Maria, «a portadora» do Espírito Santo

Antes de se tornar Cristófora (portadora de Cristo), Maria é a Pneumatófora

Recife, (Zenit.org) Pe. Rafael Maria, osb | 852 visitas

A solenidade de Pentecostes é a solene oficialização da Igreja de Cristo e o início de sua missão no mundo. Para se chegar a essa etapa não podia deixar de ter a presença do membro mais excelente da Igreja, Maria de Nazaré. Como Mãe da Igreja, Maria faz parte dela. Falar da Igreja e não falar de Maria é deixar um vácuo na história da Revelação. Seja a Igreja, seja Maria, ambas foram plenificadas com os doze carismas do Espírito Santo. “O papa Leão Magno († 461) salienta, ao comentar Lc 1,35, que é o mesmo Espírito que age em Maria e na Igreja: «Do mesmo espírito de que nasce Cristo nas entranhas da mãe imaculada, nasce também o cristão no seio da santa Igreja»” (S. DE Fiores-S. DE Meo, Dicionário de Mariologia, Paulinas, SP 1986, p. 449).

A Igreja do Oriente costuma chamar Nossa Senhora «a Pneumatófora» («a Portadora») do Espírito Santo. Ora, tal afirmação é propriamente bíblica: 1º na saudação do anjo, “Salve, cheia de graça…” (Lc 1,28) e na perícope: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35; Mt 1,18.20). 2º Quando Isabel ouviu a saudação de Maria e ficou repleta do Espírito Santo (cf. Lc 1,39-41),  demonstrando a confirmação de que, Maria levando em si o seu Filho, dele se transmite o Espírito Santo a João Batista e a Isabel. 3º No Pentecostes (At 1,14; 2,1-4). Exceto Jesus Cristo, não existe outro personagem bíblico pleno do Espírito do Senhor que Maria, a Mãe de Deus. Ela está em relação a Ele, mas não no mesmo nível. Pode existir algum outro personagem, mas que só recebeu em modo parcial. O Espírito Santo é presente em Maria três vezes: na sua Imaculada Conceição, a Cheia de graças; na Encarnação do Verbo e em Pentecostes.

Lutero reconhecia em Maria a sua configuração com o Espírito Santo, seria “a Pneumatoforme”, pois segundo sua definição, Maria era uma pessoa que possuía a grande experiência e sabedoria do Espírito Santo (cf. http://evangelizadorasdelosapostoles.wordpress.com/2010/12/07/maria-y-el-magnificat-en-lutero/; S. DE Fiores-S. DE Meo, Dicionário de Mariologia, Op. Cit., p. 448.469).

Podemos dizer, então, que o Espírito Santo, autor ativo dos divinos mistérios, age na Igreja a partir de Maria. Vejamos como:

a) A gestação da Igreja: Tudo começa com Cristo e termina Nele. A igreja, por sua vez, começa Nele, sendo Ele a cabeça da Igreja (cf. Cl 1,18). Nesse sentido, é no ventre de Maria que, gerando o Filho do Altíssimo, a Igreja começa a existir. É sob a ação do Espírito doador de vida que a Igreja inicia-se com Cristo e sua Mãe.

b) O nascimento da Igreja: A formação da Igreja tem um longo período existencial com Jesus Cristo. Na educação e formação do Senhor, antes de sua vida pública, está presente Maria, desde o seu nascimento. É na Cruz do lado aberto de Cristo onde jorra sangue e água (Eucaristia e Batismo) que a Igreja nasce (cf. Jo 19,34). E nesse momento Maria também está ali, junto à Cruz (Jo 19,25). É a testemunha fiel desse parto doloroso junto com o discípulo amado (cf. Jo 19,35).

c) A oficialização da Igreja: A tradição da Igreja aponta como certo a presença de Maria no dia de Pentecostes seguindo o texto de At 1,14. O evangelista Lucas, autor dos Atos dos Apóstolos, vê em Maria uma raiz do surgimento pneumático vindo do alto, tanto no caso do Redentor quanto no da Igreja. É em Pentecostes que solenemente a Igreja é oficializada, quando as portas são escancaradas e os discípulos de amedrontados tornam-se corajosos anunciadores da mensagem do Senhor. Quanto a Maria, fica silenciosa, aguardando seu momento oportuno. Nesse sentido, questiona-se: As aparições marianas oficiais não seriam este momento oportuno?

A tríplice ação trinitária em Maria é bem acentuada pela oração-saudação que São Francisco de Assis († 1226) costumava fazer a ela: “Eu te saúdo, Senhora santa, rainha santíssima, mãe de Deus, Maria, que és virgem que se tornou Igreja eleita pelo santíssimo Pai do céu, que foste consagrada por ele com o santíssimo e dileto Filho e com o Espírito Santo Paráclito, e que tiveste e continuas a ter a plenitude da graça e todos os bens. Eu te saúdo, palácio Dele. Eu te saúdo, tabernáculo Dele. Eu te saúdo, casa Dele. Eu te saúdo, veste Dele. Eu te saúdo, escrava Dele. Eu te saúdo, mãe Dele, e a vós todas, ó virtudes santas, que por graça e luz do Espírito Santo fostes infundidas nos corações dos fiéis, a fim de que dos menos leais possais fazer fiéis a Deus.” (S. DE Fiores-S. DE Meo, Dicionário de Mariologia, Op. Cit., p. 451).

A Virgem Maria, por ser repleta do Espírito Santo, colabora com Ele, sem ocupar o seu lugar. Sendo aquela que mais viveu intensamente sua ação, não retém em si, mas leva aos irmãos (cf. Lc 1,39-41). Pois ela, segundo o Papa Leão Magno, é «a portadora da salvação», a Cristófora.

Peçamos a ajuda de Nossa Senhora, repleta de grandes dons e favores, que implore a Trindade a fim de que sejamos homens e mulheres cheios do mesmo Espírito que a inundou. Rezemos como Santo Hildefonso de Toledo († 667): “Eu te peço, eu te suplico, ó santa Virgem, que eu receba Jesus do mesmo Espírito do qual tu o geraste; que a minha alma receba Jesus por meio do Espírito através do qual a tua carne o concebeu. Possa eu conhecer Jesus por meio do Espírito através do qual obtiveste a graça de conhecer, receber e dar à luz Jesus. Que nesse espírito, em quem confessas que és a serva do Senhor e dizes que se faça contigo segundo as palavras do anjo, possa eu, humilde, dizer grandes coisas de Jesus. Que eu ame Jesus no mesmo Espírito em quem o adoras como Senhor e o contemplas como filho” (S. DE Fiores-S. DE Meo, Dicionário de Mariologia, Op. Cit., p. 450).

Para maiores informações e esclarecimentos: d.rafaelmariaosb@hotmail.com