Liturgia da Palavra do domingo: “À escuta do Senhor no deserto”

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

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SÃO PAULO, quinta-feira, 2 de dezembro de 2010 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à liturgia do próximo domingo – II do Advento (Ano A) Is 11, 1-10; Rm 15, 4-9; Mt 3, 1-12 – redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele, monge beneditino camaldolense, assina os comentários à liturgia dominical, sempre às quintas-feiras, na edição em língua portuguesa da Agência ZENIT.

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II Domingo do Advento – A

Leituras: Is 11, 1-10; Rm 15, 4-9; Mt 3, 1-12

Tudo o que outrora foi escrito, foi escrito para nossa instrução, para que pela nossa constância e pelo conforto espiritual das Escrituras, tenhamos firme esperança” (Rm 15, 4). Enquanto peregrinamos na espera da vinda gloriosa do Senhor, as palavras do apóstolo nos abrem ao mistério da sua palavra vivente, por ele pronunciada todos os dias no segredo das consciências, nos acontecimentos da vida, nas belezas - e nas feridas - da criação e celebrada na liturgia. Deus continua nos falando com certeza para nos instruir sobre as verdades da fé e para orientar nossos comportamentos morais no dia a dia. Mas se fosse só isso, seria muito pouco. “As escrituras são a carta de amor de Deus à sua namorada: conhece o coração de Deus nas palavras de Deus!” (São Gregório Magno). Ele fica sendo nosso interlocutor apaixonado na experiência sempre nova do encontro transformador com o seu santo Espírito. 

A celebração litúrgica do Mistério Pascal é o lugar privilegiado deste encontro vivificador, pois é o centro, o motor de todo este dinamismo do amor divino. “A celebração litúrgica torna-se uma contínua, plena e eficaz proclamação da Palavra de Deus. Por isso, constantemente anunciada na liturgia, a Palavra de Deus permanece viva e eficaz pela força do Espírito Santo, e manifesta aquele amor operante do Pai que não cessa jamais de agir em favor de todos os homens” (Introdução ao Elenco das Leituras da Missa, 4). A esta história divina e humana – uma história de amor! – estão sendo sempre acrescentadas páginas novas ao livro que a narra. Juntos, com o Senhor, estamos escrevendo as páginas do ano 2010-2011; são páginas iluminadas por todas aquelas que as precederam e que por sua vez iluminam as do passado na luz do Espírito.

Apareceu João Batista, pregando no deserto da Judéia: “Convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo.... Produzi frutos que provem a vossa conversão” (Mt 3,1-2;8). Um grito cortante e ameaçador se eleva no deserto da boca de João, o precursor do Senhor, para despertar as consciências do povo e prepará-lo para acolher o messias de Deus. Este está já presente no meio dele, escondido na humildade da condição do homem comum, mas ungido pelo Espírito Santo em cuja força haverá de renovar as situações mais fragilizadas. Os olhos do povo ficam fechados pelo preconceito; ele, o povo, imagina e pretende de Deus um Messias forte, capaz de produzir efeitos imediatos no âmbito daquilo que mais lhe interessa: o bem estar social e a liberdade política. Até mesmo os discípulos de Jesus se esforçarão muito para aderir ao estilo pobre de Deus e de Jesus; essa dificuldade permanecerá até a iluminação do Espírito e do próprio Jesus depois da Páscoa. Será que a nossa reação frente aos desafios e às dificuldades da vida é muito diferente?

Deus é fiel à sua promessa. A profecia de uma renovação radical da situação, portadora de consolação e esperança para um povo reduzido quase a nada pelo exílio na Babilônia (Is 40,3), está para tornar-se realidade no presente. Contra as expectativas negativas de todo mundo, um novo êxodo está para ter início e irá tocar as profundezas das consciências: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai sua veredas” (Aclamação ao Evangelho). Olhando para os grandes problemas que desafiavam a Igreja e a família humana em meados do século passado, o bem-aventurado Papa João XXIII, contra os que ele chamava de “profetas de desventuras”, apontava profeticamente à primavera do Espírito que estava manifestando-se na Igreja com o Concílio Vaticano II como um novo Pentecostes. Precisamos também hoje de mestres semelhantes, guiados pelo Espírito, para reconhecer as novidades de Deus.

O reino de Deus, sua ação salvadora, está desenvolvendo seu dinamismo transformador e vai manifestar-se. Arrependimento e conversão para o Senhor constituem os aspectos complementares do mesmo processo renovador da existência e as condições para reconhecer a ação de Deus em Jesus, compreender seu estilo e conformar-se com ele. O mesmo apelo é proclamado por Jesus (cf. Mt 4,17) como eixo central da “Boa Nova”, por Ele anunciada e inaugurada. Com uma diferença substancial em relação à pregação do Batista: Jesus não ameaça, mas ele mesmo se torna “encontro” com o pecador, transformando sua inicial e confusa procura interior num encontro inesperado de salvação: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa... Hoje a salvação entrou nesta casa, pois ele também é um filho de Abraão” (Lc 19,5; 9). 

Se para João o machado já está posto de modo ameaçador à raiz das árvores, em Jesus o Pai concede ainda um ano de espera confiante para a figueira estéril produzir frutos (Lc 13, 6-9). É “o ano da graça do Senhor” que Jesus coloca no cerne da sua missão e que não tem medida de tempo: “hoje se cumpriu aos vossos olhos esta passagem da escritura” ( Lc 4, 21). Qual estilo prevalece nas nossas comunidades e nas nossas relações interpessoais: o de João ou o de Jesus ? 

Em sintonia com a mais pura tradição dos profetas (cf. Is 1, 10-20), João frisa a exigência de não ficar na ilusão da pertença formal ao povo de Deus e das práticas rituais: “Não penseis que basta dizer: Abraão é nosso pai”. O próprio Jesus será ainda mais radical sobre este assunto na polêmica com os fariseus. O estilo de vida revela a verdadeira qualidade de toda religião. 

O deserto da Judéia é o lugar onde ressoa a mensagem exigente e promissora de João. O “deserto” na linguagem da escritura é o lugar/tempo privilegiado dos grandes eventos da história de Israel na sua relação com Deus: da eleição e aliança até a traição idolátrica. Mas é também o lugar propício para retornar ao Senhor, assim como oportunidade para um novo êxodo e uma nova libertação do exílio. Lugar e tempo da tentação, da provação e da intimidade. Na pregação dos profetas o “deserto” se torna a geografia interior que o povo, e cada autêntico israelita, precisa aprender a descobrir e habitar, para reencontrar a verdade de si mesmo e da sua relação com Deus e com os demais. 

É no deserto que o próprio Jesus é impelido pelo Espírito depois do batismo de penitência recebido por João, para ali enfrentar os radicais desafios da missão, chamado a cumprir em total obediência ao Pai. Jesus sai vitorioso do deserto também para nós. O deserto é o lugar do combate com as potências obscuras que habitam o coração do homem e da mulher de todo tempo. É o lugar da descida, até os grotões mais obscuros de si mesmo para se conhecer, se assumir com verdade e se entregar com coragem e confiança ao coração do Pai. Os místicos e as místicas cristãos falam da necessidade de descer no deserto do próprio coração para que se desperte e se renasça à nova vida. Nos dizem que é somente no silêncio do deserto interior que podem ser celebradas as núpcias com o Esposo divino.

Quantas pessoas hoje têm a coragem de ficar consigo mesmas fazendo silêncio exteriormente e interiormente para descer no deserto do próprio coração e ficar consigo mesmas? Quem sente a necessidade urgente de reservar com fidelidade pelo menos um tempo de silêncio, para a leitura rezada da palavra de Deus, lutando com coragem contra a correria às vezes superficial de todo dia? Afinal, a “cela interior/espaço sagrado” na qual podemos nos deter para cultivar a amizade com o Senhor, antes que nos mosteiros se encontra no próprio coração. Apesar do silêncio ser elemento integrante e fundamental para a autêntica participação ativa à liturgia (SC 19 e 30), quanto valor e espaço é reconhecido/concedido ao “sagrado silêncio” nas nossas celebrações? O Advento é tempo propício para deixar o nosso árido deserto florescer de novo. 

Na perspectiva do profeta, através da ação do messias vislumbra-se uma nova criação e uma nova história: “o lobo e o cordeiro viverão juntos e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito”. Um sonho ingênuo destinado a desaparecer frente ao assolado deserto humano das cracolândias de São Paulo e das grandes metrópoles e da violência sem fim que arrasa países e cidades, como o Rio de Janeiro nos dias passados? O futuro “novo” é fruto sem dúvida da ação do messias na potência do Espírito. Mas não por magia. É preciso atuar com responsabilidade na sociedade deixando-se guiar pelo mesmo Espírito. “O Deus que dá constância e conforto vos dê a graça da harmonia e concórdia, uns com os outros, como ensina Cristo Jesus... por isso, acolhei uns aos outros como também Cristo vos acolheu para a gloria de Deus”( Rm 15, 5;7). 

Até que não prevaleça a nova lógica divina - mesmo entre os membros da comunidade de Cristo - dominará, mais ou menos mascarada, a lógica do lobo e do cordeiro não pacificados, como nas relações tensas entre judeus e pagãos na comunidade de Roma (Rm 15, 7-9). Mas Jesus exercita sua realeza na cruz como “Cordeiro imolado e vivente”,  compartilhando a mesma realeza  somente com aqueles/as que o seguem no mesmo caminho do amor crucificado (Ap 14, 1-5).

Consciente das potencialidades provenientes do Espírito e das contradições humanas, a Igreja nos convida a pedir ao Pai “que nenhuma atividade terrena nos impeça de correr ao encontro do vosso Filho, mas instruídos pela vossa sabedoria, participemos da plenitude de sua vida” (Oração do dia).