Marco Roncalli fala do tio, São João XXIII

O sobrinho do "Papa Bom" compartilha lembranças de família e testemunhos sobre o tio que será canonizado em 27 de abril

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) Salvatore Cernuzio | 434 visitas

Marco Roncalli era criança quando, em sua casa, já se respirava o “perfume de santidade” do tio sacerdote, Angelo Giuseppe, futuro papa João XXIII.

O perfume ficou impresso na sua alma e marcou toda a sua vida. Ele acabou dedicando 30 anos a estudar apaixonadamente a grande figura desse pontífice revolucionário, que, no próximo dia 27 de abril, será elevado aos altares junto com João Paulo II.

Hoje, Marco Roncalli, presidente da Fundação Papa João XXIII, é um dos maiores especialistas do mundo no pontificado do "Papa Bom". ZENIT foi entrevistá-lo.

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O que significa para você e para a sua família ter um santo em casa?

Marco Roncalli: É um momento de alegria compartilhada, em família, na paróquia, na diocese, mas também na comunidade civil. É um convite a uma responsabilidade maior. Mas isto vale não só para mim ou para a minha família. O Santo, como dizia um grande jesuíta, Xavier Léon-Dufour, é antes de tudo um chamamento e uma pergunta: "O santo se torna palavra de Deus. É um êxito de Deus. Deus conseguiu, com a terra de que somos feitos, plasmar um ser em que a graça venceu a força da natureza"... Acho que essa frase pode se aplicar muito bem a João XXIIII.

O Papa Bom foi chamado de papa de transição; depois, de papa revolucionário, que abriu as portas da Igreja para o Concílio. Agora, ele é um papa santo. O que mais temos que conhecer sobre João XXIII?

Marco Roncalli: Há uma complexidade por trás da aparente simplicidade dele. Não se conhece suficientemente a sua cultura, o seu conhecimento da história, não só da Igreja. Não se conhecem muitos gestos de solidariedade oculta. Não se conhece totalmente a consciência e a coragem com que ele assumiu decisões importantes, por causa das quais ele foi acusado de ingenuidade. Há períodos da sua vida que temos que aprofundar, como os de jovem seminarista e sacerdote. Ainda precisam ser publicados alguns cadernos sobre os estudos juvenis dele, sobre o interesse, por exemplo, no americanismo. Ou algumas cartas de grande importância trocadas com amigos como o cardeal Gustavo Testa, e as homilias que remontam à Primeira Guerra Mundial. Mas já desfrutamos de um grande número de fontes. De nenhum outro papa temos um "Diário da alma", diários de quase toda uma vida. E há numerosas cartas, homilias, notas de todo tipo. Eu posso dizer, com certa segurança, que as contínuas publicações de material inédito dão mais plenitude a uma parábola humana e espiritual vivida com fé sólida em Deus e confiança natural nos homens.

Você dedicou muitos escritos ao seu tio. Em termos pessoais, o que você descobriu? Por exemplo, você publicou a correspondência entre Roncalli e Montini...

Marco Roncalli: São cartas de fé e de amizade, mas há também outras cartas como a de Schuster ou as cartas intercambiadas com dom Giuseppe De Luca. Os tons são diferentes, mas Angelo Giuseppe Roncalli foi realmente o homem do encontro: com Deus e com as pessoas.

Para você, como historiador da Igreja, qual é o momento atual da Igreja? Qual é a herança atual do pontificado de João XXIII?

Marco Roncalli: Acho que estamos vivendo uma segunda primavera conciliar. Como se Deus tivesse nos dado o papa que queria e de que precisávamos... Sem esquecer que a renúncia de Bento XVI permitiu o que temos diante dos olhos: a resposta a uma vasta necessidade de misericórdia, que é uma palavra-chave deste pontificado. Um pontificado pastoral, mas, como no caso de João XXIII, menos simples do que parece. É um pontificado com o apoio de uma robusta bagagem cultural, do conhecimento da história e de muitos homens encontrados longe de Roma. Para não falar da cultura espiritual que inunda o papa Francisco, precisamente como a do papa João.

Muitos comparam Francisco com João XXIII: estilo de comunicação, atitude com as pessoas, ternura... Você vê essa relação entre os dois papas?

Marco Roncalli: Sim, vejo uma "união" bastante evidente. E também foi a primeira impressão que eu tive diante da "surpresa Bergoglio". Há traços comuns na serenidade, no amor pela verdade e pela caridade, pela pobreza em sentido franciscano e no remédio da misericórdia. E também no otimismo cristão, na alegria do encontro contínuo com Deus e com todos os homens, sempre com grande respeito.

A família era consciente da santidade de Roncalli?

Marco Roncalli: Eu escutava em casa, com frequência, de quem esteve realmente perto dele, muitos testemunhos da bondade, da caridade silenciosa, da contínua confiança em Deus. Quando eu era pequeno, fazia companhia ao meu avô Giuseppe, o irmão mais jovem do papa, que ficou viúvo muito jovem. À noite, ele se ajoelhava no genuflexório que tinha ao lado da cama. E depois, quando deitava, falava muitas vezes do irmão papa, de como tinham crescido, dos seus encontros antes e depois da eleição... O meu pai também conta muitas histórias. Meu pai o via muito quando estava em Veneza, porque fez o serviço militar lá. Eles jantavam juntos e o meu pai fazia algumas pequenas tarefas para ele. Roncalli vivia no patriarcado, com grande sobriedade. Na maioria das histórias, era fácil conhecer o papa João e o seu desejo de santidade. Sempre ouvi falar dele como uma pessoa verdadeira, um "papa de carne e osso", como dizia Mazzolari, e gostaria que ele fosse lembrado assim. Não é boa, para nenhum papa, a mitificação, a "papolatria". Acho que as imperfeições podem fazer de João XXIII uma pessoa como todas as outras.

Você acha que o seu tio chegou a pensar que seria elevado aos altares?

Marco Roncalli: Ele mesmo, ainda como sacerdote em Bergamo, escrevia que queria buscar "o substancial, não o acidental", e anotava frases como "ser santo deve ser a minha contínua preocupação, serena e tranquila, não pesada e tirânica". Preocupação de um homem vivido, "sempre com Deus e com as coisas de Deus", e adesão completa à Palavra. Preocupação de um pontífice que, meditando sobre o elogio do Breviário Romano a Santo Eugênio Papa, ("foi benévolo, manso e humilde e, o que é mais importante, distinto pela santidade de vida"), escreveu: "Não seria bonito chegar pelo menos até ali?".

Por que um processo de canonização tão lento e depois tão repentino, sem nem sequer esperar um milagre?

Marco Roncalli: É verdade que não foi exigido o segundo milagre. O cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, disse que não era uma questão de privilégios ou exceção, mas que o papa Francisco só quis reduzir os tempos para dar à Igreja inteira a grande oportunidade de celebrar a canonização de dois papas santos: João XXIII, o iniciador do Concílio Vaticano II, e João Paulo II, o realizador dos fermentos pastorais, espirituais e doutrinais dos documentos conciliares.  A vontade do papa é clara. São duas personalidades bem diferentes, com histórias e características diferentes, mas há traços que os unem. Foram dois homens capazes de assumir grandes responsabilidades, pessoais e universais, que marcaram a história.