Liturgia da Palavra: Uma fonte de água que jorra para a vida eterna

Por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração

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SÃO PAULO, quinta-feira, 24 de março de 2011 (ZENIT.org) - Apresentamos o comentário à liturgia do próximo domingo – III da Quaresma Ex 17, 3-7; Rm 5,1-2. 5-8; Jo 4, 5-42 – redigido por Dom Emanuele Bargellini, Prior do Mosteiro da Transfiguração (Mogi das Cruzes - São Paulo). Doutor em liturgia pelo ‘Pontificio Ateneo Santo Anselmo’ (Roma), Dom Emanuele, monge beneditino camaldolense, assina os comentários à liturgia dominical, às quintas-feiras, na edição em língua portuguesa da Agência ZENIT.

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DOMINGO III DA QUARESMA

Leituras: Ex 17, 3-7; Rm 5,1-2. 5-8; Jo 4, 5-42

Jesus disse à mulher: “Dá-me de beber”.... A mulher disse a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede “(Jo 4, 7; 15). Poderíamos resumir nestes dois intensos pedidos recíprocos, o longo diálogo entre Jesus e a mulher de Samaria junto do poço de Jacó.  Ainda mais, neles poderíamos reconhecer o eco da longa e dramática história da incessante busca de Deus pelo homem e da procura, às vezes mesmo que confusa, do homem por Deus. Deus está sedento do homem, e o homem fica sedento de Deus. Melhor, Deus, ao procurar o homem no seu amor, desperta nele a sede de si. 

O grito de Jesus na cruz, “Tenho sede” (Jo 19,28), é seguido imediatamente pelo jorrar das últimas gotas de sangue e de água do seu lado transpassado. Delas traz origem e vida o novo povo de Deus, o “admirável sacramento da Igreja”, como se exprime uma antiga oração da liturgia romana, moldada sobre o pensamento de Santo Agostinho, e retomada pela constituição sobre a liturgia, Sacrosanctum Concilium n. 5. 

O grito de Jesus no ato da sua doação suprema diz que esta sede de Deus pelo homem não está placada: a história desta busca divina fica aberta para sempre. O grito se torna um urgente apelo para o homem tomar consciência que também seu coração fica sedento por Deus, para sempre. A sede de um pelo outro constitui a alma mais profunda e secreta da inteira história humana: “O Espírito e a esposa dizem: ‘Vem!’. Que aquele que ouve diga também: ‘Vem!’. Que o sedento venha, e quem o deseja, receba gratuitamente água da vida” (Ap 22, 17). 

Deus está à procura do homem desde suas origens, quando o colocou no jardim, irrigado pelos quatro rios e rico de árvores e de frutos, como no seu “lugar natural”, entregue ao seu cuidado e responsabilidade (cf. Gn 2, 8-15). Ali o chama e o espera, como meta do seu longo peregrinar e sofrer. Os redimidos pelo sangue do Cordeiro e que se fizeram seus seguidores alcançam enfim a felicidade plena no novo jardim da ressurreição: “nunca mais terão fome, nem sede, o sol nunca mais os afligirá, nem qualquer calor ardente; pois o Cordeiro vencedor da morte os apascentará, conduzindo-os até as fontes da água da vida” (Ap. 16-17).

Jesus convida todo sedento ao encontro pessoal consigo mesmo, com a promessa que do interior de quem o procura com fé “jorrarão rios de água viva”, isso é o Espírito, dom primeiro da sua ressurreição, e herança dos batizados (cf. Jo 7,37-39). Dele nasce todo desejo, toda aspiração à plenitude, toda força para perseverar na procura do objetivo que se deixa vislumbrar na esperança.

O batismo mergulha o cristão na própria nascente da água viva, que continuará a fecundar a sua inteira existência. 

Experiência de plenitude, e ao mesmo tempo urgência de uma sede insaciável, expressão de uma fé às vezes incipiente, que cresce com o progresso do amor, e leva consigo a força para perseverar que é própria  da esperança. “Ao pedir à samaritana que lhe desse de beber, Jesus lhe dava o dom de crer. E, saciada sua sede de fé, lhe acrescentou o fogo do amor” (Prefácio do Domingo). E a esperança, ao longo do caminho, não decepciona na sua tensão rumo à plenitude, pois “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (2ª leitura, Rm 5, 5).   

Agora amamos na esperança – comenta Santo Agostinho - todavia possuímos as primícias do Espírito, e talvez de algo mais. Aproximamo-nos de quem amamos e, embora por uma gotinha, já provamos e saboreamos aquilo que avidamente comeremos e beberemos” (Sermão 21,3; LH IV, pg 478).

Os exegetas ressaltam que o trecho de Jo 4, 5- 42 é estruturado através de uma linguagem simbólica muito complexa e rica de alusões teológicas e espirituais, que emergem a partir da experiência concreta e do diálogo de Jesus com a mulher de Samaria. No pano de fundo da narração do encontro, o evangelista deixa ressoar a grande experiência histórica e espiritual dos patriarcas de Israel, cujo caminho é direcionado na fé pelo próprio Deus, através de providenciais encontros dos protagonistas, junto dos poços do deserto. 

Ao colocar o encontro perto do poço de Jacó nos arredores de Samaria, João deixa vislumbrar que Jesus realiza a aliança, ansiada pelos patriarcas e descrita pelos profetas como casamento de Deus com Israel, no amor e na fidelidade. No tempo do messias, ela seria estendida de Israel para todos os povos, representados pelos samaritanos, considerados infiéis e semi-pagãos. 

Este horizonte de sentido fundamental do evento introduz o leitor e a nova comunidade na dimensão da aliança pascal e universal do ministério e da morte e ressurreição de Jesus. Ela vive para dar testemunho do amor salvífico e universal de Deus para com todos os homens e as mulheres, qualquer que seja a condição deles. Mesmo os “samaritanos”, os diversos, os problemáticos, os excluídos, segundo as categorias sociais e religiosas vigentes, são destinatários deste amor que “tem sede” de todos, e a todos oferece a possibilidade de encontrar a “água que dá vida”, aquela que no fundo eles estão procurando mesmo em seus desvios. Esta atitude de procura, benevolência e misericórdia marca toda a atividade e a pregação de Jesus, e será razão de escândalo para os “bem-pensantes” sociais e religiosos, e causa não última de sua decisão de matar Jesus.   

Ao pedir água à mulher de Samaria, para saciar sua sede, é o próprio Jesus a se aproximar, partilhando a mesma fraqueza e necessidade dela e de todo homem e mulher. Com seu gesto desperta a consciência dela para a procura mais profunda que ela traz consigo, e acaba oferecendo à sua fé o manancial perene do Espírito que brotará dentro ela mesma (Jo 4, 13-15). 

“Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas, pois meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11, 28-30).

O encontro revela paulatinamente toda a sua dimensão pascal, e deixa entender a razão pela qual, desde as origens das comunidades apostólicas, este evento tão central no evangelho de João assumiu uma função tão importante na catequese do batismo e no caminho da iniciação cristã: encontro pessoal com Jesus que suscita a fé e abre a uma procura sem fim do sentido da própria vida e de Deus, profissão da fé em Jesus salvador e filho de Deus, vida renovada no Espírito que se torna o verdadeiro culto a Deus, testemunho e missão, que se irradia espontaneamente da experiência da boa nova libertadora vivenciada na relação com Jesus. 

No evento das núpcias de Caná, por sua vez cheio de sentido pascal e pré-anúncio da aliança nova e eterna, Jesus já tinha mudado a água em vinho, símbolo da transformação da pequenez do homem para a superabundância divina. O evangelista frisa que este foi o primeiro sinal em quem Jesus manifestou a sua “glória” divina, solidária com os homens e que despertou a fé dos discípulos (Jo 2, 12).  

Na preparação das oferendas para a eucaristia está um pequeno rito, talvez percebido por poucos, sobretudo no seu significado simbólico. É o gesto com que o sacerdote derrama algumas gotas de água no cálice, misturando-as com o vinho. O gesto litúrgico vai além da solidariedade transformadora de Jesus nas núpcias de Caná, assim como no encontro-intercâmbio com a samaritana. O vinho e a água misturados são apresentados ao Senhor, para que pela força vital da sua Palavra e do Espírito Santo, sejam transformados no sangue vivo de Cristo que sacia a sede do seu povo. Pois é a páscoa do Senhor a nascente perene da água viva.

Jesus abre esta animadora perspectiva também para o caminho da nossa vida. Um caminho sujeito a tantas provações, tentações, fadigas, e mesmo desvios, como testemunha a dura experiência de Israel no deserto, embora tivesse já experimentado a fiel providência de Deus (1ª leitura - Ex 17, 3-7). Porém, no fundo de si  mesmo, este incerto vagar guarda a saudade da sua nascente e da sua meta, mesmo quando acaba perdendo o contato com a nascente da água viva, para construir com suas próprias mãos cisternas rasgadas, atraído por projetos que se revelam inconsistentes e vazios.  

É forte a admoestação do profeta: “O que encontraram os vossos pais em mim de injusto, para que se afastassem de mim e corressem atrás do vazio, tornando-se eles mesmos vazios?” (Jr 2, 5). “Meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, fonte de água viva, para cavar para si cisternas, cisternas furadas, que não podem conter água” (Jr 2, 13). O salmista, porém, interpreta com esperança o que permanece ao fundo do coração e que pode abrir novos caminhos: “Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando voltarei a ver a face de Deus?” (Sl 42,3). 

De onde estamos atingindo nossa água: do manancial vital do Espírito que fica jorrando dentro de nós, ou das cisternas rasgadas que o mundo nos proporciona ?

As razões da esperança e da alegria permanecem mesmo na inextricável textura das fraquezas e das falhas. “Vinde, exultemos de alegria no Senhor, aclamemos o rochedo que nos salva!... Porque ele é o nosso Deus, nosso pastor, e nós somos seu povo e seu rebanho, as ovelhas que conduz com sua mão” (Sl. 94, Responsorial).

A sociedade moderna se torna sempre mais secularizada. Para muitas pessoas Deus é o “ausente”. Uma recente análise sobre a situação da pessoa na nossa sociedade destaca que o homem contemporâneo, todavia, mesmo no drama das situações existenciais, espera conhecer e encontrar não simplesmente a volta do “sagrado” no sentido genérico, mas o Deus dos viventes e que dá a vida. Ele busca a Deus, sente nostalgia da sua presença. 

A nostalgia nasce das desilusões deixadas pelo que foi imaginado e seguido como “deus”, capaz de satisfazer a sede de sentido da existência. Também as oportunidades de melhoria material e as propostas culturais da nossa época se estão manifestando insatisfatórias, em relação à fome e à sede mais profunda do coração humano. Re-emerge com insistência a necessidade de dar sentido a uma vida, mais rica de oportunidades materiais e ao mesmo tempo tão frágil, e quase desertificada interiormente. “Meu alento já vai se extinguindo, e dentro de mim meu coração se assusta... A ti estendo meus braços, minha vida é terra sedenta de ti” (Sl 143,4.6).

A experiência do nosso tempo confirma a antiga e sempre atual confissão de Santo Agostinho: “Fizeste-nos para ti, Senhor, e inquieto está nosso coração enquanto não repousa em ti” (Confissões, Livr.1, 1; LH do 9º Domingo do Tempo Comum).

A aspiração mais profunda, consciente ou menos, que habita o coração do homem e da mulher é o desejo da vida, do bem, da felicidade. Este desejo se torna uma “invocação incessante” para seu cumprimento.

Teu desejo é a tua oração; se o desejo é contínuo, também tua oração é contínua... Se teu desejo é contínuo, a tua voz é contínua. Ficarás calado, se deixares de amar. ... Se o desejo permanece, também permanece o gemido; este nem sempre chega aos ouvidos dos homens, mas nunca está longe dos ouvidos de Deus”  (Santo Agostinho, In Psalmos 37,14; LH IV, 264).