaritanos” que se movem de compaixão e tomam cuidado com carinho dos feridos e abandonados da história? 

“E começando por Moisés e passando pelos profetas, explicava aos discípulos todas as passagens da escritura que falavam a respeito dele” (Lc 24,27). Sobre o quanto esteja atuando e nos ensinando aqui o próprio Jesus, no-lo transmitiram com clareza os Padres da Igreja: “Toda a escritura divina constitui um único livro e este único livro é Cristo, fala de Cristo e encontra em Cristo a sua realização” (Hugo de São Vitor, De arca Noe, 2,8; PL 176, 642, C-D). Muitas pessoas talvez lembrem também da famosa afirmação de Santo Agostinho, tornada familiar pela Constituição Dei Verbum, n.16: “O Novo Testamento está latente no Antigo e o Antigo se torna claro no Novo” (Quaest. in Heptateuchum, 2,73; PL 34, 623).

Esta visão unitária da Escritura a partir de Cristo e esta relação vital com ele, alimentada pela Palavra de Deus, é fundamental para nos colocar em sintonia com a “história da salvação” de Deus e a sua divina pedagogia, que alimenta e orienta a fé da Igreja, sustenta o estudo da Escritura e a reflexão teológica, e todo caminho espiritual. No seu âmbito se desenvolve aquela relação orante e transformadora com a Palavra de Deus que chamamos de Lectio Divina, cuja experiência não pode ser reduzida à pratica devocional reservada apenas à algumas pessoas ou grupos particulares, como os monges, mas deveria tornar-se a nascente primeira da oração para todos os membros do povo de Deus (cf. Bento XVI, Exortação Verbum Domini, n. 82). Com o Concílio Vaticano II e seus principais documentos, a Igreja nos abriu novamente este caminho, a ser percorrido na história junto com o próprio Jesus. 

Esta é também a razão pela qual, na recente exortação apostólica Verbum Domini (2010), o papa Bento XVI, propõe o caminho de Jesus com os dois discípulos de Emaús como modelo de autêntica interpretação da Escritura e da sua unidade a partir de Cristo, e da relação vital da Igreja com a Escritura nos variados âmbitos da sua vida (n. 8-51), e em particular, na celebração litúrgica (n.52- 71). 

De fato é ao abençoar e partir o pão por parte de Jesus, que os olhos dos discípulos se abriram, reconheceram Jesus e iniciaram a apreciar de maneira nova o que tinham vivenciado com ele e a própria sorte: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as escrituras?” (Lc 24, 32).

No pano de fundo da narração de Lucas aparece a mesma estrutura da celebração da eucaristia na Igreja, desde o início das comunidades cristãs: à luz e na referência a Cristo morto e ressuscitado, Palavra e Eucaristia se correspondem reciprocamente e não podem ser compreendidas uma sem a outra. A Eucaristia, memorial vivo da páscoa de Jesus, nos abre à compreensão da Escritura que nela alcança seu cumprimento, e a Escritura ilumina o sentido da Eucaristia, doação definitiva daquele amor que se manifestou ao longo da história testemunhada pela Escritura. 

O dinamismo deste encontro transformador faz os antes cansados e desconfiados viandantes, levantarem-se e voltarem para Jerusalém, agora percebida como o lugar da glória do messias de Deus e o berço da nova humanidade renascida em Jesus e no próprio coração. De fugitivos a testemunhas: eis a radical transformação operada pelo encontro com Jesus através da sua Palavra e do seu Pão da vida! Com uma nova surpresa, Jerusalém não será só o lugar onde fazer brilhar a própria alegria e ressoar o próprio testemunho de Cristo, o Ressuscitado, mas o lugar da recíproca confirmação do mesmo testemunho e da mesma fé, entre todos os membros da comunidade: “Realmente o Senhor ressuscitou!” (Lc 24, 34-35). A comunidade é o berço e a guardiã da fé dos seus membros. 

Desde então e até hoje, este é o dom e a missão que a Páscoa de Cristo continua entregando à comunidade da Igreja e a cada um de nós. Este é o tempo da nossa peregrinação na história. Esta é a perspectiva que a ressurreição do Senhor, centro da mesma criação, abriu para nós. Pela fé na ressurreição de Jesus a nossa fé e esperança estão bem enraizadas em Deus (1 Pd 1, 17. 20-21).