Liturgia da Palavra: Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

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SÃO PAULO, quinta-feira, 25 de agosto de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos o comentário à Liturgia da Palavra do 22° domingo do Tempo Comum – Js 20, 7-9; Rm 12, 1-2; Mt 16, 21-27 –, redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo Pontificio Ateneo Santo Anselmo (Roma), Dom Emanuele é monge beneditino camaldolense.

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22° DOMINGO DO TEMPO COMUM –A

Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir

Leituras: Js 20, 7-9; Rm 12, 1-2; Mt 16, 21-27

O profeta Jeremias é o grande protagonista da primeira leitura e o guia que nos introduz no evangelho deste domingo. A tradição cristã vislumbrou, na sua vicissitude histórica e interior, uma profecia, e quase uma antecipação da sorte de Jesus, na sua missão de messias e servo sofredor, chamado pelo Pai a ser instrumento de salvação, não somente para o povo de Israel, mas para todos os povos e nações.

Pressuposto desta inteligência espiritual do mistério de Cristo é a convicção de fé que o único desígnio de salvação de Deus foi manifestado gradualmente no AT e realizado plenamente em Jesus, na sua missão, morte e ressurreição. Jesus faz a unidade dos dois testamentos.

A Liturgia da Palavra de hoje pressupõe esta visão de fé. Faz-nos viver de perto um dos momentos mais dramáticos da vicissitude do profeta e daquela de Jesus. Descobrimos entre os dois protagonistas afinidades assustadoras e diferenças profundas, na maneira com a qual eles reagem diante do sofrimento e do perigo extremo, determinados pela escolha de dar resposta fiel e perseverante à própria vocação e missão. Nas experiências do profeta e de Jesus vislumbramos, refletido como num espelho, algo da nossa experiência pessoal, enquanto pessoas chamadas pelo Pai a seguir Jesus no caminho do reino.

Ao lembrar o drama humano e espiritual de Jeremias e de Jesus, poderíamos ficar admirados e até comovidos, como leitores sensíveis de nobres histórias do passado, capazes de tocar nossos sentimentos e de nos edificar. A mãe Igreja, porém, através da liturgia, nos ajuda a descobrirmos que desta mesma história, humana e divina ao mesmo tempo, somos não somente leitores atentos, mas co-protagonistas.

Jesus o afirma claramente, quando admoesta a Pedro que a sorte de todo discípulo, se ele quer tornar-se autêntico, não pode ser diferente da sua própria, nem daquela do profeta. O caminho de Deus é único e sempre o mesmo. Deus continua conosco sua surpreendente história: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24). E Paulo, na carta aos Romanos, destaca: “Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar” (Rm 12,2).

Ao nos afinarmos com a pedagogia de Deus, realizamos a maneira verdadeira de dar culto a Deus no Espírito, como profetizou Jesus à mulher de Samaria (Jo 4, 20-24), e como convém aos que nasceram à vida nova do Espírito pela fé e pelo batismo, segundo o ensinamento do apóstolo (Rm 12, 1-2).

A primeira leitura (Jr 20,7-9) abre, por assim dizer, uma pequena janela sobre a aventura interior do profeta. Pequena certo, mas o suficiente para nos deixar penetrar um pouco nos abismos da alma deste homem, sensível e delicado, chamado por Deus a tornar-se seu porta-voz para anunciar, com determinação e insistência, ao povo e às autoridades religiosas e políticas, as exigências da aliança e a necessidade de uma conversão radical ao Senhor.

Uma palavra “para arrancar e para destruir, para exterminar e para demolir, para construir e para plantar” (Jr 1,10). Esta é a palavra entregue pelo Senhor ao profeta, embora ele tente fazer valer sua inexperiência, por ser jovem e desprovido de eloquência (cf Jr 1, 6). Uma missão desafiadora, que pode basear-se só na promessa de Deus: “Não digas que és jovem... Não temas, diante deles, pois eu estou contigo para te salvar” (Jr 1, 7- 8). Uma palavra destinada inexoravelmente a incomodar os poderes constituídos e mesmo as falsas seguranças religiosas do povo, fundamentadas nas práticas exteriores sem compromisso de vida (cf Jr 7, 1-15).

A violenta reação dos poderes e o abandono, até por parte dos amigos e familiares (cf Jr 12,6), suscita no profeta a sensação que o próprio Deus o tenha abandonado à sua sorte. Daqui repetidas crises interiores sobre a própria vocação de profeta ao serviço do Senhor.

Eu, como cordeiro manso levado ao matadouro, não sabia dos planos homicidas que tramavam contra mim... Mas tu, Senhor dos exércitos, julgas retamente, sondas as entranhas e o coração; a ti confiei minha causa, que eu consiga vingar-me deles” (Jr 11,19-20).

A relação com Deus conhece alternações entre doces intimidades e tons de combate corpo a corpo. Cantos de vitória e queixas por ter sido enganado e seduzido pelo Senhor como por um amante enganador. “Seduziste-me Senhor, e deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder” (Jr 20,7).

Lacerações da alma, dúvidas sofridas mesmo sobre a confiabilidade de Deus, tentação de abandonar o campo, devido às contrariedades suscitadas pelo anúncio fiel da palavra perturbadora do Senhor. Mas é impossível se subtrair ao fogo do Senhor! “A palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro. Disse comigo: ‘Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele’. Senti então dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo; desfaleci, sem forças para suportar” (Jr 20, 8-9).

Mesmo no meio de tamanhas tempestades, o profeta renova sua entrega ilimitada ao Senhor e chega a cantar a vitória que vem de Deus: “Mas o Senhor está comigo como poderoso soldado, meus perseguidores tropeçarão e não me vencerão; sentirão a vergonha do seu fracasso, um rubor eterno e inesquecível” (Jr 20,11).

Revigorado pela fidelidade confirmada de Deus ao seu plano de salvação e pela confiança renovada na vitória final do seu amor misericordioso sobre o mal, Jeremias abre ao final a perspectiva da aliança, “nova e eterna” que o próprio Deus vai estabelecer no futuro com seu povo. Ela será inscrita diretamente no coração das pessoas pelo Espírito, e será implementa por ele mesmo (cf Jr 31, 31-34). No seu trajeto pessoal, trágico e sublime, o profeta experimenta primeiro o alvejar deste novo dia.

A carta aos Hebreus interpreta a totalidade da existência de Jesus, desde a misteriosa comunhão do Verbo com o Pai no seio da Trindade até a cruz, como uma oferta sacerdotal ininterrupta, apresentada pelo mesmo Jesus ao Pai, em comunhão de amor com toda humanidade pecadora, para resgatá-la através da nova aliança estabelecida no seu sangue (Hebr 10, 5-14).

O apóstolo João destaca que o processo de interiorização da aliança nova e definitiva em Cristo, morto e ressuscitado, é cumprido pelo Espírito Santo no coração de todo discípulo de Jesus (cf I Jo 2.27).

            Os evangelhos destacam que Jesus renovou continuamente seu compromisso com sua missão em plena adesão à vontade do Pai, passando através repetidas provações, acompanhadas por noites de intensa oração, até o último combate no horto das oliveiras: “Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice: contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 2639). Suas últimas palavras na cruz serão palavras de perdão aos que o estão crucificando e de entrega incondicional ao Pai.

Também o canto confiante do profeta e a dilatação das suas perspectivas sobre o futuro,  serão a meta final de um caminho longo e  atormentado, fruto de repetidas conversões ao Senhor, renovado dom de graça, assim como dom de graça foi sua primeira escolha e consagração como profeta por parte do Senhor, quando ele se encontrava ainda guardado  no ventre de sua mãe (cf Jr 1, 5). 

Este percurso interior, tão aderente ao desígnio misterioso de Deus e tão dramático, é-nos oferecido e partilhado, com excepcional intensidade literária e espiritual, nas chamadas “confissões” de Jeremias que se encontram no seu livro: cc.11; 15; 17; 18; 20. Que cada um tenha a graça e a coragem de se confrontar, com humildade e confiança, com o caminho do profeta!

Estes textos representam não só etapas e aspectos fundamentais da autobiografia interior do profeta, mas vão além. Constituem testemunhos excepcionais de um caminho interior que supera os limites da história individual de Jeremias. Afirmam-se como modelos de todo caminho espiritual.

A história da espiritualidade cristã nos oferece inúmeros exemplos de homens e mulheres, profundamente apaixonados por Deus, que tem atravessado o mesmo deserto e experimentado as mesmas provações. Através deste trajeto eles são conduzidos pelo Senhor à mesma intimidade com ele, intimidade esta possibilitada pelo esvaziamento de toda resistência humana. Estas pessoas tem realizado em si mesmas a passagem do tríduo pascal de Jesus, através da paixão e da morte, assumidas como entrega confiante em Deus, até a ressurreição, à vida nova do Ressuscitado.

O evangelho de hoje mostra como Jesus viveu por primeiro este caminho, assumindo-o em plena consciência e liberdade. Ele o indica também aos discípulos. Somente a transformação do coração deles, cumprida pelo Espírito depois da páscoa, conseguirá conduzi-los à plena sintonia com o mestre. O texto testemunha a incapacidade dos discípulos, interpretada por Pedro, de se conformar a ela.

Jesus começou a mostrar a seus discípulos que devia ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos e que devia ser morto e ressuscitar no terceiro dia”. A “necessidade” da qual Jesus fala, não é a violência dos homens que ele não conseguiria fugir, mas o misterioso desígnio do Pai, que ele pretende assumir plenamente, porque nele se manifesta em plenitude o amor do Pai e o amor de Jesus.

Paradoxo do amor divino que se imola para criar vida! Mistério da fragilidade do homem, que Deus não rejeita, mas resgata!

O mesmo Pedro, declarado pouco antes por Jesus “iluminado pelo Pai,” e “bem-aventurado”, por ter proclamado com confissão de fé autêntica em Jesus “filho do Deus vivo” ( cf Mt 16, 16-18), é afastado por Jesus, porque atua como “Satanás”, aquele que atrapalha seu caminho. Escolhido por Jesus a ser “pedra de fundação” da sua Igreja, Pedro agora se revela, ao invés, como “pedra de tropeço”, pois “não pensa as coisas de Deus mas as coisas dos homens” .

Ele se manifesta ainda totalmente estranho ao caminho de Deus e de Jesus: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso nunca te aconteça!” (Mt 16,22-24).

A resposta de Jesus aponta seu próprio caminho, como caminho a ser partilhado por todo discípulo: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar sua vida vai perdê-la; e quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 16,24-25). Paulo reafirma a exigência desta reviravolta na maneira de julgar e de atuar por parte do cristão, como condição de viver em maneira coerente com a nova condição de renascidos no Espírito (Rm 12,1-2). 

Viver segundo os novos critérios inspirados pelo Espírito de Jesus, é a maneira de dar o verdadeiro culto a Deus, pois “a glória de Deus é o homem que vive a vida de Deus” (Santo Ireneu).