Maria é Medianeira de Todas As Graças?

Até hoje não foi definido pela Igreja e há poucos elementos explícitos sobre esse tema na Sagrada Escritura e na Tradição.

Rio de Janeiro, (Zenit.org) Pe. Anderson Alves | 901 visitas

Essa é uma pergunta feita pelos cristãos há séculos. Até hoje não foi definido pela Igreja e há poucos elementos explícitos sobre esse tema na Sagrada Escritura e na Tradição. Talvez no futuro seja definido pela Igreja, a qual levará à adesão filial e agradecida dos bons católicos. Entretanto, a questão continua aberta e pode ser livremente discutida. Cremos que possa ser dito que Maria é a medianeira de todas as graças, como alguns santos e doutores da Igreja o fizeram, desde que isso seja bem entendido. Vamos procurar esclarecê-lo aqui.

Em primeiro lugar, diz-se que Maria é “medianeira” para distinguí-la de Cristo, «único mediador entre Deus e os homens» (I Tim. 2, 5)[i]. Maria é medianeira por estar entre Cristo e os homens e por interceder por eles, assim como fez nas bodas de Caná (Jo. 2). Maria no Céu conserva a sua função de medianeira ativa e eficaz (intercessora) para a salvação para os homens. Porém a fé católica é consciente de que Maria está sempre ao lado de Jesus, em dependência dele, embora seja superior a todos os demais membros da Igreja. Foi por graça que ela consentiu com a concepção do Salvador e todos os homens são devedores de Maria em relação a esse fato fundamental da História.

Por causa do lugar privilegiado de Maria entre Jesus Cristo e os homens, a oração cristã apela à intercessão dela, o qual se funda na certeza de que a mediação de Maria continua no Céu. Além disso, a oração cristã não invoca exclusivamente a Maria, mas Deus, Cristo, o Espírito Santo e os outros santos. Por seu lugar especial dentro do Corpo Místico de Cristo (a Igreja), se deduz que nenhuma graça é concedida por Deus sem uma intercessão atual de Maria. São Bernardo de Claraval (1090-1153) diz: «Tal é a vontade de Deus que quis que tenhamos tudo por Maria. Se, portanto, temos alguma esperança, alguma graça, algum dom salutar, saibamos que isto nos vem por suas mãos».

E isso não é apenas uma opinião piedosa, ou um exagero, ou uma fantasia infundada, mas sim a consequência da compreensão do justo lugar de Maria na Igreja.

O sentido correto dessa doutrina não diz que não recebamos nenhuma graça sem termos implorado explicitamente a intercessão de Maria. Mas diz que nenhuma das nossas orações é atendida sem o apoio da intercessão de Maria. «Uma exclusão positiva e voluntária desta intercessão na intenção de quem reza deve certamente fazer temer que a prece não seja atendida»[ii].

A dita doutrina tampouco significa que a intercessão de Maria seja universalmente necessária para determinar Cristo a fazer valer sua intercessão por nós, como se ele não estivesse sempre disposto a fazê-lo. Maria não “convence” seu Filho a interceder por nós, pois Ele conhece tudo o que precisamos e nos olha sempre com carinho e atenção. O sentido correto da doutrina diz que, segundo a ordem estabelecida por Deus, o mérito e a intercessão de Cristo não favorecem a ninguém sem que intervenha ao mesmo tempo a intercessão de Maria.

Há motivos de conveniência para se afirmar a função de Maria como medianeira de todas as graças:

a) A dita função corresponde à dignidade da mãe de Deus, que é repleta de graça e rainha da nova criação. Como disse Santo Tomás de Aquino, «todos os méritos e graças de Maria provém do fato de somente ela e Deus Pai puderam dizer a Jesus Cristo: “meu Filho?”»;

b) Maria é medianeira quanto ao dom da fonte de toda graça, Jesus Cristo. Ela consentiu com a Encarnação, concebendo e dando à luz livremente o Filho único de Deus. Isso indica que Maria é destinada por Deus a comunicar constante e universalmente as efusões da fonte divina como um canal da graça;

c) Maria colaborou na aquisição de todas as graças pela sua participação no sacrifício redentor de Cristo. Ela permaneceu de pé junto à cruz do Senhor, oferecendo o seu Filho ao Pai em benefício de toda a humanidade. Por essa sua colaboração ela se tornou depositária do mérito redentor para toda a humanidade em todos os tempos;

d) Maria colaborou, com suas orações, na obtenção do Espírito Santo para toda a Igreja. E essa sua cooperação prossegue como condição normal de todos os frutos do mérito de Cristo e de todas as graças do Espírito Santo. Com isso ela se tornou mãe espiritual de todos os resgatados. «Como todas as graças da redenção se destinam a gerar, a alimentar e a aperfeiçoar a vida da graça, a colaboração universal e contínua de Maria neste domínio é tão normal como a de uma mãe corporal na alimentação dos seus filhos»[iii].

e) A comunicação da graça redentora está ligada de modo universal à Igreja. De fato, ninguém recebe uma graça sem alguma relação com a Igreja e sem a cooperação ativa dela. A Igreja comunica a graça pela sua oração e obtém como esposa e corpo vivo de Cristo, para os seus filhos, as graças de seu Marido e Mestre. E Maria é um membro excelente da Igreja, de modo que somente ela representa a oração universal da Igreja. Por isso a mediação universal de graças da Igreja não pode ser feita sem Maria como medianeira universal e contínua.

Portanto, dada a posição de Maria no reino da graça e sua colaboração constante com Cristo em toda obra misericordiosa sobre o corpo místico, ela deve ser considerada uma colaboradora tão normal e constante como o coração coopera com a cabeça na sua influência sobre a vida de todos os outros membros. A imagem do coração exprime que a comunicação da graça pela sua atividade própria continua atualmente no Céu.

São Bernardino de Siena aplicava à Maria a imagem do pescoço do Corpo Místico, o qual tem a Cristo como sua cabeça. Essa imagem corresponde à do canal da graça e exprime a completa subordinação de Maria a Cristo na comunicação das graças, bem como a universalidade absoluta desta comunicação e o seu motivo. Maria é um elo que está acima do corpo e se dirige com a cabeça para o Céu. Essa imagem mostra que a intercessão de Maria é um meio comum e necessário para a salvação de todos os homens, o que não ocorre com os outros santos. A invocação de Maria tem um significado diverso da invocação dos santos, é superior a todas elas e está implícita em toda oração cristã.

Por todos esses motivos pode-se afirmar sem medo e com bons motivos teológicos que Maria é a medianeira de todas as graças. De forma que é correto o que disse S. Luiz de Montfort: «Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as graças e denominou-as Maria. Esse grande Deus tem um tesouro, um depósito riquíssimo, onde encerrou tudo que há de belo, brilhante, raro e precioso, até seu próprio Filho; e este tesouro imenso é Maria, que os anjos chamam tesouro do Senhor, e de cuja plenitude os homens se enriqueceram»[iv].

Bibliografia:

M. J. Scheeben, A Mãe do Senhor, Editorial Aster, 1960.

S. Afonso de Ligório, As glórias de Maria, Ed. Santuário, 2011.

[i] Sobre isso conferir o meu artigo: Pe. Anderson Alves, Se Jesus é o único mediador, por que recorrer à intercessão dos santos? Disponível em: http://www.linkscatolicos.com.br/2012/04/jesus-e-o-unico-mediador-entre-deus-e.html#.U2TbqNywb04

[ii] M. J. Scheeben, A Mãe do Senhor, Editorial Aster, 1960, p. 184.

[iii] Ibid., p. 185.

[iv] S. Luiz de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Virgem Santíssima, n. 23-25.