López Barahona: “A clonagem humana é utilitarista e antinatural”

Entrevista com membro do novo conselho diretivo da Academia para a Vida

| 1461 visitas

Por Patricia Navas

MADRI, domingo, 25 de julho de 2010 (ZENIT.org) – No dia 22 de junho, o Papa renovou o conselho diretivo da Academia Pontifícia para a Vida, nomeando quatro membros: o bispo auxiliar de Santiago do Chile, Dom Fernando Natalio Comalí Garib, e os professores Mounir Abdel Messih Shehata Farag (Egito), John Hass (Estados Unidos) e Mónica López Barahona (Espanha).

O conselho diretivo da Academia Pontifícia para a Vida é renovado a cada cinco anos, e o Papa e o presidente da Academia delegam a ele determinadas questões.

ZENIT entrevistou um dos novos membros, a espanhola Mónica López Barahona, professora de Oncologia molecular e Bioética na Universidade Francisco de Victoria e diretora geral da acadêmica do Centro de Estudos Biosanitários e da Cátedra de Bioética Jérôme Lejeune.

Na entrevista, a doutora, membro da Academia Pontifícia para a Vida desde 2006, oferece as razões pelas quais a ciência explica que a vida humana começa a partir da fecundação e destaca os principais avanços e ameaças atuais a respeito da vida humana.

ZENIT: Em sua opinião, quais são os principais avanços alcançados na defesa da vida humana?

Mónica López Barahona: A verdade é que são muitos. Eu talvez destacaria que hoje em dia a ciência fornece, a partir de diferentes áreas de conhecimento (Biologia Celular, Genética Molecular, Embrionária), dados inequívocos sobre a existência da vida humana a partir do momento em que o espermatozoide fecunda o óvulo.

Sabemos também que desde a primeira divisão celular há um compromisso de diferenciação em cada um dos blastômeros que permite diferenciar um do outro.

Foram definidos com parâmetros biomédicos a morte e foi constatado que as células-tronco embrionárias não são uma alternativa terapêutica.

São somente alguns dos grandes marcos dos quais a última década foi testemunho.

ZENIT: Pode ser demonstrado cientificamente que a vida humana começa com a fecundação?

Mónica López Barahona: Sim. A biologia celular define a célula como unidade de vida, e pela genética molecular sabemos que existem no genoma humano ao menos 7 mil sequências ALU específicas da espécie humana.

Portanto, diante de um zigoto humano ou embrião unicelular, pelo fato de ser uma célula, nós nos encontramos frente a uma unidade de vida e por possuir em seu genoma estas sequências ALU, trata-se de vida humana.

Esta afirmação correta para o zigoto, seria também certa para outro tipo celular. Agora, o zigoto é a única célula que contém em si (de modo em que possa conter um organismo unicelular) todas e cada uma das estruturas que configuram o indivíduo da espécie humana.

De fato, se permitir seu desenvolvimento, durante as 42 semanas que dura a gestão na espécie humana, estas estruturas irão se manifestar em tempo e forma.

Isso só ocorre com o zigoto, já que somente ele é um indivíduo da espécie humana em estado unicelular. 

Se for transferido ao útero de uma mulher, uma célula epitelial ou renal, as estruturas não iriam se manifestar em tempo e forma que configuram o indivíduo da espécie humana, apesar de que tal célula epitelial ou renal contém o mesmo genoma que contém o zigoto do qual surgiu.

ZENIT: Em que momento ou com quais critérios se considera hoje que a vida humana chega ao seu fim?

Mónica López Barhona: O critério aceito cientificamente para considerar que a vida chegou ao fim é critério da morte cerebral.

ZENIT: Quais esperanças podemos ter nas células-tronco adultas e nas células-tronco embrionárias?

Mónica López Barahona: Na data de hoje, julho de 2010, existem mais de 2.900 ensaios clínicos com células-tronco adultas e nenhuma com células-tronco embrionárias. 

Estes dados contidos no site www.clinicaltrials.gov manifesta que as células tronco embrionárias não são uma alternativa terapêutica para as patologia; as adultas são.

Além disso, deve-se sempre ser levado em consideração que a obtenção das células-tronco embrionárias leva à morte do embrião, enquanto a obtenção de células-tronco adultas não causa morte direta de forma alguma.

ZENIT: Deveriam pedir às mães para guardar seu cordão umbilical?

Mónica López Barahona: O cordão umbilical é um material biológico que tem um verdadeiro presente terapêutico e um futuro cheio de possibilidades, um material biológico que não deveria ser descartado.

ZENIT: Quais são as principais ameaças e atentados contra a vida humana na atualidade?

Mónica Lopez Barahona: O aborto, a fecundação in vitro, a utilização de embriões para pesquisa, o diagnóstico pré-natal e pré-implante e a eutanásia.

ZENIT: Quais soluções poderiam ser oferecidas ao problema dos milhares de embriões congelados?

Mónica López Barahona: Só há duas alternativas que respeitam a vida do embrião; ambas entram em âmbito de mal menor, pois houve uma desordem moral prévia que levou a congelar uma vida humana.

As únicas alternativas compatíveis a respeito da vida do embrião são: mantendo-os congelados por tempo indefinido até que eventualmente morram de “morte natural”; ou descongelá-los para transferi-los aos úteros de mulheres que desejam engravidar, alternativa que pode ser chamada de “adoção pré-natal”.

Esta segunda opção entende a vida como bem primário e busca seu desenvolvimento; para colocá-la em prática é necessário abordar muitas questões relacionadas e garantir que se ofereça como solução ao problema já apresentado, com a garantia de que no futuro não sejam gerados mais embriões para congelar.

ZENIT: Existem números concretos de quantos embriões congelados pode haver neste momento no mundo?

Mónica López Barahona: Os números não são rigorosos, nem em nível mundial, nem em cada país. Por exemplo, na Espanha não sabemos quantos embriões congelados existem.

ZENIT: Cada vez mais é facilitado o acesso à pílula abortiva. Que consequências têm sua utilização no organismo da mulher?

Mónica López Barahona: Pode ter consequências muito graves, pois está sendo oferecida como um método anticoncepcional a mais, e a pílula abortiva não é só anticoncepcional, já que se a concepção já foi produzida; provoca o aborto do embrião.

Trata-se de expor a mulher a uma administração não-fisiológica de hormônios e a potenciais hemorragias incontroláveis e nem sempre no contexto de um hospital ou centro de saúde. Ambas as coisas supõem um risco para a mulher e causam morte do embrião.

ZENIT: É possível fazer clonagem humana hoje? Que problemas existem?

Mónica López Barahona: A clonagem humana levanta vários problemas éticos: a geração de uma vida humana in vitro, geração da mesma sem contribuição do espermatozóide, seleção do genoma de um indivíduo humano no caso da denominada “clonagem terapêutica” para que este seja compatível com outro doente e o impedimento da recombinação genética natural em um processo de fecundação com intervenção dos gametas no caso da denominada “clonagem reprodutiva”.

Enfim, é uma prática utilitarista e antinatural.

Até hoje não há dados publicados sobre a clonagem humana reprodutiva e sim tentativas de clonagem humana “terapêutica”, nas quais o embrião gerado não foi desenvolvido ou não foi permitido seu desenvolvimento até fases avançadas do desenvolvimento embrionário.

ZENIT: Que significado tem sua nomeação na Academia Pontifícia para a Vida?

Mónica López Barahona: A academia tem um conselho diretivo que se renova a cada cinco anos, no qual o presidente e o Santo Padre delegam as questões que consideram adequadas. Espero poder ser um instrumento fiel ao serviço da Igreja por meio deste Conselho Diretivo da Academia da Vida. A tarefa está dividida por outros quatro membros escolhidos, todos eles pessoas de grande dimensão humana, intelectual e científica.

ZENIT: Como se dá, na prática, a assessoria dos especialistas à Santa Sé?

Mónica López Barahona: Na Academia Pontifícia para a Vida, normalmente se constituem grupos multidisciplinares de trabalho para estudar temas concretos vinculados a diferentes áreas da Bioética. O presidente convoca os que considera adequados para participar nos mesmos.

ZENIT: Como recebeu a nomeação?

Mónica López Barahona: Surpreendeu-me muito, muitíssimo mesmo. Após a recepção da nomeação, surgiu em mim uma profunda gratidão ao Santo Padre e ao presidente da Academia pela confiança que colocaram em mim. Pensei na certeza da disponibilidade que nós leigos devemos ter ao serviço da Igreja e... rezei, rezei e continuo rezando. Peço ao Senhor que me ajude a ser um instrumento fiel a sua vontade neste conselho diretivo.