Maria e a "feminilidade" da Igreja

Por ocasião da festa de Nossa Senhora da Saúde, o Patriarca de Veneza, dom Moraglia, auspica um papel mais incisivo da mulher nas realidades eclesiais, mas diverso dos carismas eminentemente masculinos

Roma, (Zenit.org) Luca Marcolivio | 533 visitas

Na história da salvação, Deus se confiou a uma mulher, Maria de Nazaré, e a encarnação do Filho de Deus é algo que "surge a partir de um gesto que somente uma mulher pode realizar”. Afirmou, esta manhã, dom Francesco Moraglia, patriarca de Veneza, durante a homilia por ocasião da Festa de Nossa Senhora da Saúde, comemorada pelos venezianos todo 21 de novembro, em cumprimento da promessa feita à Virgem Maria, pelo fim da "epidemia de peste bubônica de 1631, que infestou o norte da Itália.

Deus, disse o patriarca, se serviu de uma mulher nomeadamente em "esponsalidade e maternidade", ou seja, por “valores que a mulher melhor expressa: o acolhimento, a docilidade, apoio" e que hoje são obscurecidos pela cultura pós- moderna de "liquidez" e “insegurança".

Esse evento único da Encarnação de Deus, graças ao sim de uma mulher, é “uma mensagem clara, atual e urgente, algo que as culturas e sociedades - do nosso evoluído Ocidente e não somente - devem compreender o mais rápido possível", disse dom Moraglia.

A cultura de hoje, de fato, “luta para encontrar um espaço adequado para a mulher, pela sua criatividade e seu talento particular", continuou o patriarca. Se, por um lado, uma sociedade “formada, quase que, exclusivamente, por modelos masculinos, acaba assumindo formas machistas", um maior acolhimento do "feminino" formaria diversamente nosso complexo estilo de vida bem como as escolhas culturais resultantes".

A mulher, portanto, merece mais atenção da Igreja e, nela, é "chamada a dar a sua contribuição específica", no entanto, "seria errado reduzir a promoção da mulher a uma reivindicação que pertence ao mundo masculino", observou o patriarca. A escolha de Deus é, ao invés, a de "concentrar tudo sobre a feminilidade de Maria: mulher, esposa, mãe".

Não se trata de atribuir às mulheres papéis masculinos, como o "sacerdócio ministerial", mas sim, de "reconhecer que fundamentalmente a Igreja - na sua realidade constitutiva - é feminina", ou seja, filha de Maria de Nazaré que dá início à Igreja "em suas origens e em seu cerne mais estável e santo", enquanto o "mandato apostólico" é uma prerrogativa do Apóstolo Pedro. Portanto, temos uma "linha mariana" e uma "linha petrina" que garantem a perpetuação, até hoje, da grande família eclesial.

É no sim de Maria que “é aceita e ganha forma a novidade por excelência, o novo mundo redimido, capaz do bem, da verdade e da beleza, apesar do ódio, da falsidade e do horror à sua volta e com o qual deve dolorosamente reconhecer-se".

Olhar para Maria "pode dar um novo significado às nossas relações pessoais e sociais, muitas vezes, tão cansadas e exaustas de uma cultura masculina e, por vezes, machista onde a competição para se sobressair e a performance condicionam e falsamente regulam o equilíbrio entre as pessoas e as gerações", concluiu dom Moraglia, antes de invocar a intercessão de Nossa Senhora da Saúde sobre a Igreja em Veneza e sobre todos os venezianos.

(Trad.:MEM)