Liturgia da palavra: em comunhão com todos os santos

Por Dom Emanuele Bargellni, Prior do Mosteiro da Trasnfiguração

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SÃO PAULO, sexta-feira, 4 de novembro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à Liturgia da Palavra da Solenidade de Todos os Santos – Ap 7,2-4. 9-14; 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-1 a –, redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneu Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense.

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SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

Em comunhão com todos os santos

Leituras: Ap 7,2-4. 9-14; 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-1 a

Festejamos, hoje a cidade do céu, a Jerusalém do alto, nossa mãe, onde nossos irmãos, os santos, vos cercam e cantam eternamente o vosso louvor.

Para essa cidade caminhamos, pressurosos, peregrinando na penumbra da fé.

Contemplamos, alegres na vossa luz, tantos membros da Igreja, que nos dais como exemplo e intercessão. (Prefácio de todos dos Santos).

Em Cristo brilhou para nós a esperança da feliz ressurreição.

E, aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola... Para os que crêem em vós a vida não é tirada, mas transformada (Prefácio dos defuntos).

            Estamos nos aproximando da conclusão do Ano Litúrgico, que vai acabar no 34o domingo do Tempo Comum, domingo no qual celebraremos a solenidade de Cristo, Rei do Universo. No pano do fundo se contempla a imagem gloriosa do Cristo, origem e término do caminho da história da salvação, e da mesma criação (cf Cl 1, 15-16). Esta estreita relação de toda a realidade a Cristo está simbolicamente bem expressa pelo movimento do Ano Litúrgico ao redor da páscoa.  

            Com profunda sabedoria espiritual, a esta altura do Ano Litúrgico, a Igreja celebra em sequência a Solenidade de Todos os Santos e a memória de todos os defuntos - ordinariamente nos dias 1 e 2 de novembro; no Brasil, a Solenidade de Todos os Santos, por motivos pastorais, foi transferida para o domingo como veremos. Nos santos, ela contempla alegre e agradecida, a manifestação mais plena da fecundidade da páscoa do Senhor e os frutos que o Espírito tem produzido em tantos discípulos e discípulas de Jesus. Com os defuntos, a Igreja confirma a comunhão fraterna que une na mesma fé todos os membros do povo de Deus peregrino na história, e a esperança de partilhar a plenitude da vida na casa do Pai, junto com todos aqueles e aquelas “cuja fé somente Ele conhece” (Oração Eucarística IV).

            As duas celebrações exprimem as duas faces inseparáveis da participação ao Mistério Pascal de Cristo: a comunhão fraterna no caminho da fé e a esperada partilha da plenitude da vida em Cristo. O caminho da fé se desenvolve através da complexidade e das contradições próprias da existência humana, cujo cume imediato e dramático é a morte, cuja meta, porém, é a plenitude da vida na “ressurreição da carne”, como se exprime a solene profissão de fé que recitamos todos os domingos. O Verbo de Deus assumiu livremente nossa condição humana, e a libertou da sua caducidade com sua morte e ressurreição.

A esperança cristã, não anula o sofrimento e o medo da morte, mas antecipa este processo dinâmico da fé e da vida, e o contempla realizado no próprio Cristo ressuscitado, primogênito dos ressuscitados (cf Cl 1, 18). “Em Cristo, brilhou para nós a esperança da gloriosa ressurreição... Para os que crêem em vós a vida não é tirada mas transformada” (Prefácio dos defuntos).

O que “consola”, isto é, o que sustenta o cristão diante do drama da morte, não são palavras de sabedoria e de solidariedade humana, mas é a esperança de participar à ressurreição do próprio Cristo. Os santos, dos quais hoje celebramos a memória, constituem o exemplo crível de pessoas que, pela própria conformação ao Cristo, conseguiram apreender a viver como ressuscitados desde o presente, segundo a potencialidade interior que o batismo desperta como semente de ressurreição. “Se pois, ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde Cristo está à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, e não nas da terra, pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus: quando Cristo, que é vossa vida, se manifestar, então vós também com ele sereis manifestados na glória” (Cl 3, 1-4)

            Se, por razões pastorais, com a intenção de facilitar a participação dos fieis, - como acontece no Brasil - a Solenidade dos Santos é transferida ao domingo seguinte, separando-a de alguns dias da memória dos defuntos, é preciso salvaguardar, com sábia pedagogia pastoral, a unidade interior que une as duas celebrações. Ela ilumina o mistério da morte e da vida com a luz da páscoa de Cristo, e fundamenta corretamente a devoção aos santos, que o povo cristão gosta tanto, e nem sempre, porém, vive em maneira iluminada e fecunda.

Os textos dos prefácios citados ao início desta meditação confirmam a unidade de horizonte das duas celebrações. Gostaria sugerir, come exercício de uma especial Lectio Divina pessoal, uma leitura meditada paralela dos seus textos bíblicos e litúrgicos. É significativo como a Igreja, ao celebrar o mistério da páscoa do seu Esposo, na Oração Eucarística, lembra em conjunto a memória dos defuntos e dos santos, enquanto pede a intercessão destes para o povo ainda peregrino na fé. “Communicantes et memoriam celebrantes... omnium sanctorum tuorum”, diz o venerável Cânon Romanus. “Em comunhão com todos os santos... nós vos pedimos”, repetem também todasas novas Orações Eucarísticas, como expressão de uma mesma e constante fé e espiritualidade pascal.

Com a primeira leitura (Ap 7), o profeta, na luz do Espírito vislumbra o sentido profundo dos acontecimentos dramáticos da história do seu tempo e de todos os tempos, e a vitória de Deus sobre os inimigos da vida. Na verdade, somente em Cristo morto e ressuscitado, a história desvela seu mistério, como exprime o grande símbolo do Cordeiro imolado, porém vivente, Ele, o único a ter a capacidade de abrir os selos que fecham o livro da vida, e que ninguém consegue ler e menos ainda entender (cf Ap 5,6-14).

Com a linguagem simbólica própria do gênero literário chamado de “apocalíptico”, enquanto utilizado em escritos cujos autores pretendem anunciar acontecimentos misteriosos e desvelar o sentido oculto deles, São João interpreta a sofrida situação dos cristãos do seu tempo, e abre os corações deles à esperança da salvação, pois Deus já mostrou sua potência ressuscitando Jesus dos mortos. 

O autor inspirado oferece seu anúncio, através de imagens que evocam o êxodo de Israel do Egito e uma solene liturgia no templo, onde o Cordeiro pascal imolado se apresenta vivente. Tais imagens, para os leitores cristãos evocam experiências espirituais mais profundas: a experiência da libertação do pecado no batismo, e a do culto ao Senhor Jesus, Morto, Ressuscitado e glorificado à direita do Pai. Ele anima e guia o caminho do seu novo povo.

A imagem do anjo que traz a marca, o selo, do Deus vivo, e impede aos anjos exterminadores de danificar a criação “até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus” (Ap 7, 2-3), é imagem altamente evocativa por aqueles que tinham recebido o selo do Espírito no batismo.

O sangue do cordeiro, imolado na tarde que precedia a primeira páscoa de Israel, posto em cima da porta das casas dos israelitas, indicava que os moradores pertenciam ao povo de Israel, e por isso ao Senhor. Ao ver o sangue ele “passa além” (o verbo hebraico indica a “páscoa” como “passagem” do Senhor ), e poupa as famílias de Israel do extermínio dos primogênitos do Egito (cf Ex 12,7-14).

O selo do Deus vivo que, na visão do Apocalipse, marca os servos do Senhor, constitui o sinal de proteção e de pertença definitiva ao Senhor. “Pertencer ao Senhor” significa ser introduzido por graça e ficar numa relação profunda com ele, sendo constituído em comunhão permanente com ele mesmo. O escolhido ganha uma nova identidade, expressa pelo “nome novo” que lhe dá o próprio Senhor. “Não temas, porque eu te resgatei, chamei-te pelo nome: tu és meu.... Não temas, porque estou contigo” (Is 41, 1.5). O profeta anuncia que a antiga eleição pelo Senhor, é penhor de nova experiência de libertação, graças ao derrame do seu Espírito, que cria uma pertença definitiva ao mesmo Senhor: “Derramarei o meu espírito sobre a tua raça, e a minha bênção sobre os teus descendentes.... Este dirá: ‘Eu pertenço ao Senhor!’. E aquele se chamará pelo nome de “Jacó”. Enquanto aquele outro escreverá na sua mão: ‘Pertenço ao Senhor!’, e receberá o nome de “Israel”( Is 44, 3.5).

Os profetas resumirão o sentido profundo da aliança de Deus com Israel, na famosa fórmula “Eu serei Deus para vocês, e vocês serão povo para mim” (cf Jer 31,33b; Ez 37,27).

O apóstolo Paulo diante dos coríntios, que estão desconfiando da fidelidade do apóstolo à palavra dada, afirma com vigor que a capacidade de ficar fieis a Cristo vem de Deus, graças ao dom do Espírito, selo de Deus e penhor de vida nova: “É Deus quem nos mantém, a nós e a vós, fieis a Cristo; ungiu-nos, selou-nos e pós em nosso coração o Espírito como penhor” (2 Cor 1, 21-22). (tradução da Bíblia do Peregrino).

O Espírito é a “unção” que conforma a Cristo, o “Ungido” do Pai; guia o discípulo no seguimento e na sua imitação, e atua na consciência do batizado como penhor da vida eterna (Rm 8, 9-11). E na grande perspectiva da vida cristã, como expressão do dinamismo da santa Trindade, o apóstolo sublinha: “Por meio dele (Cristo), também vós, ao escutar a mensagem da verdade, a boa notícia da vossa salvação, nele crestes, e fostes selados com o Espírito Santo, que é garantia de nossa herança, do resgate de sua posse: para louvor de sua glória” (Ef 1, 13-14) (tradução da Bíblia do Peregrino).

Pelo contrário, “se alguém não tem o Espírito de Cristo, não lhe pertence” (Rm 8, 9).

Pertencer ao Senhor, graças ao dinamismo transformador do Espírito, é graça, vocação e tarefa. É processo dinâmico, que acompanha o discípulo de Jesus do batismo até a morte, acolhida na fé, como o último mergulho nas águas da páscoa de Cristo, o seio materno que no Espírito gera à vida nova e eterna.

A história é o tempo, concedido pela misericórdia de Deus, no qual o anjo do Senhor está marcando na fronte dos eleitos o selo que indica a pertença ao Senhor. É tempo de espera e de misericórdia. É tempo de trabalho incessante, pois o anjo há de marcar com o selo de Deus, não somente os descendentes de Abraão e de Jacó (os simbólicos cento e quarenta e quatro mil...), mas também “a multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, que ninguém podia contar” (Ap 7, 4.9).  

Todos os seres humanos, e cada um segundo suas especificidades, são acolhidos entre os “escolhidos” por Deus. O Cordeiro que está junto de Deus, com seu sangue resgatou todo ser vivente (Ap 7,13). No Cordeiro, o original projeto de Deus voltou às suas origens, e a seu cumprimento, ao mesmo tempo. A confluência no novo povo de Deus no dia de Pentecostes, por parte de alguns judeus e de membros dos povos pagãos (cf At 2, 1-11), constitui uma antecipação e uma profecia da universal convergência na casa de Deus de todos os povos, na Jerusalém celeste. 

A Igreja, afirma a constituição Lumen Gentium, “é em Cristo como que o sacramento ou sinal e instrumento da intima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” ( LG1). Enquanto continua peregrinando no tempo e nas vicissitudes humanas, ela nos oferece, na luz da fé e na celebração da sagrada liturgia, uma antecipação da realidade plena que o Espírito do Senhor está misteriosamente construindo dentro das pessoas, das culturas e das experiências humanas de sabedoria espiritual.

A peregrinação da Igreja chegará à sua meta definitiva, e a liturgia provisória da terra cederá seu lugar à liturgia celeste e perene, que é o cântico de louvor dos salvados. Todos os justos desde Adão, “do justo Abel até o último eleito”, serão congregados junto ao Pai na Igreja universal (São Gregório Magno, Hom in Ev, 19,1; LG 2).

A memória dos defuntos e a solenidade de todos os santos nos oferecem de antemão um generoso antegozo desta realidade escatológica. Elas nos empenham a nos tornarmos promotores de comunhão e de paz, entre as pessoas, as culturas, as religiões.

As duas celebrações interpretam, juntas, a realidade profunda de toda vida cristã: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos!...caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! (1 Jo 3, 1-2 - 2 leitura).

Este é o tesouro precioso que os “puros de coração” conseguem vislumbrar desde já e que alcançarão no reino de Deus. Esta é a herança divina reservada aos “pobres em espírito” (Mt 5, 3.8 – evangelho ).

Conscientes dos nossos limites, mas animados pela esperança suscitada ao contemplar a nova humanidade que segue cantando o Cordeiro na Jerusalém celeste, juntos com a humanidade inteira imploramos ao Senhor: ”que a vossa graça nos santifique na plenitude do vosso amor, para que, desta mesa de peregrinos, passemos ao banquete do vosso reino” (Oração depois da comunhão).