Meditações da Via Sacra de Sexta-feira Santa

Por Irmã Maria Rita Piccione , O.S.A.

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CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 20 de abril de 2011 (ZENIT.org) - Publicamos a apresentação e meditações da Via-Sacra que Bento XVI presidirá no Coliseu na noite de Sexta-feira Santa, preparadas pela Irmã Maria Rita Piccione, O.S.A., presidente da Federação dos Mosteiros Agostinianos da Itália «Nossa Senhora do Bom Conselho».

VIA-SACRA 
NO COLISEU

PRESIDIDA PELO SANTO PADRE
BENTO XVI

SEXTA-FEIRA SANTA DE 2011

APRESENTAÇÃO

«Se alguém contemplasse de longe a sua pátria mas de permeio estivesse o mar, veria aonde chegar, mas não disporia dos meios para ir até lá. O mesmo se passa connosco… Vislumbramos a meta a alcançar, mas de permeio está o mar do século presente… Ora, a fim de que pudéssemos dispor também dos meios para lá chegar, veio de lá Aquele para quem nós queríamos ir… e forneceu-nos o madeiro com o qual atravessar o mar. De facto, ninguém pode atravessar o mar do século presente, se não é levado pela cruz de Cristo… Não abandones [pois] a cruz, e a cruz te levará».

Estas palavras de Santo Agostinho, tiradas do seu Comentário ao Evangelho de João (2, 2), introduzem-nos na oração da Via-Sacra.

De facto, a Via-Sacra quer estimular em nós este gesto de nos agarrarmos ao madeiro da Cruz de Cristo ao longo do mar da vida. Por isso, a Via-Sacra não é uma simples prática de devoção popular com carácter sentimental; mas exprime a essência da experiência cristã: «Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me» (Mc 8, 34).

É por este motivo que, cada Sexta-feira Santa, o Santo Padre percorre a Via-Sacra à vista de todo o mundo e em comunhão com ele.

Para a preparação da Via-Sacra deste ano, o Papa Bento XVI dirigiu-se ao mundo monástico agostiniano feminino, confiando a redacção dos textos à Ir. Maria Rita Piccione, O.S.A., Presidente da Federação dos Mosteiros Agostinianos da Itália «Nossa Senhora do Bom Conselho».

A Ir. Maria Rita, que pertence ao Ermo Agostiniano de Leccetto (Sena) – um dos eremitérios toscanos do século XIII, berço da Ordem de Santo Agostinho – é actualmente membro da Comunidade dos Santos Quatro Coroados, em Roma, onde tem a sua sede a Casa comum de Formação para as Noviças e as Religiosas Professas Agostinianas da Itália.

E não são apenas os textos que são de uma monja agostiniana; também as imagens ganharam forma e tonalidade a partir de uma sensibilidade artística feminina e agostiniana. A Ir. Helena Maria Manganelli, O.S.A., do Ermo de Leccetto, outrora escultora de profissão, é a autora dos quadros que ilustram as várias estações da Via-Sacra.

Esta interligação de palavra, forma e tonalidade comunica-nos algo da espiritualidade agostiniana, que se inspira na primitiva comunidade de Jerusalém e funda-se na comunhão de vida.

É de benefício para todos saber que a preparação desta Via-Sacra nasce da experiência de monjas que «juntas vivem, pensam, rezam, dialogam», segundo o retrato vivo e eloquente que Romano Guardini esboça de uma comunidade monástica agostiniana.

No início de cada estação, depois da habitual enunciação, aparece uma frase muito breve que pretende oferecer a chave de leitura da respectiva estação. Idealmente podemos recebê-la como que vinda de uma criança, numa espécie de apelo à simplicidade dos pequeninos que sabem captar o coração da realidade e num espaço simbólico de acolhimento, na oração de Igreja, da voz da infância por vezes ofendida e explorada.

A Palavra de Deus, que será proclamada, é tirada do Evangelho de João, à excepção das estações sem texto evangélico de referência ou que o têm noutros evangelhos. Com esta escolha, pretendeu-se evidenciar a mensagem de glória da Cruz de Jesus.

Depois o texto bíblico é ilustrado por uma reflexão breve, mas clara e original.

A oração dirigida ao «Humilde Jesus» – expressão cara ao coração de Agostinho (Conf. 7, 18, 24) –, que deixa cair o adjectivo humilde na crucifixão-exaltação de Cristo, é a confissão que a Igreja-Esposa dirige ao Esposo que a redimiu com o seu Sangue.

Segue-se uma invocação ao Espírito Santo, que guia os nossos passos e que derrama no nosso coração o amor divino (cf. Rm 5, 5): é a Igreja apostólico-petrina que bate à porta do coração de Deus.

Cada uma das estações individualiza uma pegada particular deixada por Jesus ao longo do Caminho da Cruz, que o crente é chamado a copiar. Assim os passos que marcam o caminho da Via-Sacra são: verdade, honestidade, humildade, oração, obediência, liberdade, paciência, conversão, perseverança, essencialidade, realeza, dom de si mesmo, maternidade, expectativa silenciosa.

Os quadros da Ir. Helena Maria – sem figuras nem elementos acessórios, mas essenciais na cor – apresentam Jesus sozinho na sua Paixão, que atravessa a terra deserta nela escavando um sulco e regando-o com a sua graça. Um raio de  luz, sempre presente e colocado de modo a formar uma cruz, indica o olhar do Pai, enquanto a sombra de uma pomba, o Espírito Santo, recorda que Cristo, «pelo Espírito eterno, Se ofereceu a Si mesmo a Deus, sem mácula» (Heb9, 14).

Com este contributo para a oração da Via-Sacra, as Monjas Agostinianas desejam prestar um preito de amor à Igreja e ao Santo Padre Bento XVI, em profunda sintonia com a particular veneração e fidelidade que a Ordem Agostiniana professa à Igreja e aos Sumos Pontífices.

Agradecemos a estas duas irmãs, a Ir. Maria Rita e a Ir. Helena Maria, que, alimentadas pela contínua meditação da Palavra de Deus e dos escritos de Santo Agostinho e sustentadas pela oração das Comunidades da Federação, aceitaram, com toda a simplicidade, partilhar a sua experiência de Cristo e do Mistério Pascal, num ano em que a celebração da Santa Páscoa tem lugar precisamente a 24 de Abril, dia do aniversário do Baptismo de Santo Agostinho.

 INTRODUÇÃO

Cristo padeceu por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos[1].

Irmãos e Irmãs em Cristo,

encontramo-nos, esta noite, no sugestivo cenário do Coliseu romano, convocados pela Palavra agora mesmo proclamada, para percorrer, juntamente com o Santo Padre Bento XVI, o Caminho da Cruz de Jesus.

Fixemos o nosso olhar interior em Cristo e invoquemo-Lo com coração ardente: «Peço-Vos, Senhor! Dizei à minha alma: sou Eu a tua salvação! Dizei-o de maneira que eu o ouça!»[2].

A sua voz animadora cruza-se com o fio débil do nosso «sim» e o Espírito Santo, dedo de Deus, tece a trama segura da fé que conforta e conduz.

Seguir, acreditar, rezar: eis os passos simples e seguros que sustentam a nossa estrada ao longo do Caminho da Cruz e nos deixam vislumbrar, gradualmente, o caminho da Verdade e da Vida. 

[1] 1 Ped 2, 21.

[2] S. Agostinho, Confissões 1, 5, 5 (doravante todas as citações, diversas da Sagrada Escritura, que não indiquem o autor são de S. Agostinho).

ORAÇÃO INICIAL

O Santo Padre:

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
R/.
 Amen.

O Santo Padre:
Oremos.

(breve pausa de silêncio)

Senhor Jesus,
Vós nos convidais a seguir-Vos também
nesta vossa hora extrema.
Em Vós, está cada um de nós
e nós, apesar de muitos, somos Um só em Vós.
Na vossa hora, está presente a hora da provação
da nossa vida,
nos seus aspectos mais crus e duros;
está presente a hora da paixão da vossa Igreja
e da humanidade inteira.

Está presente a hora das trevas:
quando «tremem os fundamentos da terra»[1]
e o homem, «parcela da vossa criação»[2],
geme e sofre com ela;
quando as várias máscaras da mentira
ridicularizam a verdade
e as lisonjas do sucesso sufocam
o apelo íntimo da honestidade;
quando o vazio de sentido e de valores
anula a obra educativa
e a desordem do coração desfigura a ingenuidade
dos pequeninos e dos débeis;
quando o homem perde o caminho
que o leva ao Pai
e já não reconhece em Vós
o rosto belo da própria humanidade.

Nesta hora, insinua-se a tentação da fuga,
o sentimento da desolação e da angústia,
enquanto a traça da dúvida corrói a mente
e, como no palco, o pano da escuridão cai sobre a alma.

E Vós, Senhor,
que ledes no livro aberto do nosso frágil coração, 
voltais a perguntar-nos nesta noite,
como um dia aos Doze:
«Também vós quereis ir embora?»[3].

Não, Senhor,
não podemos nem queremos ir embora,
porque só «Vós tendes palavras de vida eterna»[4],
Só Vós sois «a palavra da verdade»[5]
e a vossa Cruz
é a única «chave que nos abre aos segredos
da verdade e da vida»[6].

«Nós Vos seguiremos para onde quer que fordes!»[7].

Nesta adesão, está a nossa adoração,
enquanto, do horizonte do ainda não,
um raio de alegria
beija o  do nosso caminho.

R/. Amen.

[1] Is 24, 18.

[2] Confissões 1, 1, 1.

[3] Jo 6, 67.

[4] Jo 6, 68.

[5] Ef 1, 13.

[6] Cf. Exposição sobre o Salmo 45, 1.

[7] Cf. Mt 8, 19.

PRIMEIRA ESTAÇÃO
Jesus é condenado à morte

 Jesus cala-Se; guarda em Si a verdade

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/.
 Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Do Evangelho segundo João 18, 37-40

Pilatos disse a Jesus: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz». Pilatos replicou-Lhe: «Que é a verdade?» Dito isto, foi ter de novo com os judeus e disse-lhes: «Não vejo n’Ele nenhum crime. Mas é costume eu libertar-vos um preso na Páscoa. Quereis que vos solte o rei dos judeus?» Eles puseram-se de novo a gritar, dizendo: «Esse não, mas sim Barrabás!» Ora Barrabás era um salteador.

Pilatos não encontra motivo algum de condenação em Jesus, tal como não encontra em si próprio a força para se opor a tal condenação.
O seu ouvido interior permanece surdo à Palavra de Jesus e não compreende o seu testemunho da verdade.
«Ouvir a verdade é obedecer-lhe e acreditar nela»[1]. É viver livremente sob a sua orientação e entregar-lhe o próprio coração.
Pilatos não é livre: está condicionado do exterior, mas aquela verdade escutada continua a ressoar no seu íntimo como um eco que bate à porta e desinquieta.
Por isso vem fora, para encontrar os judeus; «foi ter de novo» com eles, sublinha o texto, como que um impulso para fugir de si mesmo. E a voz que lhe chega de fora, prevalece sobre a Palavra que está dentro.
Aqui se decide a condenação de Jesus, a condenação da verdade.

Humilde Jesus,
também nós nos deixamos condicionar por aquilo que está fora
Já não sabemos escutar a voz subtil,
exigente e libertadora da nossa consciência
que, dentro, amorosamente faz apelo e convida:
«Não saias fora, reentra em ti mesmo:
é no teu homem interior que habita a verdade»[2].

Vinde, Espírito de Verdade,
ajudai-nos a encontrar, no «homem oculto no íntimo do coração»[3],
o Rosto Sagrado do Filho
que nos renova na Semelhança Divina.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis:
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo, et in terra. 
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Stabat Mater dolorosa
iuxta crucem lacrimosa
dum pendebat Filius.

[1] Cf. Comentário ao Evangelho de João 115, 4.
[2] A verdadeira religião 39, 72.

[3] Cf. a nota da Bíblia de Jerusalém a 1 Ped 3, 4.

SEGUNDA ESTAÇÃO
Jesus é carregado com a Cruz
 

Jesus leva a cruz, carrega sobre Si o peso da verdade

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/.
 Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Do Evangelho segundo João 19, 6-7.16-17

Os sumos sacerdotes e os seus servidores gritaram: «Crucifica-O! Crucifica-O!» Disse-lhes Pilatos: «Levai-O vós e crucificai-O. Eu não descubro n’Ele nenhum crime». Os judeus replicaram-lhe: «Nós temos uma Lei e, segundo essa Lei, deve morrer, porque disse ser Filho de Deus». (…) Então, entregou-O para ser crucificado. E eles tomaram conta de Jesus. Jesus, levando a cruz às costas, saiu para o chamado Lugar da Caveira, que em hebraico se diz Gólgota.

Pilatos hesita, procura um pretexto para soltar Jesus, mas cede à vontade que prevalece e vocifera, que se apela à Lei e faz insinuações.
E continua a repetir-se a história do coração ferido do homem: a sua mesquinhez, a sua incapacidade de sobrelevar o olhar de si mesmo para não se deixar enganar pelas ilusões da magra compensação pessoal e erguer-se para o alto seguindo o voo livre da bondade e da honestidade.
O coração do homem é um microcosmo.
Nele, se decidem os grandes destinos da humanidade, resolvem-se ou agravam-se os seus conflitos. Mas o ponto decisivo é sempre o mesmo: acolher ou perder a verdade que liberta.

Humilde Jesus,
na contínua sucessão dos dias da vida
o nosso coração olha para baixo, para o seu pequeno mundo,
e, todo absorvido pela contabilidade do próprio bem-estar,
fica cego à mão do pobre e do indefeso
que mendiga atenção e pede ajuda.
Quando muito comove-se, mas não se move.

Vinde, Espírito de Verdade, 
cativai o nosso coração e atraí-o a Vós.
«Guardai sadio o seu paladar interior,
para poder saborear e beber
a sabedoria, a justiça, a verdade, a eternidade»[1]!

[1] Comentário ao Evangelho de João 26, 5.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Cuius animam gementem,
contristatam et dolentem

pertransivit gladius.

TERCEIRA ESTAÇÃO
Jesus cai pela primeira vez

Jesus cai; mas, manso e humilde, levanta-Se

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/.
 Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Do Evangelho segundo Mateus 11, 28-30

«Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve».

As quedas de Jesus, ao longo do Caminho da Cruz, não pertencem à Sagrada Escritura; são um legado da piedade tradicional, guardado e cultivado no coração de tantos em oração.
Na sua primeira queda, Jesus dirige-nos um convite, abre-nos um caminho, inaugura uma escola para nós.
É o convite para ir ter com Ele na experiência da impotência humana, a fim de descobrir nela o enxerto da Potência divina.
É o caminho que conduz à fonte da autêntica saciedade, a da Graça que basta.
É a escola onde se aprende a mansidão que acalma a rebeldia e onde a confiança toma o lugar da presunção.
A partir da cátedra da sua queda, Jesus propõe-nos sobretudo a grande lição da humildade, «o caminho que O levou à ressurreição»[1]. O caminho que, depois de cada queda, nos dá a força para dizer: «Agora recomeço, Senhor; mas convosco, não sozinho!»

Humilde Jesus,
as nossa quedas, tecidas de limitações e pecado,
ferem o orgulho do nosso coração,
fecham-no à graça da humildade
e embargam o caminho que nos leva ao vosso encontro.

Vinde, Espírito de Verdade,
libertai-nos de toda a pretensão de auto-suficiência
e concedei-nos reconhecer, em cada uma das nossas quedas, 
um degrau da escada para subir até Vós! 

[1] Exposição sobre o Salmo 127, 10.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

O quam tristis et afflicta
fuit illa benedicta

Mater Unigeniti!

QUARTA ESTAÇÃO
Jesus encontra sua Mãe
 

Junto à Cruz de Jesus, a Mãe «está»:
 esta é a sua oração e a sua maternidade

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/.
 Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Do Evangelho segundo João 19, 25-27

Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe e a irmã da sua mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria Madalena. Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: «Mulher, eis o teu filho!» Depois, disse ao discípulo: «Eis a tua mãe!» E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua.

São João refere o facto de a Mãe estar junto à Cruz de Jesus, mas nenhum evangelista nos fala directamente de um encontro entre ambos.
Na realidade, é neste «estar da Mãe» que se concentra a expressão mais densa e alta do encontro. No aparente estatismo do verbo estar, vibra a íntima vitalidade de um dinamismo.
É o dinamismo intenso da oração, que se conjuga com a sua pacata passividade. Rezar é deixar-se envolver pelo olhar amoroso e veraz de Deus, que nos revela a nós mesmos e nos envia para a missão.
Na oração autêntica, o encontro pessoal com Jesus torna mãe e discípulo amado, gera vida e transmite amor. Dilata o espaço interior do acolhimento e tece místicos laços de comunhão, confiando-nos um ao outro e abrindo o tu ao nós da Igreja.

Humilde Jesus,
quando as adversidades e as injustiças da vida,
o sofrimento inocente e a sinistra violência
nos fazem invectivar contra Vós,
Vós convidais-nos a estar, como vossa Mãe, aos pés da Cruz.

Quando as nossas expectativas e as nossas iniciativas,
desprovidas de futuro ou marcadas pela falência,
nos levam a evadir no desespero,
Vós chamais-nos à força da esperança.
Verdadeiramente tínhamos esquecido
a força deste estar como expressão do rezar!

Vinde, Espírito de Verdade,
sede Vós o «grito do nosso coração»[1],
que, incessante e inexprimível,
está
 confiante na presença de Deus!

[1] Cf. Exposição sobre o Salmo 118, d. 29, 1.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Quæ mærebat et dolebat,
pia Mater, dum videbat

Nati pœnas incliti.

QUINTA ESTAÇÃO
Jesus é ajudado por Simão Cireneu a levar a Cruz

Jesus aprende a obediência de amor, 
ao longo do caminho da Paixão

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Do Evangelho segundo Lucas 23, 26

Quando O iam conduzindo, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que voltava do campo, e carregaram-no com a cruz, para a levar atrás de Jesus.

Simão de Cirene é um homem cujo retrato nos é dado pelos evangelistas com particular precisão de nome e proveniência, família e actividade; é um homem fotografado num lugar e tempo determinados, e de certo modo constrangido a levar uma cruz que não é sua. Na realidade, Simão de Cirene é cada um de nós. Recebe o madeiro da Cruz de Cristo, como um dia nós recebemos e acolhemos o seu sinal no santo Baptismo.
A vida do discípulo de Jesus é esta obediência ao sinal da Cruz, num gesto cada vez mais caracterizado pela liberdade do amor. É o reflexo da obediência do seu Mestre. É deixar-se, com pleno abandono, instruir como Ele pela geometria do amor[1], pelas próprias dimensões da Cruz: «a largura das obras de bondade; o comprimento da perseverança nas adversidades; aaltura da expectativa que aguarda e sonha alto; a profundidade da raiz da graça que penetra na gratuidade»[2]

Humilde Jesus,
quando a vida nos apresenta um cálice amargo e difícil de beber,
a nossa natureza fecha-se, protesta,
não ousa deixar-se atrair pela loucura
daquele amor maior que faz da renúncia alegria,
da obediência liberdade,
do sacrifício dilatação do coração!

Vinde, Espírito de Verdade,
tornai-nos obedientes à visita da Cruz,
dóceis ao seu sinal que abraça tudo em nós:
«corpo e alma, pensamentos e vontade,
mente e sentimento, agir e sofrer»[3],
e tudo dilata à medida do amor!

[1] Cf. Ef 3, 18.
[2] Cf. Carta 140, 26, 64.
[3] Cf. R. Guardini, O Espírito da Liturgia. Os Sinais Sagrados, Brescia 2000, p. 126.

 

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Quis est homo qui non fleret,
Matrem Christi si videret

in tanto supplicio?

SEXTA ESTAÇÃO
A Verônica limpa o rosto de Jesus

Jesus não olha à aparência.
Jesus vê o coração

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Da Segunda Carta aos Coríntios do Apóstolo São Paulo 4, 6

O Deus que disse: «Das trevas brilhe a luz», foi quem brilhou nos nossos corações, para irradiar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo.

Ao longo do Caminho da Cruz, a piedade popular regista o gesto de uma mulher, denso de delicadeza e veneração, como que um rasto do perfume de Betânia: Verónica limpa o rosto de Jesus. Naquele Rosto, desfigurado pelo sofrimento, Verónica reconhece o Rosto transfigurado pela glória; na fisionomia do Servo sofredor, ela vê o mais Belo dos filhos dos homens. Este é o olhar que suscita o gesto gratuito da ternura e recebe, em recompensa, a efígie do Rosto Sagrado! Verónica ensina-nos o segredo do seu olhar de mulher, «que vai ao encontro do outro e lhe serve de ajuda: ver com o coração[1].

Humilde Jesus,
o nosso é um olhar incapaz de ir mais além:
mais além
 da indigência, para reconhecer a vossa presença,
mais além
 da sombra do pecado,
para vislumbrar o sol da vossa misericórdia,
mais além
 das rugas da Igreja, para contemplar o rosto da Mãe.

Vinde, Espírito de Verdade,
deitai nos nossos olhos «o colírio da fé»[2]
para que não se deixem atrair pela aparência das coisas visíveis,
mas aprendam a fascinação das invisíveis.

[1] Cf. João Paulo II, Carta a  vós, mulheres, n. 12.
[2] Comentário ao Evangelho de João 34, 9.

 

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Quis non posset contristari, 
piam Matrem contemplari 

dolentem cum Filio?

SÉTIMA ESTAÇÃO
Jesus cai pela segunda vez

Jesus não dá mostras de força, 
mas ensina a paciência
[1]

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/.
 Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Da Primeira Carta do Apóstolo São Pedro 2, 21b-24

Cristo padeceu por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos. Ele não cometeu pecado nem na sua boca se encontrou engano; ao ser insultado, não respondia com insultos; ao ser maltratado, não ameaçava, mas entregava-Se Àquele que julga com justiça; subindo ao madeiro, Ele levou os nossos pecados no seu corpo, para que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fostes curados.

Jesus cai de novo sob o peso da Cruz. Sobre o madeiro da nossa salvação pesam não só as enfermidades da natureza humana, mas também as adversidades da vida. Jesus carregou o peso da perseguição contra a Igreja de ontem e de hoje, a perseguição que mata os cristãos em nome de um deus alheio ao amor e a que mina a sua dignidade com «lábios mentirosos e palavras arrogantes»[2]. Jesus carregou o peso da perseguição contra Pedro, aquela contra a voz clara da «verdade que interpela e liberta o coração»[3]. Jesus, com a sua Cruz, carregou o peso da perseguição contra o seus servos e discípulos, contra aqueles que respondem ao ódio com o amor, à violência com a mansidão. Com a sua Cruz, Jesus carregou o peso daquele exagerado «amor de nós mesmos que chega ao desprezo de Deus»[4] e espezinha o irmão. Tudo carregou voluntariamente, tudo sofreu «com a sua paciência, para dar uma lição à nossa paciência»[5].

Humilde Jesus,
nas injustiças e adversidades desta vida,
não resistimos com paciência.
Muitas vezes imploramos, como sinal da vossa força,
que nos livreis do peso do madeiro da nossa cruz.

Vinde, Espírito de Verdade,
ensinai-nos a caminhar segundo o exemplo de Cristo
para «realizar os seus importantes preceitos de paciência
com as atitudes do coração»[6]!

[1] Cf. Exposição sobre o Salmo 40, 13.
[2] Cf. Sal 11(12), 4.
[3] Cf. Bento XVI, O elogio da consciência. A verdade interpela o coração, Sena 2009.
[4] A Cidade de Deus 14, 28.
[5] Discurso 175, 3, 3.
[6] Comentário ao Evangelho de João 113, 4.

 

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Pro peccatis suae gentis
vidit Iesum in tormentis

et flagellis subditum.

OITAVA ESTAÇÃO
Jesus encontra as mulheres de Jerusalém 
que choram por Ele
 

Jesus fixa em nós o olhar e suscita o pranto da conversão

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/.
 Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Do Evangelho segundo Lucas 23, 27-31

Seguiam Jesus uma grande multidão de povo e umas mulheres que batiam no peito e se lamentavam por Ele. Jesus voltou-Se para elas e disse-lhes: «Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos; pois virão dias em que se dirá: “Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram”. Hão-de, então, dizer aos montes: “Caí sobre nós!” E às colinas: “Cobri-nos!” Porque, se tratam assim a madeira verde, o que não acontecerá à seca?».

Jesus Mestre, ao longo do Caminho do Calvário, continua a instruir a nossa humanidade. Com o seu olhar de verdade e misericórdia, ao encontrar as mulheres de Jerusalém, recolhe as lágrimas de compaixão derramadas por Ele. Ele, o Deus que chorou e Se lamentou sobre Jerusalém[1], educa agora o pranto daquelas mulheres para que não fique estéril lamentação externa. Convida-as a reconhecerem n’Ele a sorte do Inocente injustamente condenado e queimado, como madeira verde, pelo «castigo que nos salva»[2]. Ajuda-as a interrogarem amadeira seca do próprio coração para sentirem a dor benéfica da compunção.

Aqui brota o pranto autêntico, quando os olhos confessam com as lágrimas não só o pecado, mas também a dor do coração. São lágrimas abençoadas, como as de Pedro, sinal de arrependimento e penhor de conversão, que renovam em nós a graça do Baptismo.

Humilde Jesus,
no vosso corpo sofredor e maltratado 
insultado e escarnecido,
não sabemos reconhecer
as feridas das nossas infidelidades e das nossas ambições,
das nossas traições e das nossas rebeldias.
São feridas que clamam
e invocam o bálsamo da nossa conversão,
quando hoje já não sabemos chorar pelos nossos pecados.

Vinde, Espírito de Verdade,
mandai sobre nós o dom da Sabedoria!
Na luz do Amor que salva,
dai-nos o conhecimento da nossa miséria,
«as lágrimas que dissolvem a culpa,
o pranto que merece o perdão»[3]!

[1] Cf. Lc 19, 41.
[2] Is 53, 5.
[3] Cf. S. Ambrósio, Exposição do Evangelho segundo Lucas 10, 90.

 

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Eia, Mater, fons amoris,
me sentire vim doloris

fac, ut tecum lugeam.

NONA ESTAÇÃO
Jesus cai pela terceira vez
 

Jesus, com a sua debilidade, 
torna forte a nossa debilidade

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Do Evangelho segundo Lucas 22, 28-30a.31-32

«Vós sois os que permaneceram sempre junto de Mim nas minhas provações, e Eu disponho do Reino a vosso favor, como meu Pai dispõe dele a meu favor, a fim de que comais e bebais à minha mesa, no meu Reino. (…). Simão, Simão, olha que Satanás pediu para vos joeirar como trigo. Mas Eu roguei por ti, para que a tua fé não desapareça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos».

Com a sua terceira queda, Jesus confessa com quanto amor abraçou, por nós, o peso da provação e renova o chamamento para O seguirmos até ao fim na fidelidade. Mas permite-nos também lançar um olhar para além do véu da promessa: «Se nos mantivermos firmes, reinaremos com Ele»[1].

As suas quedas pertencem ao mistério da sua Encarnação. Procurou-nos na nossa debilidade, descendo até ao fundo da mesma para nos elevar até Ele. «Mostrou-nos em Si mesmo o caminho da humildade, para nos abrir o caminho do regresso»[2]. «Ensinou-nos a paciência como arma para vencer o mundo»[3]. Agora, caído no chão pela terceira vez, enquanto «Se com-padece das nossas fraquezas»[4], indica-nos o modo para não sucumbir na provação: perseverar, permanecer firmes e inabaláveis. Simplesmente: «permanecer n’Ele»[5].  

Humilde Jesus,
diante das provações que põem à prova a nossa fé
sentimo-nos desolados:
ainda não acreditamos que estas nossas provações
já foram as Vossas
e que Vós nos convidais simplesmente
a vivê-las convosco.

Vinde, Espírito de Verdade,
nas quedas que assinalam o nosso caminho,
ensinai-nos a apoiar-nos na fidelidade de Jesus,
a crer na sua oração por nós,
para acolher aquela corrente de força
que só Ele, o Deus-connosco, nos pode dar!

[1] 2 Tm 2, 12.
[2] Cf. Discurso 50, 11.
[3] Cf. Comentário ao Evangelho de João 113, 4.
[4] Heb 4, 15.
[5] Cf. Jo 15, 7.

 

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Fac ut ardeat cor meum
in amando Christum Deum,

ut sibi complaceam.

DÉCIMA ESTAÇÃO
Jesus é despojado das suas vestes

Jesus fica nu, para nos revestir com a veste de filhos

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/.   Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Do Evangelho segundo João 19, 23-24

Os soldados, depois (…) pegaram na roupa de Jesus e fizeram quatro partes, uma para cada soldado, excepto a túnica. A túnica, toda tecida de uma só peça de alto a baixo, não tinha costuras. Então, os soldados disseram uns aos outros: «Não a rasguemos; tiremo-la à sorte, para ver a quem tocará». Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Repartiram entre eles as minhas vestes e sobre a minha túnica lançaram sortes. E foi isto o que fizeram os soldados.

Jesus fica nu. A imagem de Jesus despojado das vestes é rica de ressonâncias bíblicas: leva-nos até à nudez inocente das origens e à vergonha da queda[1].
Na inocência original, a nudez era a veste gloriosa do homem: a sua amizade cristalina e bela com Deus. Com a queda, a harmonia de tal relação rompe-se, a nudez causa vergonha e traz consigo a lembrança dramática daquela perda.
Nudez é sinónimo de verdade do ser.
Despojado das suas vetes, Jesus tece, a partir da Cruz, o vestido novo da dignidade filial do homem. Aquela túnica sem costuras permanece ali, íntegra, para nós: a veste da sua filiação divina não se rompeu, mas é-nos dada do alto da Cruz.

Humilde Jesus,
diante da vossa nudez,
descobrimos o essencial
da nossa vida e da nossa alegria:
sermos, em Vós, filhos do Pai.
Mas confessamos também a resistência sentida
ao abraçar a pobreza como dependência do Pai
e ao acolher a nudez como vestido filial.

Vinde, Espírito de Verdade,
ajudai-nos a reconhecer e bendizer, em cada despojamento que sofremos,
um encontro com a verdade do nosso ser,
um encontro com a nudez redentora do Salvador,
um trampolim de salto para o abraço filial com o Pai!

[1] Gen 2, 25; 3, 7.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Sancta Mater, istud agas,
Crucifixi fige plagas

cordi meo valide.

DÉCIMA PRIMEIRA ESTAÇÃO
Jesus é pregado na Cruz

Elevado da terra, Jesus atrai todos a Si

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Do Evangelho segundo João 19, 18-22

Lá O crucificaram, e com Ele outros dois, um de cada lado, ficando Jesus no meio. Pilatos redigiu um letreiro e mandou pô-lo sobre a cruz. Dizia: «Jesus Nazareno, Rei dos Judeus». Este letreiro foi lido por muitos judeus, porque o lugar onde Jesus tinha sido crucificado era perto da cidade e o letreiro estava escrito em hebraico, em latim e em grego. Então, os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: «Não escrevas “Rei dos Judeus”, mas sim: “Este homem afirmou: Eu sou Rei dos Judeus”». Pilatos respondeu: «O que escrevi, escrevi».

Jesus crucificado está no centro; a inscrição real, lá no alto da Cruz, desvenda as profundidades do mistério: Jesus é o Rei, e a Cruz o seu trono. A realeza de Jesus, escrita em três línguas, é uma mensagem universal: para o simples e o sábio, para o pobre e o poderoso, para quem se abandona à Lei divina e para quem confia no poder político. A imagem do Crucificado, que nenhuma sentença humana poderá jamais remover das paredes do nosso coração, permanecerá para sempre a Palavra real da Verdade: «Luz crucificada que ilumina os cegos»[1], «tesouro oculto que só a oração pode descerrar»[2], coração do mundo.

Jesus não reina dominando com um poder deste mundo, Ele «não dispõe de nenhuma legião»[3]. «Jesus reina, atraindo»[4]: o seu íman é o amor do Pai que n’Ele se entrega por nós «até ao fim sem confins»[5]. «Nada escapa ao seu calor»[6]!

Senhor Jesus, crucificado por nós!
Vós sois a confissão
do grande amor do Pai pela humanidade,
o ícone da única verdade credível.
Atraí-nos a Vós,
para aprendermos a viver
«por amor do vosso amor»[7].

Vinde, Espírito de Verdade,
ajudai-nos a preferir sempre «Deus e a sua vontade
aos interesses do mundo e às suas potências,
para descobrirmos na impotência externa do Crucificado
a força incessante da verdade»[8].

[1] Cf. Discurso 136, 4.
[2] Cf. Discurso 160, 3.
[3] Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré: Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição, Cidade do Vaticano 2011, p. 157.
[4] Cf. Jo 12, 32.
[5] H. U. von Balthasar, Vós coroais o ano com a vossa graça, Milão 1990, p. 188.
[6] Sal 18 (19), 7.
[7] Confissões 2, 1, 1. 
[8] Cf. Joseph Ratzinger/Bento XVI, obra citada, pp. 159-160.

 

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Tui Nati vulnerati,
tam dignati pro me pati

poenas mecum divide.

DÉCIMA SEGUNDA ESTAÇÃO
Jesus morre na Cruz

Jesus vive a sua morte 
como dom de amor

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Do Evangelho segundo João 19, 28-30

Jesus, sabendo que tudo se consumara, para se cumprir totalmente a Escritura, disse: «Tenho sede!» Havia ali uma vasilha cheia de vinagre. Então, ensopando no vinagre uma esponja fixada num ramo de hissopo, chegaram-Lha à boca. Quando tomou o vinagre, Jesus disse: «Tudo está consumado». E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

«Tenho sede». «Tudo está consumado». Nestas duas frases, Jesus confia-nos, com um olhar voltado para a humanidade e outro para o Pai, o desejo ardente que envolveu a sua pessoa e a sua missão: o amor ao homem e a obediência ao Pai. Um amor horizontal e um amor vertical: eis o desenho da Cruz! E do ponto de encontro deste duplo amor, lá onde Jesus inclina a cabeça, brota o Espírito Santo, primeiro fruto do seu regresso ao Pai.

Neste sopro vital da consumação, vibra a lembrança da obra da criação[1] agora redimida; mas vibra também o apelo a todos nós, crentes n’Ele, para «completarmos aquilo que falta, das tribulações de Cristo, na nossa carne»[2]. Até que tudo esteja consumado!

Senhor Jesus, morto por nós!
Vós pedis para dar,
morreis para entregar
e entretanto fazeis-nos descobrir no dom pessoal
o gesto que cria o espaço da unidade.
Perdoai o vinagre da nossa recusa e da nossa incredulidade,
perdoai a surdez do nosso coração
ao vosso grito de sede
que continua a elevar-se do sofrimento de tantos irmãos.

Vinde, Espírito Santo,
herança do Filho que morre por nós:
sede Vós a «guiar-nos para a verdade completa»[3]
e «a raiz que nos guarda unidos»[4]!

[1] Gen 2, 2.7.
[2] Cf. Col 1, 24.
[3] Cf. Jo 16, 13. 
[4] Cf. Exposição sobre o Salmo 143, 3.

 

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Vidit suum dulcem Natum 
morientem desolatum, 

cum emisit spiritum.

DÉCIMA TERCEIRA ESTAÇÃO
Jesus é descido da Cruz 
e entregue a sua Mãe

O corpo de Jesus é acolhido no abraço da Mãe

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/. Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Do Evangelho segundo João 19, 32-35.38

Os soldados foram e quebraram as pernas ao primeiro e também ao outro que tinha sido crucificado juntamente com Ele. Mas, ao chegarem a Jesus, vendo que já estava morto, não Lhe quebraram as pernas. Porém, um dos soldados traspassou-Lhe o peito com uma lança e logo brotou sangue e água. Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu testemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também. (…) Depois disto, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, mas secretamente por medo das autoridades judaicas, pediu a Pilatos que lhe deixasse levar o corpo de Jesus. E Pilatos permitiu-lho. Veio, pois, e retirou o corpo.

A perfuração do peito de Jesus, de ferida tornou-se fresta, porta aberta para o coração de Deus. Aqui o seu amor infinito por nós deixa-se tomar como água que vivifica e bebida que invisivelmente sacia e faz renascer. Também nós nos aproximamos do corpo de Jesus descido da Cruz e sustentado pelos braços da Mãe. Aproximamo-nos «não caminhando, mas crendo, não com os passos do corpo, mas com a livre decisão do coração»[1]. Neste corpo inanimado, reconhecemo-nos como seus membros feridos e sofredores, mas guardados pelo abraço amoroso da Mãe. Mas reconhecemo-nos também nestes braços maternos, simultaneamente fortes e ternos.
Os braços abertos da Igreja-Mãe lembram o altar que nos oferece o Corpo de Cristo e aí, nós, tornamo-nos Corpo místico de Cristo.

Senhor Jesus,
entregue à Mãe, figura da Igreja-Mãe!
Diante do ícone de Nossa Senhora da Piedade
aprendemos a dedicação ao sim do amor,
o abandono e o acolhimento,
a confiança e a atenção concreta,
a ternura que cura a vida e suscita a alegria.

Vinde, Espírito Santo,
guiai-nos, como guiastes Maria,
na gratuidade irradiante do amor, 
«derramado por Deus nos nossos corações
com o dom da vossa presença»[2]!

[1] Comentário ao Evangelho de João 26, 3.
[2] Cf. Rm 5, 5.

 

Todos:

Pater noster, qui es in cælis;
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Fac me vere tecum flere, 
Crucifixo condolere, 

donec ego vixero.

DÉCIMA QUARTA ESTAÇÃO
Jesus é depositado 
no sepulcro

A terra do silêncio e da expectativa guarda Jesus,
semente fecunda de vida nova

V/. Adoramus te, Christe, et benedicimus tibi.
R/.
 Quia per sanctam Crucem tuam redemisti mundum.

Do Evangelho segundo João 19, 40-42

Tomaram então o corpo de Jesus e envolveram-no em panos de linho com os perfumes, segundo o costume dos judeus. No sítio em que Ele tinha sido crucificado havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. Como para os judeus era o dia da Preparação da Páscoa e o túmulo estava perto, foi ali que puseram Jesus.

Um jardim, símbolo da vida com as suas cores, acolhe o mistério do homem criado e redimido. Num jardim, Deus colocou a sua criatura[1] e de lá a expulsou depois da queda[2]. Num jardim, teve início a Paixão de Jesus[3] e, num jardim, um sepulcro novo acolhe o novo Adão que volta à terra[4], ventre materno que guarda a semente fecunda que morre.

É o tempo da fé que aguarda silenciosa, e da esperança que no ramo seco já vislumbra o despontar de um pequenino rebento, promessa de salvação e de alegria.

Agora a voz de «Deus fala no grande silêncio do coração»[5].

[1] Gen 2, 8.
[2] Gen 3, 23.
[3] Jo 18, 1.
[4] Jo 19, 41.
[5] Exposição sobre o Salmo 38, 20.

Todos:

Pater noster, qui es in cælis:
sanctificetur nomen tuum;
adveniat regnum tuum;
fiat voluntas tua, sicut in cælo, et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a malo.

Quando corpus morietur,
fac ut animæ donetur
paradisi gloria. 
Amen.

DISCURSO DO SANTO PADRE 
E BÊNÇÃO APOSTÓLICA

O Santo Padre dirige a palavra aos presentes.

No final do discurso, o Santo Padre dá a Bênção Apostólica:

V/. Dominus vobiscum. 
R/. Et cum spiritu tuo.

V/. Sit nomen Domini benedictum. 
R/. Ex hoc nunc et usque in sæculum.

V/. Adiutorium nostrum in nomine Domini. 
R/. Qui fecit cælum et terram.

V/. Benedicat vos omnipotens Deus,
Pater et Filius et Spiritus Sanctus.
R./ Amen.

CÂNTICO

R. Crux fidelis, inter omnes arbor una nobilis,
Nulla talem silva profert, flore, fronde, germine!
Dulce lignum dulci clavo dulce pondus sustinens.

1. Pange, lingua, gloriosi proelium certaminis,
Et super Crucis trophaeo dic triumphum nobilem,
Qualiter Redemptor orbis immolatus vicerit. R.

2. De parentis protoplasti fraude factor condolens,
Quando pomi noxialis morte morsu corruit,

Ipse lignum tunc notavit, damma ligni ut solveret. R. 

 

[Tradução oficial da Santa Sé

© Copyright 2011 - Libreria Editrice Vaticana]