Madre Teresa, a freira que desafiou o sistema de castas

Entrevista com o pe. Joseph Babu, porta-voz da Igreja indiana

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Por Mariaelena Finessi

ROMA, segunda-feira, 2 de agosto de 2010 (ZENIT.org) – Há quase cem anos, a 26 de agosto de 1910, nascia em Skopje, na Albânia, Anjeza Gonxhe Bojaxhiu, que viria a ser conhecida como Madre Teresa de Calcutá. Fundadora na Índia da congregação das Missionárias da Caridade, a irmã de pequena estatura dedicou toda sua existência aos marginalizados.

Tinha amigos influentes entre líderes políticos e artistas, mas, acima de tudo, estabeleceu uma ligação muito forte com João Paulo II. A ele, como a outros, pedia por orações e ajuda econômica aos mais pobres: em 1979, laureada com o Prêmio Nobel, recusou o tradicional banquete cerimonial e pediu que a verba que seria gasta fosse destinada aos miseráveis de Calcutá. Naquele dia, lhe perguntaram: “O que podemos fazer para promover a paz no mundo?”. E Teresa respondeu: “Voltem para suas casas e amem suas famílias”.

Nesta entrevista concedida à ZENIT, pe. Joseph Babu, porta-voz da Conferência Episcopal da Índia, fala da herança deixada por esta religiosa.

ZENIT: Qual foi impacto sobre a sociedade indiana da presença de Madre Teresa? Quais foram as principais mudanças ocorridas desde sua morte?

Pe. Babu: Madre Teresa exerce ainda um fascínio universal aqui na Índia. Pessoas de todos os credos e culturas têm-lhe alta estima, considerando-a uma santa. Vão ao seu túmulo orar por ela, e os eventos organizados para comemorar o centenário de seu nascimento atraem um grande número de pessoas. Em Nova Deli, as cerimônias públicas contarão com a presença do presidente da Índia, a 28 de agosto.

Muitas mudanças foram verificadas em sua congregação na medida em que esta continua a crescer a atrair jovens mulheres. Irmã Nirmala Joshi, que assumiu o lugar de Madre Teresa, tendo se convertido do hinduísmo ao catolicismo, é capaz de sensibilizar todos os setores da sociedade indiana: tem feito um trabalho admirável à frente das Missionárias da Caridade, a ponto de ser condecorada com a medalha Padma Vibhushan, a segunda mais alta honra civil concedida pelo presidente da Índia.

ZENIT: Madre Teresa recebeu o Prêmio Nobel da Paz no final dos anos 70. O que ainda resta de seu ensinamento?

Pe. Babu: O Nobel foi concedido por seu trabalho beneficente em favor dos mais pobres dentre os pobres. Graças a ela, muitas pessoas se sentiram inspiradas a se dedicar àqueles que estão à margem da sociedade.

Madre Teresa era uma mulher simples, mas muito estimulante, e a Igreja indiana tinha orgulho de sua presença e de sua contribuição para a sociedade. Muitas pessoas, inclusive não cristãs, são ainda hoje inspiradas pelo exemplo de sua vida e seu trabalho, dedicando-se a obras de caridade.

ZENIT: Quais foram as solicitações apresentadas à Igreja indiana por Madre Teresa?

Pe. Babu: Sua mensagem era muito simples: Jesus ama a todos. Ela exortou a Igreja a levar adiante esta missão de dar amor a todos, e de conceder a todos a possibilidade de salvação. Por onde passava, pedia sempre às pessoas que trabalhassem por Jesus.

Era também muito ativa diante dos problemas sociais que afligem a Índia, como o sistema de castas que oprime amplos segmentos da sociedade. Não se preocupava com as críticas que a acusavam de glorificar a miséria, ou ainda, que sua atuação não era capaz de conduzir a reais mudanças sociais. Poderia ter respondido gentilmente que havia sido chamada a fazer o pouco que era capaz, e que os outros poderiam fazer o mesmo.

ZENIT: Quais são os principais problemas que os católicos da Índia devem enfrentar hoje?

Pe. Babu: O problema principal e a ameaça por parte de grupos fundamentalistas de direita, que têm colocado nosso pessoal e nossas instituições sob sua mira. Nosso status de minoria tem sido ameaçado, o que torna mais difícil para nós administrar de modo estável a Igreja local. Nenhum missionário estrangeiro pode vir à Índia para um trabalho de longa duração, e os poucos que conseguiram ser admitidos estão sendo convidados a deixar o país. Com relação aos auxílios financeiros provenientes do exterior, estes são constantemente monitorados e controlados, o que torna o trabalho ainda mais difícil.

ZENIT: Poderia contar alguma curiosidade a respeito da devoção do povo indiano por Madre Teresa?

Pe. Babu: Que esta devoção seja grande pode se notar pelo número de pessoas que vão constantemente orar em seu túmulo. Pessoas de outras religiões deram seu nome a escolas e universidades. Muitos países estrangeiros deram o nome de Madre Teresa a estradas e avenidas; alguns emitiram selos e moedas comemorativas em sua homenagem.

Quando Madre Teresa faleceu, o governo indiano concedeu funeral de Estado. Um hindu de nome Navin Chawla, atualmente chefe da comissão eleitoral indiana, publicou uma biografia da Irmã, enquanto outro hindu, Raghu Rai, dedicou um livro de fotografias à sua memória.

ZENIT: Ao receber o Nobel, Madre Teresa chocou o mundo ao expressar seu horror pelo aborto, “diariamente o maior destruidor da paz”, dizendo que “é aceitável que uma mãe mate seu próprio filho”. Como foi a atuação da Irmã junto às mães que não desejavam a gravidez?

Pe. Babu: O que Madre Teresa sempre enfatizava era o valor da vida humana no contexto dos abusos em interrompê-la, ao invés de cultivá-la. O aborto é sempre portanto um crime odioso contra a humanidade, e Madre Teresa não se cansava de denunciá-lo, segundo o ensinamento da Igreja.

Quando, com o argumento de controle de natalidade, alguém se propunha a pôr fim a uma vida, Madre Teresa se opunha dizendo: “Dai-a a mim, cuidarei dela eu mesma”. Assim, acolheu milhares de crianças abandonadas. Sua mensagem era: os seres humanos devem ser amados e protegidos, pois são dons de Deus.