Maria é a «Graça»

Maria é a graça criada com uma finalidade específica nos planos de Deus

Recife, (Zenit.org) Pe. Rafael Maria, osb | 1617 visitas

Em 1936 na localidade do Sítio Guarda (Cimbres), município de Pesqueira, interior do estado de PE aconteceram algumas aparições da Virgem Maria a duas meninas. Tais mariofanias são desconhecidas por parte dos católicos brasileiros por motivos vários. Nestas supostas aparições, com o nosso olhar de especialista no campo mariológico, detectamos que parece possuir todas das características de veracidade, porém muito se deve estudar. Assinalamos alguns elementos importantes: o representante eclesial, isto é o pároco da época, em nome da Igreja local, procurou fazer um diálogo com a aparição e as videntes (analfabetas), utilizando estratégias que nunca foi realizada antes em uma mariofania. Ele dialogava em alemão e latim com a visão e as videntes respondiam em português. Outro feito extraordinário é a denominação que a aparição se atribui. Nossa Senhora diz as meninas: «EU SOU A GRAÇA», e deseja ser invocada com o título «DAS GRAÇAS» naquele local. Seria aqui uma imitação das aparições da Medalha Milagrosa? Diríamos: Não. Tudo revela algo novo, dinâmico e teológico. A Virgem Maria aparece com o menino Jesus nos braços e envolta em um nicho com colunas revestidas de pedras preciosas, segundo o relato das videntes.

O nome «Cimbres» de origem francesa que quer dizer: “armação para molde de madeira de arco ou abobada” (ou Cambota), isto é, um nicho? Condiz então com o modo como a Virgem aparece no Sítio Guarda, dentro de nicho.

Interessante é que Cimbres, nome da cidadezinha onde se localiza o Sítio Guarda é de origem portuguesa, onde existe uma cidade do mesmo nome com um santuário de Nossa Senhora da Graça (Sic!).

Um outro detalhe é que, no Brasil recém-descoberto, duas igrejas consideradas as mais antigas, foram dedicadas a Nossa Senhora da Graça: na Bahia datada de 1535 e o Seminário de Olinda de 1551. Portanto, as matrizes da devoção mariana no Brasil é GRAÇA?

Entre as aparições de Paris e as de Cimbres existe diferenças singulares. Lá em Paris, Maria aparece de mãos estendidas, disponível a distribuir graças, aqui no entanto ela tem o menino Jesus nos braços que é a GRAÇA por excelência. É Dele que Maria alcança tudo para nós.

 O que nos interessa aqui é fazer um estudo teológico para se compreender um título tão inusitado que a Virgem maria se atribui no Sítio Guarda: «Eu sou a Graça».

Como sabemos, é salutar sempre uma formação adequada e continuada quando se fala da Virgem Maria, pois em torno a mesma surgem equívocos devocionais que desvirtuam, seja o culto mariano seja a doutrina. Para isto temos que voltar a dois mil anos do início do cristianismo, à Bíblia. O fundamento bíblico que atesta o que Maria é se pode tomar de Lc 1,26 na saudação angélica, onde o anjo saúda a Virgem com um novo nome «kaire kekarithoméne» (Regozija-te Agraciada). O anjo substitui o nome próprio de “Maria” com um outro, «Agraciada/Graça». Dai por diante, ela será chamada «Graça». Maria é a “graça criada” com uma finalidade específica nos planos de Deus, sendo assim instrumento ativo na obra da salvação (cf. Lumen Gentium 56), quando gera e dá a luz “o Filho do Altíssimo” (cf. Lc 1,35). Maria, é “graça criada” e não a “graça incriada”, pois a graça incriada é Deus mesmo. Estejamos sempre atentos a esta diferença!!!

A saudação angélica é uma programação de vida para Maria que não tem origem naquele momento, mas já existia na eternidade de Deus.

Como vimos acima, o nome da Virgem de Nazaré será de hoje em diante «Graça/Imaculada». É como se uma senhora se apresentasse e lhe perguntasse seu nome. “Como se chama, senhora?” E ela me responderia aquilo que é, “Eu sou a Graça” ou, “eu sou a Antônia” ou, “eu sou a Rosalva”, etc. Portanto, o título que o anjo Gabriel dá à Virgem de Nazaré, revela o que é, e o que faz, distribuir/interceder aquilo que recebeu de Deus, a Graça ou as Graças, em uma só palavra: Jesus Cristo. A nossa reflexão até aqui não é suficiente, se faz necessário algo mais: a força da Palavra de Deus. Ora, tal função de intercessora e distribuidora das graças do Senhor, é um eco do que encontramos na 1Pd 4,10: “Cada um viva segundo a graça recebida, colocando-a ao serviço dos outros, como bons administradores de uma multiforme graça de Deus”.

A natureza humana de Maria, cumulada pela Graça de Deus, não exerce uma função para si mas para o serviço e crescimento da Igreja, como nos indica Mt 10,8: “Gratuitamente recebestes, gratuitamente dai”. Com esta gratuidade, buscamos ainda com o testemunho da Palavra divina o que nas atitudes de Maria nos revelam o mistério do seu serviço a favor da humanidade. Na sua visita a Isabel (cf. Lc 1,39-56), onde cumulada pela Graça/Espírito Santo, vai distribui-la a sua parente necessitada e Lucas afirma depois da saudação de Maria a Isabel, «…Isabel ficou repleta do Espirito Santo» (Lc 1,39-41). A continuidade deste serviço no amor é nas Bodas de Caná que Maria mais uma vez revela o seu papel de “Agraciada/Intercessora”, consola os necessitados da festa do Esposo/Jesus (cf. Jo 2,1-11), colaborando assim no aumento da fé no Senhor (cf. Jo 2,11).

Aprendamos com Maria a distribuir as graças que recebemos!

Pe. Rafael Maria é diplomado para "Postulação para beatificação e canonização” pela Congregação para Causa dos Santos (Cidade do Vaticano) e doutor em Mariologia pela Pontifícia Faculdade Teológica «MARIANUM» (Roma).  Leciona atualmente um «Curso de Mariologia» via internet, cf. www.cursoscatolicos.com.br

Para maiores informações e comentários: d.rafaelmariaosb@hotmail.com