Mágicas e elucubrações

Reflexões de dom Felipe Arizmendi Esquivel, bispo da diocese mexicana de San Cristóbal das Casas, sobre a situação atual da Igreja

Roma, (Zenit.org) Felipe Arizmendi Esquivel | 1005 visitas

Apresentamos a seguir o artigo de nosso colaborador dom Felipe Arizmendi Esquivel, bispo da diocese mexicana de San Cristóbal das Casas, sobre a situação atual da Igreja e a postura a ser adotada perante tanta “mágica e elucubração”, disseminadas em ambientes que desconhecem o modo de agir da comunidade eclesial.

Situações

Quantos comentários foram suscitados pela exemplar renúncia do papa! Alguns o admiram por esta decisão evangélica e prudente, que o confirma como homem muito inteligente, livre, sensato, sacrificado pela Igreja, fiel a Jesus Cristo. Outros o interpretam negativamente, tachando a renúncia como fuga da grande responsabilidade do papado, como sinal de não poder suportar as intrigas da cúria romana. Praticam suas mágicas elucubrando sobre as origens possíveis do próximo papa, europeia, africana ou talvez da nossa América.

Uma colunista local, desconcertada, considerou esta decisão como infidelidade a Deus e mau exemplo para os sacerdotes e para os fieis casados, como se fosse um convite a não sermos fieis até o fim nos nossos compromissos. Alguns, distantes dos fatos, opinam que Bento XVI deveria fazer o mesmo que João Paulo II, que, mesmo muito idoso e doente, manifestou que não estava disposto a descer da cruz.

Iluminação

Bento XVI não desce da cruz nem foge do trabalho. Sua decisão é a de assumir outra forma de cruz: é deixar de lado os holofotes e o primado universal para se dedicar à solidão, ao silêncio e à oração, só por amor e por respeito à Igreja. Não é covardia, mas profunda maturidade humana e cristã. Ele não se sente indispensável; com toda a humildade, diminui para que outros cresçam e percorram o mundo todo com mais saúde, pregando o evangelho como Jesus nos ordenou. E o mais importante: independentemente das pessoas, já que todos nós somos passageiros. Acredito que, de agora em diante, a maioria dos papas fará o mesmo, porque os tempos requerem um papa que esteja sempre em pleno vigor.

Que o papa renuncie ao seu ministério não é inaudito nem é coisa sem sentido. É uma possibilidade prevista nas normas da Igreja. Não é uma fuga, nem uma irresponsabilidade, muito menos uma traição a Deus e à Igreja. É um fato que já aconteceu várias vezes na história da Igreja e ela segue em frente, pois não é uma empreitada apenas humana. Cristo a fundou e colocou alguém em seu lugar: Pedro, e seus sucessores, como cabeça suprema da Igreja. Não colocou anjos, mas seres humanos, limitados e temporais. Sempre cumpriu a promessa de não abandonar a Igreja em nenhuma circunstância. Ela é a sua obra, o seu corpo, que perdura através dos tempos e das pessoas. Ele a guia, de forma invisível, mas real, por meio do Espírito Santo. Esta é a nossa fé; esta é a fé da Igreja, que nos gloriamos de professar. Quem não tem esta fé, nunca compreenderá esta realidade.

O papa não é Cristo, nem dono da Igreja. É somente seu representante, seu vigário, seu servo, com a única missão de nos levar até Jesus e continuar a sua obra de salvação. Esta realidade misteriosa não é uma apropriação arbitrária, nem uma ambição de domínio. É um serviço; somos “servos inúteis”, que tentam apenas cumprir a própria tarefa, não como dominadores, mas como simples servidores.

Bento XVI foi um grande presente para a Igreja e para o mundo. Quem ainda repete clichês negativos sobre a sua pessoa não conhece a sua bondade, simplicidade, humildade, profundidade e, ao mesmo tempo, a sua amabilidade para com quem, de algum modo, manteve contato com ele. Em suas palavras há uma grande espiritualidade bíblica, teológica, antropológica, litúrgica e até pedagógica. A iluminação que ele nos ofereceu é muito atual, e nem todos a entendem, nem todos a valorizam. Alguns, ignorantes do que seja a nossa fé, esperariam que o papa e a Igreja se modernizassem, entendendo por isso um moldar-se aos critérios deste mundo. Que nem esperem! Essa é uma tentação que devemos rejeitar sempre, quem quer que venha a ser o papa eleito. Nossos critérios se arraigam no evangelho, não em concessões aos gostos deste mundo hedonista, relativista, consumista. Ser cristão é nadar contra a corrente e ser fiel somente a Jesus.

Compromissos

Não nos impressionemos com opiniões sem fundamento. A fé nos garante que Jesus é o Supremo Pastor e que o Espírito Santo assiste a sua Igreja. Oremos pelos cardeais eleitores e vivamos esses tempos com serenidade e esperança. A Igreja de Cristo segue adiante, no meio de nuvens negras e tormentas, com a luz da fé que nos aponta o caminho.